Casal viaja pelo mundo em ambulância (e já passou por Portugal): “Nunca ninguém nos abordou para assistência médica”

CNN , Tamara Hardingham-Gill
13 nov, 11:00

Dois veterinários a viajar pelo mundo numa ambulância com a sua cadela a reboque pode parecer a premissa de um filme. Mas é bem a realidade para o casal britânico Lawrence Dodi e Rachel Nixon, que está há cerca de um ano numa viagem global, atravessando mais de 50 países, numa tentativa de estabelecer o recorde do Guinness para o trajeto mais longo de ambulância.

O casal, que partiu em outubro de 2021, tem atraído bastante atenção, já que se desloca de país em país numa antiga ambulância privada, um Land Rover Defender branco com riscas verdes e amarelas fluorescentes, anteriormente usada em eventos equestres.

“Nunca ninguém nos abordou para assistência médica”, diz Dodi, apontando que a ambulância não se parece verdadeiramente com os veículos de emergência de nenhum dos lugares por onde têm passado.

“Mas recebemos muitos olhares. No trânsito, todos olham para nós.”

O desafio da ambulância

O casal britânico, Lawrence Dodi e Rachel Nixon, está a tentar estabelecer o Guinness World Record para a Viagem Mais Longa de Ambulância. Crédito: Lawrence Dodi

Dodi e Nixon, ambos veterinários, procuravam um veículo para converter em autocaravana e no qual pudessem viajar pelo mundo, quando Nixon encontrou por acaso a ambulância no eBay, em 2018.

“O plano inicial não era comprar uma ambulância ou tentar estabelecer um recorde mundial ou algo do género”, explica Dodi.

“Estávamos à procura de um veículo funcional onde viajar e apaixonámo-nos pela ambulância e pela sua estética.”

Depois de adquirirem o veículo, que ainda tinha todo o equipamento e acessórios de uma ambulância no seu interior, a par de uma maca, Nixon deparou-se com um artigo sobre um grupo que estava a tentar estabelecer um recorde para a distância mais longa percorrida num carro de bombeiros.

Quando se apercebeu de que ninguém parecia ter formalmente tentado fazer o mesmo numa ambulância, o casal contactou o Guinness World Records para saber se podiam tentar.

Foi dito a Nixon e Dodi que teriam de respeitar uma série de especificações, como garantir que o veículo mantinha a capacidade de funcionar como ambulância (embora não sendo usado como veículo de emergência) e continuava a ter a aparência externa de uma ambulância.

Eles tomaram isso em consideração ao traçar o layout interior, conseguindo cumprir as diretrizes e ainda ter espaço para acomodar um fogão e um frigorífico “e todas as outras coisas associadas a uma autocaravana”.

Nos muitos meses desde que deixaram o Reino Unido, o casal percorreu cerca de 24 mil quilómetros e atravessou 24 países, incluindo a Arménia e a Bósnia, com Nixon como “condutora principal”.

Companhia canina

Nixon encontrou por acaso um anúncio de venda de uma ambulância em 2018, quando o casal estava à procura de um veículo onde viajar. Crédito: Lawrence Dodi

Embora já tenham completado a distância mínima de 20 mil quilómetros, inicialmente definida pelo Guinness World Records, vão “continuar e tentar estabelecer a distância mais longa possível”.

Levando consigo a sua Springer Spaniel, Peggy Sue, que tem um passaporte europeu de animal de companhia, bem como toda a vacinação e exames necessários para viajar pela Europa. A cadela fez sempre parte do plano e o casal diz que ela “está a viver a melhor das vidas” nesta viagem de estrada.

“Ela pode ter 10 anos, mas pensa que tem 2”, diz Dodi. “Ela pode caminhar por aí o dia todo, mas se tiver de ficar quieta na caravana o dia inteiro também é capaz de o fazer. Por isso, em termos das nossas atividades no exterior não tem sido grande problema.”

Embora tivessem de saltar algumas atividades onde os cães não eram permitidos e embora alguns países fossem menos amigos dos cães do que outros, Dodi e Nixon não se arrependem de todo de ter levado Peggy consigo.

“Penso que, provavelmente, nos trouxe mais oportunidades”, conta Dodi, sublinhando que Peggy tem funcionado como uma espécie de atração.

Dodi e Nixon, que têm partilhado o seu percurso online, num blogue, tinham inicialmente planeado a viagem como “uma verdadeira circum-navegação global”, que os levaria desde a Ásia Central à Rússia, antes de embarcarem na ambulância rumo à América do Norte.

Contudo, devido a variados fatores, como a guerra na Ucrânia, o conflito entre o Azerbaijão e a Arménia, os protestos por todo o Irão e o facto de algumas fronteiras na Ásia Central continuarem encerradas por restrições relativas à covid-19, viram-se obrigados a alterar a rota.

O casal planeia agora viajar de volta ao Reino Unido no início do próximo ano, antes de levar a ambulância para Halifax, no Canadá, e percorrer a PanAmerican Highway, a estrada rodoviária mais longa do mundo, até ao extremo da Argentina. O seu destino final será o Liverpool FC – um clube de futebol em Montevideo, no Uruguai, com o mesmo nome da equipa da sua cidade natal, no Reino Unido.

Consciencializar

De momento, não estão certos de levar Peggy consigo para a América do Sul, ponderando deixá-la no Reino Unido com a família, quando regressarem brevemente no início do próximo ano.

“Penso que se não a levarmos, vamos sentir imenso a sua falta”, assume Dodi, antes de explicar que Peggy sofreu com o calor em alguns pontos da viagem, o que os deixa preocupados em relação à América do Sul.

“Por outro lado, não a queremos sujeitar a nada com que ela não se sinta bem.”

Embora Dodi e Nixon tivessem inicialmente planeado levar dois anos a concluir o desafio, alargaram esse prazo por mais 6 a 12 meses.

O casal tem angariado fundos para duas instituições de beneficência: a Anthony Nolan, uma instituição britânica que procura conectar pessoas que sofrem de cancro do sangue com dadores voluntários, e a instituição independente Vet Life, que presta apoio emocional, financeiro e de saúde mental à comunidade veterinária.

Segundo um estudo de 2020 conduzido pela Merck Animal Health em parceria com a Associação Americana de Medicina Veterinária, os veterinários são 2,7 vezes mais prováveis de morrer por suicídio do que a população geral.

Dodi e Nixon dizem ambos ter perdido colegas e amigos neste setor devido a suicídio e estão empenhados em consciencializar para a questão.

Criando memórias

A partida de Albert Dock, em Liverpool, em outubro de 2021. Crédito: Sarah Eddon

Embora tenham explorado alguns locais incríveis, incluindo os picos mais altos do Kosovo, Montenegro e Arménia, afirmam que foram as pessoas que conheceram pelo caminho e as experiências que tiveram o que mais se destacou.

Dodi recorda uma noite em que viajavam pela Geórgia à procura de um lugar onde passar a noite, acabando por ser convidados para a casa de um habitante local, que celebrava a sua festa de aniversário.

“Fomos tratados como convidados de honra”, lembra. “Instalaram-nos num quarto e, no dia seguinte, serviram-nos o pequeno-almoço.”

O casal diz que uma série de habitantes locais lhes fizeram convites para jantar, enquanto viajavam pela Turquia, tendo participado de diversos churrascos.

“O mundo está cheio de pessoas maravilhosas”, diz Dodi. “Foi verdadeiramente comovente ver que não é um lugar horrível e assustador.”

Com as suas vidas de certa forma em pausa, enquanto prosseguem a sua jornada, já pensam no futuro e dizem estar a planear regressar ao Reino Unido e assentar, uma vez completado o desafio.

“O dinheiro acabará por se esgotar”, diz Nixon, explicando que estabeleceram um orçamento diário de 30 libras (cerca de 26 dólares) e que planeiam arranjar trabalho temporário, quando regressarem ao Reino Unido, onde a ambulância será submetida à inspeção automóvel em fevereiro, para garantia de que pode continuar a circular.

“Em algum momento, teremos de pensar em regressar e criar uma família”, acrescenta Dodi.

Por agora, desfrutam alegremente da liberdade de poder viajar juntos pelo mundo e estabelecer conexões com outros viajantes pelo caminho.

“Conhecemos tantas pessoas nestas viagens fantásticas”, diz Dodi. “E há sempre alguém que o faz há mais tempo, indo a mais lugares e fazendo-o das formas mais inusitadas, o que nos deixa com inveja. E faz-nos pensar: se eu o pudesse fazer assim…”

Contactos, informações e apoios

Para informações, ajudas, contactos consulte o site da Campanha Nacional de Prevenção do Suicídio em prevenirsuicidio.pt.

Linhas de apoio:

SOS VOZ AMIGA
15:30 – 0:30
213 544 545 | 912 802 669 | 963 524 660

TELEFONE DA AMIZADE 
16:00 – 23:00
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CONVERSA AMIGA
15:00 – 22:00
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VOZ DE APOIO
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Email: sos@vozdeapoio.pt

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