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O que acontece à roupa usada que devolvemos às lojas para ser reciclada? Provavelmente, vai acabar aqui

CNN Portugal , MJC
27 nov 2024, 16:17
Lixeiras de roupa no Gana (AP)

Num relatório que coincide com a Black Friday, a Greenpeace alerta que o consumo de fast fashion é “uma bomba-relógio ambiental”: 80% da roupa usada recolhida na União Europa é exportada para outros países, onde pelo menos 40% das peças acabam em aterros ou queimadas

São cada vez mais as lojas de roupas que se propõem recolher as peças que já não queremos para encaminhá-las para a reciclagem. A ideia é boa, mas temos mesmo a certeza que aquelas peças vão ter uma "segunda vida"? Para saber o que acontece às roupas usadas depois de as levarmos para o contentor para “reciclar”, em 2023 a Greenpeace decidiu colocar dispositivos de rastreio em 29 peças de roupa que foram colocadas em contentores de diversas cidades e que, logo, começaram a circular pelo mundo. No final, apenas foi possível determinar a reutilização de uma das 29 peças de vestuário monitorizadas, que foi adquirida numa loja de segunda mão na Roménia. Meses depois, muitas peças de roupa continuavam a mexer-se, percorrendo milhares de quilómetros para lugares tão distantes e diversificados como o Chile, o Paquistão, a Índia ou o Togo.

As conclusões não surpreenderam. Com este projeto, "confirmámos algo que já imaginávamos: as nossas roupas usadas raramente têm uma segunda vida. O volume é tão grande que representa um problema ambiental e social crescente", afirma a Greenpeace, que aproveita mais uma Black Friday para chamar a atenção dos consumidores para este problema global.

Estes sistemas de recolha de roupa usada, com contentores instalados nas suas lojas, são, para já, voluntários, mas em 2025 passam a ser obrigatórios em todas as empresas têxteis. Mas a Greenpeace tem dúvidas sobre a sua eficiência. “A economia circular não é compatível com o modelo de produção e consumo descontrolado que temos. Neste momento, a produção e aquisição de vestuário estão muito acima daquilo que o sistema é capaz de gerir com a reciclagem e com que o que o planeta pode assumir como volume de resíduos”, explica Sara del Río, coordenadora de investigação da Greenpeace, em entrevista ao El País. A Confederação Europeia das Indústrias de Reciclagem já alertou que a reutilização e reciclagem de têxteis está à beira do colapso em toda a Europa.

Uma praia com resíduos têxteis, no Gana (AP)

Um relatório da Agência Europeia do Ambiente (AEA) de 2024, usando dados de 2020, concluiu que nesse ano a União Europeia gerou 6,95 milhões de toneladas de resíduos têxteis, cerca de 16 kg por pessoa. Destes, apenas 4,4 kg (domésticos e industriais) foram recolhidos separadamente para potencial reutilização e reciclagem. 11,6 kg foram diretamente para o lixo doméstico.

Nas últimas duas décadas, a exportação de vestuário usado da União Europeia triplicou: de 550.000 toneladas em 2000 para quase 1,7 milhões em 2019, diz a ONG num outro relatório. Estima-se que 80% dos resíduos têxteis recolhidos seletivamente nos estados-membros se destinam à exportação para fora da UE: cerca de 46% acabam em África e 41% na Ásia.

No entanto, o seu destino final é incerto e a ideia de que deixar as nossas roupas num contentor lhes permite "uma segunda vida" e ajuda as pessoas necessitadas normalmente não corresponde à realidade, afirma a agência. A verdade é que 40% das roupas usadas exportadas para os países do Sul Global acabam em aterros ou queimadas.

Em 2022, o relatório da Greenpeace “Presentes Envenenados” documentou o impacto dos resíduos têxteis disfarçados de roupa em segunda mão exportada para a África Oriental. Por exemplo, no Quénia, de acordo com a Afrika Collect Textiles e outras fontes locais, 30-40% das roupas usadas que recebem são de má qualidade. São as roupas que já não podem ser vendidas e se transformam em resíduos têxteis que muitas vezes acabam em aterros sem receberem o tratamento adequado.

Uma elevada percentagem das fibras utilizadas no vestuário são sintéticas (principalmente poliéster) e, por isso, falamos de resíduos plásticos. Por um lado, o fabrico destes materiais derivados do petróleo implica o uso de substâncias químicas, muitas vezes perigosas. Por outro, estes materiais demoram décadas para degradar-se e, quando são queimados, emitem substâncias tóxicas para a atmosfera. Trata-se de "uma bomba-relógio ambiental", diz a Greenpeace.

A Greenpeace África fez também uma investigação sobre a situação no Gana, um dos países que recebe mais resíduos têxteis, e concluiu que, como não existem infraestruturas para eliminar estas enormes quantidades de resíduos têxteis e os aterros oficiais estão lotados, os resíduos são despejados em qualquer lugar, afirma o relatório intitulado “Fast Fashion Slow Poison. A crise têxtil tóxica no Gana”, divuldado em setembro. Por vezes são despejados ao longo dos rios ou nas proximidades das cidades, utilizados como combustível ou simplesmente queimados ao ar livre. Os perigos para a saúde da população são enormes. Em suma: produzimos demasiada roupa e criamos um problema que, em grande medida, é pago pelas pessoas mais vulneráveis ​​e pelo planeta, conclui a Greenpeace. 

Uma lixeira de residuos têxteis no Gana (AP)

Com a nova legislação a entrar em vigor no próximo ano, é provável que mais empresas e municípios instalem contentores para recolher roupas usadas. A Greenpeace insiste que esta lei se centra "no último elo da cadeia" e não no modo de produção, que está na origem do problema, e considera que este sistema "perpetua a mentalidade neocolonialista que está na base deste modelo promovido pelas marcas de moda e pela fuga destas às responsabilidades".

"São necessárias alterações legislativas muito mais drásticas", afirma Sara del Río. "Se uma empresa é totalmente responsável pelo impacto gerado pelos seus resíduos, também tem de ser responsável por garantir que estes não acabam num país africano, queimados ou num aterro, e, portanto, tem de se concentrar em fabricar menos e roupas de maior qualidade."

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