Poderão as algas ajudar a resolver a crise mundial do plástico?

CNN , Jacqui Palumbo
26 fev, 11:00
Uma startup sediada em Londres está a criar uma alternativa à base de algas para as embalagens de plástico descartáveis. Foto: Notpla

De acordo com as Nações Unidas, são produzidas 331 milhões de toneladas de resíduos de plástico anualmente em todo o mundo

Quando terminar as batatas fritas, coma a saqueta de ketchup. Ao juntar a massa à água a ferver, junte também a embalagem.

Se estas instruções lhe parecem estranhas, é porque nunca ouviu falar da Notpla, uma startup sediada em Londres que está a criar uma alternativa à base de algas para as embalagens de plástico descartáveis.

Fundada em 2014, a empresa fechou no mês passado uma primeira ronda de financiamento, no valor de 10 milhões de libras (cerca de 12 milhões de euros), liderada pela empresa de capital de risco Horizons Ventures, para se expandir e continuar a desenvolver a sua linha de produto.

Os produtos da Notpla são concebidos para serem transformados em adubo ou dissolvidos após a sua utilização, embora alguns também sejam comestíveis. Atualmente, a empresa disponibiliza saquetas para condimentos, água e até mesmo álcool; uma película aderente para os produtos que tem na despensa ou na casa de banho, como café ou papel higiénico; e caixas para transporte de alimentos que substituem a fina camada de película plástica por uma à base de algas para que sejam totalmente biodegradáveis.

A embalagem Ooho pode substituir as saquetas de temperos e de outros líquidos de porção individual, ao passo que as caixas para transporte de alimentos com um revestimento de algas são totalmente degradáveis. Foto: Notpla

Karlijn Sibbel, diretora de design da Notpla, diz que a empresa vai buscar inspiração à natureza para produzir a “embalagem ideal”, tal como a casca da fruta. A casca acabará por ser utilizada (enquanto nutriente) pela natureza, desaparecendo e tornando-se parte do ciclo, disse.

Esta abordagem parece ser especialmente relevante num momento em que o mundo começa a lidar com os efeitos de décadas de produção desenfreada de plástico. De acordo com as Nações Unidas, são produzidas 331 milhões de toneladas de resíduos de plástico anualmente em todo o mundo, e das 9,15 mil milhões de toneladas de plástico produzidas desde a década de 1950, cerca de 60 por cento foram parar a aterros sanitários ou descartadas na rua. Os microplásticos – pequenas partículas que resultam da degradação de plásticos de maiores dimensões – poluem os oceanos, a atmosfera e os nossos corpos.

A casca da fruta serviu de inspiração para a “embalagem ideal”, segundo a diretora de design Karlijn Sibbel, pois decompõe-se rapidamente e devolvem nutrientes à terra. Foto: David Lineton/Notpla

Nos últimos anos, tem havido um movimento crescente contra o uso de plásticos descartáveis. Muitos especialistas argumentam que os produtos são desnecessários e nocivos, e as empresas têm sido bastante criticadas pela utilização excessiva de plásticos descartáveis – como em 2019, quando a rede de supermercados norte-americana Whole Foods vendeu embalagens individuais de laranjas descascadas que se tornaram virais.

Nos Estados Unidos, alguns estados e municípios já tomaram medidas contra o plástico: Nova Iorque proibiu a maioria dos sacos de compras de plástico e, em Miami Beach, as palhinhas de plásticos já são ilegais. Fora dos Estados Unidos, a União Europeia adotou uma proibição contra a utilização de plásticos descartáveis que entrou em vigor em meados do ano passado e, em agosto de 2021, o governo indiano anunciou que a Índia tenciona fazer o mesmo em 2022.

"A dimensão do problema que o plástico representa é cada vez mais evidente”, disse Sibbel. Os fabricantes estão “a utilizar materiais que duram milhares de anos,” explicou, para produtos que consumimos “numa questão de minutos”. 

"Este contraste é algo que temos de resolver”, acrescentou.

Repensar o plástico

Os fundadores da Notpla, Rodrigo García González e Pierre Paslie, começaram por olhar para as algas marinhas como uma solução para a crise mundial do plástico por se tratar de uma matéria-prima que existe em abundância, tem um rápido ciclo de crescimento, não compete com culturas terrestres e absorve dióxido de carbono da atmosfera, explicou Sibbel.

Existem bastantes espécies de algas, e estas podem ser cultivadas ou apanhadas, sendo que a Notpla utiliza plantas cultivadas.

"As algas não necessitam de terrenos de cultivo nem de pesticidas”, disse Sibbel. "Podem crescer nos oceanos e nos mares, para os quais trazem benefícios ao criarem ecossistemas para que outros organismos prosperem.”

Esta startup faz embalagens a partir de algas marinhas

Desde que foi criada, esta startup recebeu subsídios da agência governamental britânica Innovate UK e da Fundação Ellen MacArthur, uma organização sem fins lucrativos em prol da economia circular, para desenvolver o seu primeiro produto, a saqueta Ooho para porções individuais de líquidos. A nova ronda de financiamento destina-se a aumentar a produção desta saqueta e do revestimento da Notpla e a continuar a desenvolver o novo papel à base de algas e a película multiusos.

A empresa aproveita as fibras que sobram da produção de outros produtos para produzir este papel à base de algas, que pode ser utilizado para fazer artigos como papel de embrulho ou etiquetas para vestuário, ao passo que a película aderente poderá acondicionar quase todos os produtos secos ou produtos húmidos com baixo teor de água.

A película maleável da Notpla pode substituir as embalagens de plástico. Foto: David Lineton/Notpla

"O mais empolgante é que se trata de uma película que pode substituir a maioria das embalagens maleáveis que usamos no dia a dia”, disse Sibbel. Pode ser utilizada para embalar café moído, papel higiénico ou os parafusos que vêm incluídos com os móveis que compramos. Para bens alimentares, tais como massas, a empresa chegou a experimentar adicionar sabores à embalagem, para que, ao ser dissolvida, acrescente sabor ao prato.

"Pode ser utilizada para cozinhar. E podemos realmente começar a repensar aquilo que é possível fazer com estes materiais”, explicou.

Mudanças no setor

Alguns produtos da Notpla já estão disponíveis online, mas a empresa também conseguiu importantes parcerias no Reino Unido e na Europa Ocidental para fazer o fornecimento de bebidas em festivais como o DGTL, em Amesterdão, e o Glastonbury, em Somerset. Em 2019, a Notpla distribuiu 36 mil saquetas Ooho com a bebida energética Lucozade Sport durante a Maratona de Londres e ofereceu cápsulas de uísque Glenlivet comestíveis na London Cocktail Week (semana de coquetéis de Londres).

No ano passado, a startup testou 30 mil caixas de transporte de alimentos em diferentes restaurantes britânicos, em colaboração com o serviço de entrega de refeições Just Eat, e já está a trabalhar para trazer estas caixas para o mercado europeu em 2022.

Com a expansão da empresa, a equipa da Notpla espera que as algas possam vir a substituir os plásticos descartáveis na cadeia de abastecimento de uma forma mais abrangente, disse Sibbel, mas com a quantidade de plástico que é utilizada a nível mundial, ela tem noção de que será uma tarefa hercúlea.

"Acho que não será um material ou uma solução que vai resolver tudo, mas pensamos que as algas cumprem todos os requisitos”, disse ainda.

Após retirarem os materiais para produzir as saquetas, películas e revestimentos da Notpla, o remanescente das algas pode ser aproveitado para produzir papel. Foto: Notpla

Repensar quando e porquê utilizamos o plástico será crucial para que a Notpla se alastre a outras indústrias, disse Sibbel. “O plástico serve para muita coisa”, acrescentou, mas é preciso perguntar: “Será mesmo necessário para a aplicação que lhe estou a dar?”

Sibbel dá o exemplo de embalagens para produtos como o tomate, que têm orifícios para que os alimentos possam respirar.

"Não é necessário que tenham as propriedades do plástico. Porque estamos a usar plástico?” perguntou Sibbel, soltando uma gargalhada. “Espero sinceramente que a indústria mude e aceite a mudança de forma positiva."

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