“A liderança não pode estar na rua”. Entrevista a Matos Fernandes na íntegra

30 dez 2021, 07:03

Lítio, hidrogénio, plástico e Clima. E como o ministro do Ambiente tenta explicar aos jovens que não faz “propaganda verde”. Entrevista a João Pedro Matos Fernandes, na íntegra em vídeo e em texto

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Seis anos depois de iniciar funções, o ministro do Ambiente e da Ação Climática cita sempre como balanço o compromisso da neutralidade carbónica em 2050, o encerramento das centrais elétricas a carvão, o aumento das vendas de veículos elétricos e lançou os projetos do hidrogénio e do lítio. Foi por aí que começámos.

Tendo em conta a dimensão das necessidades ambientais em Portugal, a velocidade das medidas é suficiente?
Esta velocidade foi superior a qualquer uma no passado. Os números provam bem aquilo que foram as conquistas ao longo destes seis anos. Nesse brevíssimo resumo que fez não resisto a meter pelo menos mais uma medida que é o PART, o plano de apoio à redução do tarifário e a redução em alguns casos de cem euros no preço dos passes [de transportes coletivos] em Lisboa e no Porto.

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Somos um país que já reduziu em 32% as suas emissões mas que sabe que para ser neutro em carbono – e fomos o primeiro país do mundo a afirmá-lo – em 2050, temos de reduzir em 85% as emissões. Porque passou um terço do tempo, eu direi que este é um bom ritmo. Mas manifestamente, estes foram anos de perceber duas coisas em simultâneo: que temos de ser neutros em carbono em 2050 e que esse tem de ser o principal fator de crescimento da economia até 2050. Quando vejo a apresentação das Agendas Mobilizadoras, sinto um conforto muito grande por perceber que 70% das candidaturas são obviamente iniciativas de privados mas geradas dentro daquelas que são as nossas áreas de competência: o hidrogénio verde, a descarbonização da indústria, as energias renováveis, a fileira das baterias desde a extração do lítio até à reciclagem. O crescimento económico de Portugal, que é essencial para criarmos riqueza e emprego qualificado, vai ser feito e já está a ser feito com investimentos na sustentabilidade.

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Que impacto teve a redução dos preços dos passos sociais nas emissões ambientais?
No primeiro ano, impactos muito positivos: aumentámos mais de 12% o número de pessoas a usar os transportes coletivos nas duas áreas metropolitanas [Lisboa e Porto]. Infelizmente, com a pandemia a utilização dos transportes coletivos reduziu-se imenso. Mesmo num tempo em que muitas atividades já voltaram ao “normal”, no caso do transporte coletivo isso ainda não aconteceu. Estamos neste momento com uma procura que é, no melhor dos casos e nas melhores das empresas, de 70% do que era no pico alto do efeito do PART.

Carros elétricos já compensam

Há cerca de três anos disse que dali a quatro ou cinco anos os carros a gasóleo não teriam valor de troca. Já passaram três anos e ainda não é assim. Continua a preconizar o fim dos veículos a gasóleo?
Quando cheguei a ministro, já lá vão mais de seis anos, a quota de mercado dos novos veículos elétricos vendidos era de 1%. No passado mês de outubro chegou aos 25%. E pela primeira vez na Europa, em outubro venderam-se mais veículos elétricos do que veículos a diesel. Há aqui uma grande transformação também na mobilidade individual, com uma maior oferta de veículos elétricos, a preços que ainda são mais caros do que os veículos a diesel e a gasolina mas que se pensados para uma utilização de quatro/cinco anos, no caso dos particulares, já pode ser quase “ela por ela”, e no caso das empresas – que podem reverter o IVA a seu favor -, neste momento até já há ofertas de veículos elétricos que são mais baratos (pensados nestes quatro/cinco anos de utilização) do que os veículos a diesel e a gasolina.

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Margens das gasolineiras chegaram a subir 30%

Acredita que alguma vez a medida de limitar as margens das gasolineiras, que o governo tomou este ano quando os combustíveis subiram muito, vai ter efeito?
Acredito que sim. Essa decisão não foi nunca uma decisão de curto prazo. Estou a lembrar-me de quando foi promulgado o diploma pelo senhor Presidente da República, ele dizer que isto não teria efeito imediato. Pois não, nem nunca foi pensado para ter efeito imediato, ele tinha toda a razão - quem o pensou, pensou da mesma forma. Aquilo que nós soubemos em relatórios publicados foi que, sobretudo no início da pandemia, e porque houve uma muito menor venda de combustíveis, as margens foram anormalmente altas. Na gasolina chegaram a subir 30%.

Também as margens das botijas de gás, no princípio da pandemia – mas essa foi fixada por via mais administrativa -, aumentaram brutalmente. Aí, num daqueles diplomas que a cada quinze dias o governo produzia com as medidas Covid, fixámos mesmo as vendas do gás butano e do gás propano, porque o que estava a acontecer não podia acontecer. Houve imensas ameaças, imensos distribuidores a dizer “vamos falir todos amanhã”, não faliu nenhum, sinal de que margens eram mesmo confortáveis. Aquilo que eu sinto é que num bem tão essencial para as pessoas tem de poder o governo de prevenir abusos. E neste momento o governo tem essa ferramenta para prevenir abusos.

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O que é que está a acontecer neste momento? O que está a acontecer é que a economia retomou bastante, está a vender-se muito mais combustível e por isso as margens estão dentro daquilo que são as margens normais, e não há nenhuma razão, nem o regulador nos está a alertar para isso – e será sempre ele a alertar-nos -, para objetivamente fixar essas margens.

Está a dizer que as gasolineiras reagiram ao efeito de dissuasão e tiveram medo do governo?
Não vou tão longe. Agora há uma coisa que é verdade: as margens antes eram muito maiores, agora são muito menores. Isso é objetivo.

“Pagávamos cem milhões à central do Pego simplesmente para ele existir”

Também o preço do gás natural e da eletricidade, negociado em mercado, tem subido bastante em toda a Europa. Em Portugal, o efeito tem sido suavizado. O que é que os portugueses podem esperar para 2022?
Começo por dizer que fizemos mesmo bem, a dois tempos. Num tempo mais largo ao apostar nas renováveis, porque é mesmo a aposta nas renováveis que vai garantir com que o país se eletrifique cada vez mais a preços mais baratos, e em segundo lugar ao colocarmos o dinheiro certo no sítio certo, para o apoio quer às famílias, quer sobretudo às indústrias, para que não haja um aumento de preços no próximo ano.

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As pessoas comummente têm contratos anuais de eletricidade, é no dia 1 de janeiro que muda o preço da eletricidade. Aquilo que sabemos é que no mercado regulado ele vai baixar 3,4%. Se este valor tem sempre significado, num tempo em que a produção de eletricidade chegou a aumentar sete vezes – sete vezes! -, ninguém estava à espera de uma coisa destas. E por isso as alm/ofadas que conseguimos colocar, com todas as receitas extra que foram resultado dos leilões de carbono, e por exemplo com o fim do CMEC que pagávamos para que a central do Pego funcionasse – os portugueses pagavam à central do Pego, a carvão, cem milhões de euros para ela simplesmente existir, e acima disso pagavam toda a eletricidade que ela produzia...

“Espero que não seja exportado um grama de lítio”

O Ministério está à espera da avaliação da exploração de lítio em oito regiões para meados de janeiro. O que espera?
Queremos lançar esse concurso mas tivemos de o fazer preceder de uma avaliação ambiental estratégica. Retirámos logo à cabeça todos os espaços que estavam em áreas protegidas e todos os que estavam na Rede Natura 2000. Aqui não foi tirar lotes completos de concurso, mas foi, no caso da Serra d’Aire, reduzir bastante o lote inicial, em cerca de 40%, e em três lotes tirar uns bocadinhos que pisavam a rede Natura 2000. Não faz sentido que o Estado promova concursos onde áreas com proteção ambiental façam parte desses mesmos concursos para exploração deste metal ou de qualquer outro.

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Não acha que está a esventrar Portugal?
Ouça, nós estamos aqui a tentar, na melhor das hipóteses, ter oito minas de lítio em Portugal, que muito provavelmente não vão ser oito, vamos esperar os resultados da avaliação ambiental estratégica, que eu estimo ter em janeiro. Dou-lhe um exemplo: há 26 minas de feldspato em Portugal com que todos convivemos muito naturalmente e que são exatamente iguais a uma mina de lítio. É do mesmo lote de pedra, só se tirava feldspato, agora vai-se tirar feldspato e lítio, que aliás é o ideal para que se possa rentabilizar aquilo que estamos a tirar da terra. Não vamos esventrar Portugal coisa alguma, sendo que obviamente todos os projetos têm de ter uma avaliação ambiental concreta. E sempre que o ganho ambiental que resulta de termos lítio (e eu penso que já ninguém duvida de que o lítio é um metal essencial para a descarbonização, sem lítio não estávamos a fazer esta entrevista e eu não tinha um telemóvel no bolso, não havia carros elétricos sem lítio), sempre que os valores ambientais num sítio concreto forem afetados, porque serão afetados, forem em maior dimensão e maior escala do que o ganho ambiental que daí se retira, essa exploração simplesmente não vai ser feita.

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Portanto, se um dia lhe chamarem o “pai do lítio em Portugal”, ficará orgulhoso.
Acho que nunca ninguém me chamará tal coisa, mas terei muito orgulho em ter contribuído para que Portugal, que parece ter as maiores reservas de lítio da Europa, em plena crise de matérias-primas, num continente que só tem 9% dessa matéria-prima essencial ao desenvolvimento da sua economia, ficarei muito orgulhoso de em Portugal se ter extraído lítio para se transformar em Portugal. Espero que não seja exportado não é um quilo, é um grama desse lítio. Aliás, o projeto da refinaria de lítio que foi apresentado há duas semanas diz isso mesmo: queremos construir uma refinaria de lítio em Portugal naquela que será a primeira da Europa, um projeto absolutamente inovador, e que vai ter de importar muito do lítio que ela própria vai transformar para poder construir as células que depois constroem as baterias.

A movida do hidrogénio: “ouvimos muitas mentiras”

Não receia que estando Portugal a avançar tão depressa no hidrogénio depois fique para trás, do ponto de vista da obsolescência técnica?
De todo em todo. Repare, a movida em torno do hidrogénio em Portugal é muito superior àquilo que imaginámos no primeiro dia. Mesmo assim fomos muito criticados, ouvimos muitas mentiras, confundiram o investimento total que esperávamos para Portugal, de sete mil milhões de euros, com os apoios que a Alemanha ia dar, houve uma confusão de números que acho que até foi demasiado acintosa para ser só involuntária de quem os leu mal. O lóbi do carvão, o lóbi do petróleo, o lóbi do gás existem, estão aí, e têm muito acesso ao espaço público.

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Quem são?
Têm muito acesso ao espaço público, não vale a pena dizer os nomes.

São académicos do Instituto Superior Técnico? Está a falar do Eng.º Mira Amaral?
Direi que o Eng.º Mira Amaral foi até dos mais brandos. Não estou a chamar-lhe brando, mas foi dos mais brandos. Agora, Portugal tem um conjunto impressionante de projetos hoje, fundados no hidrogénio, com propósitos vários. Em primeiro lugar, na tecnologia, uma fábrica em Benavente que está a andar para a construção de eletrolisadores, isto é, dos aparelhos que vão fazer a eletrólise da molécula de água para aproveitar o H2. Há já projetos inovadores em Évora a funcionar, ainda como projetos piloto, que já produzem hidrogénio verde em Portugal com uma eficiência na utilização da água extraordinária, cinco metros cúbicos por mês, isto é, o que uma pessoa gasta em casa em média por mês. E sobretudo, aquilo que nós sentimos é que há cada vez mais consumidores industriais de hidrogénio, inúmeros projetos a nascer, muitos a partir até da indústria química. No início imaginámos que uma parcela significativa de hidrogénio fosse para injetar na rede e aquilo que eu sinto neste momento, com os projetos que estão em cima da mesa, é que se vai produzir mais hidrogénio do que estimava há um ou dois anos e existem já compradores para todo esse hidrogénio, que são essencialmente compradores industriais. A indústria portuguesa tem a noção clara do seguinte: ou se descarboniza ou sai do mercado.

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“Não tenho nada contra o plástico –tenho tudo contra o descartável”

Uma das críticas que lhe são feitas por algumas associações tem a ver com a transposição da diretiva dos plásticos, por se ter ficado aquém do que se deveria ter ido. Como reage a estas críticas?
Confesso que não conhecia sequer essa crítica, a transposição foi próxima da diretiva ela mesma. Foi e está a ser banido do mercado um conjunto vasto de plástico de uso único, que eram aqueles que a própria diretiva continha. Não faz qualquer sentido utilizarmos um material indestrutível – e o plástico é um material indestrutível – para produzir um bem descartável, um bem que se usa uma só vez. O plástico é um material extraordinário, fazem-se corações em plástico, eu não tenho nada contra o plástico – eu tenho tudo contra o descartável. É insuportável nós continuarmos a inundar o planeta com esse mesmo produto indestrutível para usar uma só vez! Isso não faz qualquer sentido, mas não tenho nada contra o plástico enquanto material.

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Se foi muito rápido na transposição da diretiva dos plásticos, não teve a mesma rapidez no sistema de depósito com retorno. A obrigatoriedade de entrar em vigor seria agora em janeiro, mas ainda nem sequer abriu o concurso público, que tipicamente pode demorar um ano…
A discussão pública neste caso não será de um ano, e tem havido muito trabalho que obviamente não será concluído até ao dia 30 de janeiro. Acreditamos mesmo na relevância de haver um sistema de depósito de embalagens de bebidas, tem de haver. Primeira coisa, todo ele foi pensado na Assembleia da República para reciclagem, o que significa que o vidro não deve estar aqui, o vidro não é para ser reciclado, é para ser reutilizado. O que é que estamos aqui a discutir? É o papel que os sistemas de gestão de resíduos devem ou não devem ter neste sistema de recolha diferenciada de embalagens. Em todos os sistemas os municípios estão presentes, são eles que têm também essa responsabilidade partilhada, devem ter o mais relevante dos papéis. Agora, não é para fazerem aquilo que faziam. Essa lei da AR trouxe-nos de facto um problema: foi feita, quando foi elaborada, ainda que certamente de forma muito generosa, completamente nas costas de quem gere objetivamente os sistemas. E é este cerzimento que estamos a fazer e não é fácil. Queremos muito que sejam os sistemas que já estão no terreno, sejam eles intermunicipais ou multimunicipais, a tomar conta dos sistemas, mas eles têm de dar um passo muito grande, mormente relativamente ao destino final das embalagens que virão a ser reduzidas de forma separada. Este é um trabalho que está a demorar tempo, não vai ser concluído até ao final de janeiro, vai ter um atraso – é verdade – mas nós temos trabalhado muito com todos estes sistemas e com todos os “players”. A discussão pública de uma coisa destas demora um mês, não demora um ano.

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Poderá ainda ser ainda em 2022?
Em 2022 haverá todas as condições para que este sistema esteja em funcionamento, sim.

Portanto, se há um atraso numa lei da AR, a culpa é da AR.
Oiça, não estou aqui a distribuir culpas, se quiser a culpa é minha, eu tenho um complexo judaico-cristão muito grande, essa parte nunca me preocupa. A lei como foi feita não tentou ter qualquer ideia sobre como é que poderia ser operacionalizada.

“O que mais me preocupa na preservação dos valores ambientais? A Agricultura”

O que também está perto de ser concluído é a estratégia para a Política Agrícola Comum, tema liderado pelo Ministério da Agricultura e que deixou o Ministério do Ambiente de fora.
É um tema que no que diz respeito à componente florestal nós estivemos completamente dentro. No que diz respeito às medidas agroambientais, há de facto aqui ainda muita coisa a conversar e a estruturar. Repare, o Ministério do Ambiente liderou um processo da maior importância que é a existência de uma nova política da paisagem para Portugal, muito mais pensada se quiser para as paisagens florestais do que agrícolas, a agricultura é absolutamente essencial. Nós não conseguimos transformar o “linóleo” de eucaliptos numa paisagem em mosaico, que é mais rica do ponto de vista da biodiversidade e que é muito mais resistente ao fogo, se não houver atividade agrícola. E recordo-me bem dos números que a minha colega da Agricultura deu há dias, de que o dinheiro para fomentar a atividade agrícola nesses territórios aumenta em 30% quando comparado com a anterior PAC. Isso é absolutamente essencial para termos uma paisagem próxima do tempo em que havia uma atividade agro-silvo-pastoril com uma grande dimensão, que é também o tempo em que não havia grandes incêndios em Portugal.

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Grande parte do financiamento da rede Natura virá deste plano estratégico para a PAC. Que garantias espera?
Essas garantias estão a ser construídas. Vamos lá ver, se me perguntar “Qual é o sector de atividade económica que do ponto de vista da preservação dos valores ambientais mais o preocupa em Portugal?”, eu não tenho dúvidas nenhumas em responder: não é a indústria, não é a mobilidade, não é a produção de energia – é a agricultura. Sim, a agricultura, porque cada vez mais usa água, e nem sempre é mais eficiente porque cada vez mais artificializa o solo com a utilização de fertilizantes, o que faz como que esta seja a única atividade económica em Portugal em que as emissões estão a crescer.

Pode ser mais específico? O que é o que o preocupa mais?
O que me preocupa mais é a monocultura. Mais do que o regime intensivo ou extensivo, o que é de facto negativo para o território e para a biodiversidade é mesmo a monocultura em grande extensão. Ou seja, temos de discutir o mosaico da paisagem e a certeza que, mesmo em sítios onde a agricultura é intensiva, tem de haver silvados, tem de haver charcas, que façam essas quebras na paisagem, por um lado, pela matéria orgânica que podem ter, pelo pousio dos solos que daí pode resultar e por necessariamente uma muito maior diversidade.

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Portanto, não está a falar do abacate, que é um clássico usado nestes casos…
O abacate é um disparate! Não consigo dizer de outra forma. Eu não consigo entender como é que se apostou, e não se se subsidiou, na cultura de uma fruta tropical num sítio onde há pouquíssima água, o Algarve. Não tem pés nem cabeça!

Porque é que não acaba com isso?
Oiça, o abacate não tem licenciamento ambiental e muitas vezes nem tem licenciamento agrícola. Eu também o percebo, mal de nós se quem planta couves e agora vai plantar batatas tivesse de pedir licença a alguém. O licenciamento existe agora sim para as grandes extensões, porque também não o havia, havia uma omissão na lei que fazia com que não se pudesse aplicar a avaliação de impacto ambiental às extensões maiores de plantação de abacate e isso acabou. Agora, existe sim e continua a existir liberdade para que algumas dessas plantações possam vir a ser feitas se forem de pequena dimensão. O Partido Socialista do Algarve, e muito bem, apresentou uma proposta de moratória à cultura dos abacates. Não sei qual foi o destino que ela possa ter tido na AR, ou sequer se chegou a ser votada, porque não era a nós que se dirigia, era ao Ministério da Agricultura.

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Caça: “os cercões são uma cobardia”

Faz agora um ano sobre a “chacina” numa caçada na Herdade da Torre Bela. Na altura pronunciou-se sobre a possibilidade de proibir caça em propriedades vedadas. Porque é que ainda não avançou nada?
Não me pergunte porque é que não avançou nada, quem tem de avançar é o Ministério Público. Aquilo que fizemos foi acabar com aquela zona de caça, tirando-lhe a licença. Sentimo-nos muito desconfortáveis com o desacerto dos selos que eram vendidos por três associações mais robustas da caça em Portugal e isso acabou – os selos de caça são só vendidos pelo ICNF, já não há ninguém a vendê-los em nosso nome. Em terceiro lugar, foi feito um inquérito rigoroso que foi entregue ao Ministério Público, que é quem obviamente tem de, naquilo que será o seu tempo, chegar a uma conclusão. Não está mesmo nada nas nossas mãos.  

E em geral, a proibição de caça em zonas vedadas?...
Eu nunca me propus rever a lei da caça. Aquilo a que me propus foi rever um conjunto de decretos-lei, e eles estão em curso de revisão, que a regulamentam. Isso que me diz é um princípio geral da lei que eu nunca senti que houvesse necessidade de o fazer num país que tem cada menos caçadores e onde a atividade da caça é cada vez menos relevante. Agora, há de facto anacronismos que têm de ser mudados. E há também novas práticas de caça que têm de ser reguladas. Eu acho os cercões, no limite, um ato de cobardia. Esse sim, vão ter de acabar, mas isso não é mudar a lei da caça.

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Clima: “mixed feelings” com Glasgow

Vamos falar de clima. Quando comentou a recente cimeira de Glasgow, pareceu-me relativamente pacificado com os resultados. Interpretei bem?  
Estou aqui há seis anos. Fiz o Acordo de Paris, estava lá, e se há seis anos à saída de Paris, de onde saímos com um compromisso de 1,5º mas com uma realidade que era o somatório de todos os compromissos de todos os países que conduzia a um aumento da temperatura de 3,1º, se há seis anos se dissesse “daqui a seis anos vamos ter com os novos compromissos de cada um dos países um aumento de temperatura balizado entre os 2,2º e os 2,3º”, todos diriam “isso será um sucesso extraordinário”. Hoje é esse o número que temos e ninguém o considera, nem eu, um sucesso extraordinário. Porque a degradação das condições climáticas, o aumento da temperatura e os fenómenos climáticos extremos aceleraram muito mais do que se esperava há cinco, seis anos. Por isso tenho aqui alguns “mixed feelings”.

Há uma coisa que eu sei: do ponto de vista forma, o roteiro para o 1,5º está mesmo em cima da mesa, é mesmo possível chegar lá. É óbvio que nem todos os países se comprometeram com aquilo que Portugal e a Europa se comprometeu, que é a neutralidade carbónica em 2050. A China fala em 2060, a Índia em 2070 e é evidente que isso é tarde. Agora, estamos a falar de um acordo multilateral, não existe uma governança mundial, nem nestas áreas nem noutras. E só lá vamos em conjunto. E é verdade que este é o tipo de jogo em que quem decide se joga bem ou se joga mal é o pior jogador. É um facto. Sobretudo se esse pior jogador ocupar muito espaço dentro do campo, como é o caso da China e da Índia. Agora, foram muitos os avanços concretos que resultaram de Glasgow. Foram claramente alinhados com o Acordo de Paris. São o suficiente para chegarmos onde queremos? Bom, a minha visão mais otimista é: tenho dúvidas que seja. Demos passos muito concretos, isso demos.

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O que digo aos jovens? “Liderança não pode estar na rua”

Os mais jovens são aqueles que, ouvindo pessoas com as responsabilidades que o senhor tem, os acusam de “greenwashing”, de “lavagem verde”, de propaganda, e de não irem suficientemente longe. Como é que lhes explica isto, como é que os convence?
Em primeiro lugar, com números: Portugal reduziu as suas emissões em 32%, é objetivo. Lembro-me bem a primeira vez que eu recebi [no Ministério] os jovens e quando lhes falei numa redução de emissões de 55% até 2030, eles vinham reclamar uma de 40%. Portanto, estávamos muito à frente. Claro que eles agora já reclamam 55%... Mas o nosso compromisso, que vamos concretizar, era afinal maior do que a ambição que os jovens tinham quando nos bateram à porta. Mostro-lhes isso com a redução do preço dos transportes coletivos, para o qual agora pedem a gratuitidade. Mostro-lhes isso com o facto de 60% d da eletricidade que Portugal consome ter origem em fontes renováveis. Todos os compromissos que assumimos estão mesmo a ser atingidos.

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E sobretudo é preciso pensar assim: em democracia, as mudanças fazem-se com consenso. E tem havido um enorme consenso em Portugal, descontando alguns dislates que aparecem de uns rapazes que dizem que se produz carvão a 20 cêntimos o Mh/W quando afinal é 250, há assim uma gente que aparece na televisão que tem erros assim de um para 1250 – mas descontando esses dislates, eu acho que há um grande consenso naquilo que é por um lado a nossa obrigatoriedade de transição energética, com o que ela tem também de necessário para o combate às alterações climáticas, e por outro lado com a relevância que este projeto tem do ponto de vista ambiental e do ponto de vista da criação de riqueza. Foi muito isso que quisemos provocar a partir daqui. No mais, eu entendo com muita naturalidade a diferença de opinião daqueles que querem que andemos mais depressa. Só há uma coisa que eu não aceito: é que me digam que a liderança tem de estar na rua. Porque no dia em que a liderança estiver não vai haver qualquer transição justa. Nem vai haver ninguém a transferir dinheiro para os países que não fizeram nada pelo que lhes está a acontecer, mormente em África – estou a lembrar-me por exemplo de Moçambique e do furacão Idai – e que precisam obviamente de dinheiro para adaptação que rua nenhuma lhes vai dar. É absolutamente essencial que a liderança continue nas instituições e que sejam as democracias liberais a fazer essa mesma transição. Não estou nada convencido de que quem se candidatasse a eleições dizendo que ia acabar com a produção do gás em Portugal ganhasse essas eleições ou tivesse sequer qualquer voto, porque isso significa aquilo que é o maior risco que podemos ter: comprometermos o nosso bem-estar imediato com um objetivo que é alcançável, mas não é alcançável de uma noite para uma manhã.

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Eleições sem medo
 

Está com medo de perder as eleições?
Não tenho medo nenhum de perder as eleições nem tenho medo nenhum das eleições. Acho que há muitas e boas razões para que o Partido Socialista ganhe estas eleições. Porque, aco contrário do que a direita fez, combatemos uma crise sem nunca utilizar nem provocar nem concretizar a palavra austeridade, porque aquilo que temos para dizer aos mais novos não é aquilo que a direita teve, que é “emigrem e não sejam piegas”, porque aquilo que temos para dizer aos mais velhos não é “vamos cortar-vos as pensões” e cortá-las mesmo, todas elas foram repostas, e porque temos um projeto que tem de ganhar muito músculo, que é o da melhoria dos salários em Portugal.

Não dizem aos jovens para emigrar, dizem para ficar, mas ficam precários e com baixos salários.
É obrigação de um país garantir, dando toda a liberdade às pessoas para fazerem o que quiserem fazer, a quem cá nasce e a quem cá está, sempre as melhores das oportunidades. A quantidade de empregos que têm sido criados nomeadamente para estes jovens mais qualificados é muita. Ganham eles por exemplo o que ganham se forem fazer uma experiência na Europa? Não ganham, ganham menos. E por isso é essencial criar condições para a melhoria desses salários.

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Rui Rio falou das propostas do PSD para o ambiente no último congresso do PSD. Ouviu?
Ouvi. Os três exemplos que ele deu de incumprimento, teve azar, foram todos mentira. Ele tem mesmo azar. Que não cumprimos a meta de incorporação das renováveis, é falso, cumprimos. Que não cumprimos as metas de eficiência energética, é falso, cumprimos (ainda que se possa dizer que 2020 foi um ano muito especial, o facto é que cumprimos). Que não cumprimos as metas para os bioresíduos, bom, não há metas para os bioresíduos, há para o ano de 2023 a obrigatoriedade de o país ter – e vai ter de certeza – um sistema de recolha separativa para o bioresíduos. Por isso, aquilo que eu sei dizer é que com base num diagnóstico tão falso, é difícil depois que haja políticas corretas. Mas daquilo que ele enunciou como políticas ambientais, ah, comparado por exemplo com as propostas do José Gomes Ferreira foram muito melhores as do Dr. Rui Rio.

Neste seis anos, provavelmente os partidos que mais o criticaram foram os parceiros da “geringonça”.
É verdade.

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Houve alguma que não conseguiu fazer por causa da geringonça, por causa dos compromissos que o governo teve de negociar com o PCP e BE?
Nas coisas grandes, não. Com franqueza, não. E algumas até ganham mais estrutura por pedidos que vieram da nossa esquerda, como por exemplo do PEV na avaliação ambiental estratégica do lítio. É raríssimo em matérias ambientais poder dizer “o PCP e o Bloco de Esquerda”, o PCP é completamente diferente do BE. O PCP é mesmo um partido extractivista, produtivista, o BE não tem nada a ver com isso, são partidos completamente diferentes.

O BE tem a ver com o quê?
O Bloco de Esquerda tem a ver com a enumeração de um conjunto de princípios certos só que depois borrega quando de facto tem de concretizar as coisas. Estou a lembrar-me aquando do da aprovação do adicional de carbono para os combustíveis, o BE quis antecipar a neutralidade carbónica e votou contra esse mesmo adicional. O BE tem esse problema. Oiça, eu ouvi coisas absolutamente extraordinárias, falando agora de um partido diferente, o PAN: eu ouvi, quando foi o encerramento da refinaria de Matosinhos, na AR, a deputada eleita pelo PAN do Porto dizer que a refinaria não tinha emissões. Em face de coisas destas, é muito fácil a dizer umas coisas mas é muito complicado saber fazê-las.

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Põe o PAN e o PEV em igualdade de circunstâncias na defesa do ambiente?
Não. De todo em todo. O PEV não tem nada de ecologista. Encontraram aquele nome e um símbolo catita mas não tem nada de ecologista. O PAN, do ponto de vista dos princípios, ao nível do bem-estar animal, tem de facto um processo importantíssimo.

Deixar de ser ministro é “coisa normal”

 

Quer continuar a ser ministro?
É uma questão que não coloco a mim próprio. Estava preparado para ser ministro por mais quatro anos, passaram dois. Era normal, fazer esta legislatura. Eu nunca estive num “emprego” durante tanto tempo. E isto é para mim, em primeiro lugar, um desafio profissional. Eu verbero o advérbio “politicamente”. Normalmente, hão de reparar, está a dizer-se qualquer coisa, [acrescenta-se] “mas politicamente” e a seguir sai asneira. O advérbio de modo “politicamente” é mesmo um advérbio que eu tento não usar nunca. O normal era eu ficar cá mais estes dois anos levando políticas até ao fim. Vai falar o povo, depois vai falar o Dr. António Costa, depois falarei eu. Sobretudo, eu acho que a coisa mais normal do mundo, em qualquer momento, é deixar de ser ministro.

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