A floresta tropical do Brasil está a chegar a um ponto de declínio irreversível - mas Lula fez uma (ambiciosa) promessa

CNN , Vasco Cotovio e Paula Newton
20 nov, 16:10
O viveiro da SOS Mata Atlântica, onde centenas de mudas são cultivadas antes de serem replantadas na Natureza. Créditos: CNN

A viagem de carro pelo Estado de São Paulo no Brasil é definitivamente banal. Quarteirões e quarteirões de arranha-céus dão lugar a estradas suburbanas e, por fim, a suaves colinas. Não parece nada o cenário onde esperamos encontrar a salvação do clima.

E, no entanto, enquanto subia até às alturas num posto de vigia sobre uma faixa de terra recuperada da Mata Atlântica do Brasil, Luís Guedes Pinto explicou que não precisamos de ir ao Ártico nem sequer à Amazónia para aprender a curar as florestas da Terra.

“Este projeto não muda uma paisagem grande, mas mostra que é possível devolver a vida, devolver a água, devolver a biodiversidade ao centro do Estado de São Paulo”, disse Pinto, CEO da SOS Mata Atlântica, enquanto apontava para os cinco quilómetros quadrados de recuperação florestal.

A SOS Mata Atlântica é uma organização sem fins lucrativos dedicada a reabilitar a faixa de floresta da costa atlântica do Brasil. A floresta é lar de mais de 145 milhões de brasileiros e - tal como a floresta amazónica foi devastada pela desflorestação nos últimos anos - cerca de três quartos da mata já foram dizimados por desenvolvimentos urbanos e de infraestruturas e pelas práticas agressivas do agronegócio.

“Precisamos de plantar e replantar, mas não podemos perder nem mais um hectare”, disse Pinto enquanto guiava a CNN por um viveiro com mais de 50 espécies de árvores e plantas cultivadas com cuidado numa pastagem outrora degradada e propensa à seca. “A floresta que replantamos não será igual à floresta que derrubamos. Algumas das florestas que estamos a perder têm árvores com centenas de anos.”

Estas são as mudas para o renascimento de uma floresta. Em apenas 15 anos, tornou-se um próspero laboratório ecológico com um lençol freático saudável, árvores, plantas e animais. É uma paisagem completamente diferente das pastagens vizinhas, onde a erva afetada pela seca se apodera de hectares do que antes era floresta.

A SOS Mata Atlântica conseguiu recuperar esta terra de pastagem e transformá-la de volta num habitat selvagem. Créditos: CNN
Um voluntário planta uma árvore no complexo da SOS Mata Atlântica. As diferentes espécies de plantas crescem a ritmos diferentes, portanto, os voluntários voltam durante anos às áreas reflorestadas até que o habitat esteja completamente restaurado. Créditos: CNN

Com a chegada ao poder do presidente eleito Lula da Silva, projetos como este estão agora na dianteira de um momento decisivo do clima e da história política do Brasil, um país que abriga uma das mais importantes reservas de biodiversidade do planeta.

Durante quase quatro anos, o governo do presidente Jair Bolsonaro foi acusado de desfazer o progresso ambiental de Lula, que foi presidente entre 2003 e 2010. Dados do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial do Brasil mostram que a taxa de desflorestação sob a presidência de Bolsonaro aumentou em mais de 70%, de 2018 a 2021.

A floresta amazónica já está, em alguns locais, a emitir mais dióxido de carbono do que aquele que absorve - uma mudança que pode ter um impacto negativo enorme nas tendências do aquecimento global. E os cientistas alertam que a preciosa floresta tropical está a chegar a um ponto de declínio irreversível e é menos capaz de recuperar de perturbações como a seca, a exploração madeireira e os incêndios florestais.

O historial de Lula como antigo presidente mostra que o governo dele foi capaz de reduzir drasticamente as taxas de desflorestação até ao final do mandato, em 2010. E a nova promessa de Lula vai ainda mais longe: atingir a desflorestação zero no Brasil. Isso seria substancialmente mais ambicioso do que a meta do primeiro governo de eliminar a desflorestação ilegal, não todos os tipos de desflorestação.

Quando falou na COP27, a cimeira do clima da ONU em Sharm el-Sheikh, no Egito, Lula disse a uma sala de conferências apinhada de gente que “o Brasil vai voltar a reatar as suas ligações com o mundo” e que “não há segurança climática para o mundo sem uma Amazónia protegida, e faremos o que for preciso para adotar uma postura diferente da degradação”.

Também prometeu punir os responsáveis ​​pela desflorestação da Amazónia e anunciou um novo ministério para os indígenas, “para que os próprios indígenas apresentem e proponham ao governo políticas que garantam a sua sobrevivência com dignidade e segurança, paz e sustentabilidade”.

As palavras de Lula foram recebidas com muitos aplausos que passaram da sala de conferências para o corredor, onde as pessoas que não conseguiram entrar na sala apinhada, mas que estavam ansiosas para ouvir Lula falar sobre a crise climática, seguiram o discurso através dos seus telefones.

Mas os aliados de Bolsonaro, que continuam a controlar o Congresso, podem dificultar e muito as ações climáticas nos próximos quatro anos. Um desses aliados é Ricardo Salles, antigo ministro do Ambiente de Bolsonaro e agora um legislador recém-eleito para o Congresso de tendência conservadora.

O antigo ministro do Ambiente e legislador brasileiro Ricardo Salles argumenta que a melhor maneira de proteger a Amazónia é torná-la economicamente viável para as populações que vivem dentro e à volta dela. Créditos: CNN

Em entrevista à CNN, Salles disse que ele e outros estão dispostos a trabalhar com o novo governo de Lula nas metas climáticas, mas alertou para o facto de isso não poder acontecer à custa do desenvolvimento económico.

“Fui o único ministro do Ambiente, em toda a história do ministério, a trazer essas questões económicas para a mesa”, disse Salles. Enquanto foi ministro, o governo Bolsonaro descrevia muitas vezes o desenvolvimento e a atividade económica na Amazónia como vitais para a sustentabilidade a longo prazo - uma abordagem condenada por muitos ativistas ambientais do país.

Salles diz que, agora, o Brasil terá de trabalhar em estreita colaboração com os aliados internacionais para aproveitar os milhares de milhões de dólares em fundos climáticos e créditos de carbono, agora oferecidos por governos e empresas em todo o mundo.

Mas os defensores do clima argumentam que nem o Brasil nem o planeta podem pagar o preço do tipo de compromisso agora defendido pelos aliados de Bolsonaro.

A ativista indígena Txai Suruí apoiou Lula da Silva durante a última campanha presidencial, mas promete opor-se caso as políticas dele vão contra o ambiente. Créditos: CNN

“Não precisamos de destruir para desenvolver. Podemos fazê-lo em harmonia com a natureza. E são os povos indígenas que ensinam isso”, disse à CNN a líder indígena brasileira Txai Suruí.

Suruí disse estar otimista e acredita que o governo de Lula vai cumprir as promessas de agir rapidamente, apesar da pressão económica não apenas dos aliados de Bolsonaro, mas de milhões de pessoas que vivem na Amazónia e cuja subsistência depende do desenvolvimento comercial da floresta.

“Porque esse plano - da Amazónia, das alterações climáticas, do ambiente – é um plano global”, disse. “Se Lula não o abordar e desenvolver, não seremos apenas nós, os povos indígenas, que lhe vamos bater à porta. Será o mundo inteiro.”

A urgência do compromisso com esses objetivos não passa despercebida a Pinto, que diz que não é apenas o futuro do Brasil que está em jogo.

“Enquanto país, temos de perceber que é fundamental para o planeta, e que as decisões que tomarmos serão importantes para nós, mas também para os outros”, diz.

O viveiro da SOS Mata Atlântica, onde centenas de mudas são cultivadas antes de serem replantadas na natureza. Créditos: CNN

 

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