Tornados nos EUA: afinal, porque morreram tantos trabalhadores em fábricas?

14 dez 2021, 13:31

Tempestades atravessaram seis estados, deixando um rasto de destruição ao longo de centenas de quilómetros e pelo menos 78 vítimas mortais. Vários trabalhadores queixam-se agora de ameaças caso abandonassem o local de trabalho e também da falta de local para se abrigarem dos tornados

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As dúvidas adensam-se sobre o que aconteceu para que os funcionários da fábrica de velas no Kentucky e da Amazon,no Illinois não tenham conseguido fugir atempadamente quando vários tornados varreram os estados do centro dos EUA.

Esta segunda-feira, as autoridades norte-americanas atualizaram para 78 o número de mortes causadas por cerca de 30 tornados na noite de sexta-feira, 64 das quais no Kentucky, o mais afetado dos estados do centro dos EUA.

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A maioria das vítimas mortais no Kentucky estava a trabalhar numa fábrica de velas, quando um poderoso tornado arrancou o telhado do edifício e matou dezenas de pessoas. Mas, por que não fugiram essas pessoas?

Medo de ser despedidos

De acordo com a NBC News, assim que tiveram conhecimento de que um forte tornado se aproximava do Kentucky, os empregados pediram para abandonar o edifício. No entanto, pelo menos cinco trabalhadores afirmam que os patrões lhes disseram que seriam despedidos caso saíssem do turno mais cedo. 

Enquanto muitos se mantiveram na Mayfield Consumer Products, outros abandonaram a empresa por temerem pela segurança, ignorando as ameaças dos superiores.

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No final, a fábrica ficou reduzida a escombros e tornou-se numa das imagens da destruição deixada pelos tornados. 

Em declarações à NBC a partir do hospital, McKayla Emery, trabalhadora da fábrica, revela que assim que as sirenes de tornado soaram fora da fábrica os funcionários pediram para abandonar o local. No entanto, os supervisores afirmaram que abandonar o posto de trabalho iria colocar em causa os empregos e muitos acabaram por ficar.

"As pessoas questionaram se deviam ficar ou ir para casa. Se fossem embora, o mais certo era serem despedidos. Ouvi isso com os meus ouvidos", afirmou Emery, de 21 anos.

De acordo com outra trabalhadora, pelo menos 15 pessoas pediram para ir embora assim que o primeiro alarme soou. Haley Conder, de 29 anos, diz mesmo que nas três horas entre o primeiro e segundo alarme, os supervisores afirmaram que não deixavam sair ninguém por questões de segurança. 

Contactada pela NBC News, a companhia nega as acusações dos trabalhadores e diz que, desde que a pandemia começou, "os empregados podem sair a qualquer altura e voltar no dia seguinte".

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Bob Fergunson, porta-voz da empresa, afirma ainda que é falso que os supervisores tenham dito aos trabalhadores que abandonar o local perante o alerta iria colocar os seus trabalhos em risco, garantindo que existem protocolos que têm de ser seguidos.

Falta de abrigo

Outro dos sítios que ficou reduzido a escombros foi o armazém da Amazon no sul do Illinois, onde morreram seis trabalhadores na passagem do tornado.

À medida que os tornados se aproximavam aos trabalhadores foi-lhes dito para trabalharem mais depressa e não para abandonarem o local. A denúncia parte da família das vítimas que dizem que "isto nunca teria acontecido se eles se preocupassem com as vidas em vez da produtividade".

Em declarações à KSDK, Carla Cope, mãe de Clayton, de 29 anos, que morreu quando o edifício da Amazon colapsou, afirma que falou com o filho ao telefone quando percebeu que a tempestade se estava a aproximar.

"Dissemos-lhe para ele ver para onde estava a ir a tempestade e que ele precisava de procurar abrigo", conta Carla, acrescentando que o filho, que tinha formação militar, lhe disse que ia avisar primeiro os colegas. No entanto, Clayton não conseguiu chegar ao "refúgio designado", como lhe chama a Amazon, e como outros trabalhadores teve de se refugiar noutro local da empresa que viria a ser atingido pelo tornado.

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No entanto, a questão que se coloca agora é se esse abrigo existia e se os trabalhadores tiveram acesso ao mesmo atempadamente. Isto porque, de acordo com o testemunho de um dos trabalhadores, citado pela BBC, alguns dos funcionários tiveram de se abrigar na casa de banho.

"Estava a entrar no edifício e eles começaram a gritar: «Entrem no abrigo!» Nós estávamos nas casas de banho. Foi para onde eles nos mandaram", afirma David Kosiak, de 26 anos, acrescentando que quando o tornado atingiu o edifício "foi como se um comboio tivesse entrado no armazém".

Os trabalhadores ficaram resguardados nas casas de banho durante cerca de duas horas e meia. 

Sindicatos dizem que atitude da Amazon é lamentável

Segundo a BBC, a empresa diz que entre os avisos e o tornado atingir o edifício tudo "aconteceu incrivelmente rápido" e que toda a equipa trabalhou "depressa" para conseguir colocar o maior número de trabalhadores em "segurança".

A Amazon garante mesmo que os protocolos foram seguidos, mas que houve um pequeno grupo que teve de procurar abrigo numa parte do edifício que acabou atingida pelo tornado.

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"Foi onde aconteceu a pior perda de vidas", acrescenta a empresa.

Apesar das justificações da empresa, os sindicatos dizem que é lamentável que a empresa tenha exigido aos funcionários que fossem trabalhar quando existiam avisos de tornados. 

Este fenómeno meteorológico excecional atravessou seis estados, deixando um rasto de destruição ao longo de centenas de quilómetros, sendo em Mayfield - uma cidade de cerca de 10.000 habitantes, no Kentucky – que se produziram os piores efeitos.

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