"É impossível ficar impávido" diante disto: Amália voltou ao sítio onde se foi mostrar ao mundo inteiro

Maria João Caetano , (a jornalista viajou a convite da embaixada de Portugal em Espanha)
10 dez 2025, 12:47
Bailado "Amaramália", Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo (DR)

Foi em Madrid, em 1943, que Amália começou a sua carreira internacional e é em Madrid, em 2025, que Amália prossegue a sua carreira internacional - a voz dela é vida eterna, celebra-se em "Amaramália". Este espetáculo, que é um sucesso com mais de 30 anos, tem nova versão: a coreografia é de Vasco Wellenkamp e a performance é da Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo, a convite da embaixada de Portugal em Espanha

Quando a música se calou e as luzes se apagaram, os bailarinos ficaram no palco e, naqueles segundos que pareceram horas, o seu coração batia acelerado. Será que ninguém vai aplaudir?, pensaram. Pouco depois, a sala do Joyce Theatre, em Nova Iorque, rebentou “na maior salva de palmas que alguma vez tínhamos tido”, recorda Susana Coelho Lima. “Nós fomos à frente e atrás, tanta vez, tanta vez, tanta vez.” Na altura, em outubro de 2004, Susana era uma das bailarinas da Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo (CPBC) e aquela noite em que o espetáculo “Amaramália”, com coreografia de Vasco Wellenkamp, se estreou nos EUA seria uma das mais importantes da sua carreira. “Logo na primeira noite, um dos críticos mais temidos considerou que era o melhor espetáculo do ano inteiro para se ver em Nova Iorque. E depois foi uma loucura que encheu a sala todos os dias. Foi um sucesso tremendo.”

Mais de vinte anos depois, Susana Coelho Lima já não está no palco. A diretora artística da CPBC fica num canto escuro da sala e vai observando a reação do público desde que se ouve a voz de Amália com “Povo que lavas no rio” até à “Prece” final. O seu rosto, após a apresentação, esta terça-feira à noite, da versão “2020” de “Amaramália” no Círculo de Bellas-Artes de Madrid, em Espanha, revelava um sorriso de satisfação. O aplauso foi longo. “É impossível não gostar”, conclui. “É um espetáculo que leva a alma portuguesa.”

Esse foi seguramente um dos motivos que levaram a embaixada de Portugal a querer ter este espetáculo no encerramento das comemorações conjuntas hispano-portuguesas dos 50 anos de democracia nos dois países, uma iniciativa que tinha arrancado a 6 de setembro de 2024 no Auditório Nacional de Música de Madrid com um concerto da Orquestra Metropolitana de Lisboa. Antes da apresentação, o embaixador José Augusto Duarte sobe ao palco para explicar o significado destas comemorações e lembrar a importância de Amália Rodrigues, “conhecida como a figura mais influente do fado, a música popular urbana de Portugal no século XX”. Perante uma plateia de portugueses e espanhóis, lembra ainda que a fadista “iniciou a sua carreira internacional em 1943 precisamente aqui, em Madrid”.

Foi a partir de 1943 que Amália entrou em contacto intenso com a copla espanhola, um género popular em Espanha que se traduzia numa forma muito particular de cantar letras de amor, de paixão, de sedução e de tragédia. Por isso, no início da sua carreira dizia-se em Portugal que Amália Rodrigues cantava ‘à espanhola’, conta o embaixador José Augusto Duarte.

Mas voltemos a “Amaramália”: o espetáculo foi criado por Vasco Wellenkamp em 1990 a convite do Ballet do Grande Teatro de Genève, na Suíça, que lhe pediu especificamente uma coreografia a partir de Amália Rodrigues. Voltou a fazê-lo com o Ballet do Teatro de Ópera de Zagreb, na Croácia, e com o Ballet Gulbenkian, em 1994. “Nessa altura foi logo um sucesso e andou em digressão pela Europa”, conta Susana Coelho Lima. Em 2004, surge uma nova versão, já com a Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo. 

Susana Coelho Lima era então uma das bailarinas de “Amaramália: Abandono”, que se estreou em 2004 em Sintra. “Para nós foi uma emoção muito grande estar a revisitar o lugar daqueles bailarinos maravilhosos que nós adorávamos. Aquela geração de ouro do Ballet Gulbenkian era uma referência. E o Vasco, sempre que remonta um espetáculo, faz adaptações, transforma-o, porque há coisas que ele quer fazer diferente e também porque o adapta aos corpos dos bailarinos. Ele tem essa capacidade de trabalhar com o melhor de cada um. Então, dificilmente ele faz um copy-paste, é sempre uma nova versão, nunca são espetáculos iguais.”

“Fizemos essa versão já com o intuito de a levar a Nova Iorque”, lembra Susana Coelho Lima. Mas não imaginavam como essa apresentação seria importante. A crítica do New York Times Anna Kisselgoff considerou “Amaramália” um espetáculo “ao mesmo tempo apaixonado e entorpecedor”, colocando-o “entre o que melhor se viu esta temporada”. No seu texto, dizia que “a coreografia de Vasco Wellenkamp revelou-se perfeita para captar” a mensagem dos fados de Amália Rodrigues, transmitindo “o lirismo, o choro, a dor e o amor” da voz de Amália, “até para os que não a conhecem”. E elogiava o “vigor dos bailarinos” que “colocaram a plateia aos seus pés”.

“Depois disso foi uma loucura.” Durante uma semana, em Nova Iorque, a companhia apresentou dois espetáculos por dia, de tarde e de noite, com lotações esgotadas. “Estávamos exaustos”, recorda Susana Coelho Lima. Seguiram-se outras cidades e outros países, sempre com a mesma receção. “É o Vasco, é a música, é o sentimento, é todas as imagens gráficas que ele foi buscar, o bairro da Alfama, os prédios de Lisboa, é um espetáculo muito português.”

Houve mais versões. Este “Amarmália: 2020” foi criado por Vasco Wellenkamp para uma segunda geração de bailarinos da companhia. 

“Povo que lavas no rio”, “Naufrágio”, “Grito”, “Lavava no rio, lavava”, “Gaivota”, “Alfama”, “Com que voz”, “Fado Português”, “Barco Negro” e “Prece” são os dez fados de Amália que ouvimos, a que se juntam nos intervalos as composições originais de Carlos Zíngaro. Na voz de Amália, seja com fado tradicional ou com os fados de Alain Oulman, as palavras de Pedro Homem de Mello, David Mourão-Ferreira, Cecília Meireles, Alexandre O’Neill, José Carlos Ary dos Santos, José Régio, Luís de Camões e da própria Amália Rodrigues, ditas em português, tornam-se universais. 

Em palco, dez bailarinos e oito bancos de madeira. Não se trata de interpretar os fados à letra. Há alguns movimentos que remetem para as palavras, sim, mas o mais importante é interpretar o sentimento ou, então, apenas deixar que os corpos se deixem levar pela música das guitarras e pela voz de Amália, em alguns temas a voz da fadista jovem, noutros a voz rouca que lhe conhecemos já mais no final da vida. Basta um gesto, a cor de um vestido, uma gaiola-prisão para que a mensagem passe sem se impor.

“O Vasco sempre foi extremamente exigente e dá muita atenção à beleza do pormenor, aos acabamentos”, explica Susana Coelho Lima. “Ele sabe exatamente onde pôr excesso de movimento e onde não pôr nenhum, para deixar as palavras ecoarem. Ele faz isso muito bem, sabe exatamente até onde ir. É por isso que é impossível ficar impávido perante a força do espetáculo.” Depois de ter andado em digressão em Portugal, esta foi a primeira vez que esta versão de "Amarmália" foi apresentada fora do país - a primeira de muitas, espera Susana Coelho Lima.

* A jornalista viajou a convite da embaixada de Portugal em Espanha

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