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Comentadora CNN

A normalidade está de volta, mas nunca deveria ter saído de cena

20 nov, 15:12

Para os europeus, deve ser estranho ver uma espécie de comemoração em torno disso. A questão é que, depois do governo Bolsonaro, são gestos que parecem extraordinários, apesar de serem apenas obrigatórios e essenciais na política

Se a visita de Lula puder ser definida em duas palavras, uma para cada dia em que esteve em Portugal, poderiam ser: diplomacia e alegria - palavras que também podem ser complementares. Como é habitual, o presidente eleito pelo povo brasileiro soube ler o público, escolher as palavras e movimentos estratégicos. 

Em todos os eventos, apesar de pequenos grupos raivosos de bolsonaristas que insistem em espalhar ódio e mentiras, o clima foi de reencontro. Nas agendas com as autoridades portuguesas, tanto com o presidente Marcelo Rebelo de Sousa e com o primeiro-ministro António Costa, o clima demonstrado era de felicidade em rever um amigo de longa data.

Diferente dos raros encontros diplomáticos de Bolsonaro com outros líderes, a atmosfera foi de cordialidade e decoro. São situações que, em circunstâncias normais, nem deveriam ser exaltadas. Para os europeus, deve ser estranho ver uma espécie de comemoração em torno disso. A questão é que, depois do governo Bolsonaro, são gestos que parecem extraordinários, apesar de serem apenas obrigatórios e essenciais na política. 

Com a imprensa, o mesmo. Não deveríamos ficar felizes, principalmente nós mulheres, em não sermos agredidas verbalmente pelo presidente de uma nação enquanto trabalhamos, mas, depois dos incontáveis ataques sofridos nos últimos quatro anos, tudo parece uma grata surpresa. A normalidade está de volta, mas nunca deveria ter saído de cena. 

No segundo dia da visita, Lula mostrou sua face mais popular, como o momento exigia. O auditório do simbólico Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE) virou uma maré vermelha, estampada nos vestidos, nos batons, nas bandeiras e faixas. A alegria e a emoção eram visíveis no rosto e gestos dos cerca de 200 participantes do evento, que foi organizado por associações, coletivos e partidos de esquerda, tudo com um forte esquema de segurança. 

O público, formado por uma maioria de mulheres, teve atenção especial do político. Ao ser chamado para discursar, chamou a esposa Janja para falar primeiro. Com sorrisos, diante aplausos e do coro feminista “Janja representa”, a socióloga afirmou que “as mulheres deram a vitória no primeiro e no segundo turno” ao marido e garantiu que ele terá “um olhar com mais carinho, mais atenção e mais esperança para as mulheres”. 

Ao discursar, o presidente eleito demonstrou ter boa memória. Agradeceu não só os votos recebidos em Portugal, onde venceu nos três colégios eleitorais do país, como lembrou de mobilizações internacionais e o recebimento de cartas de brasileiros que vivem no estrangeiro enquanto estava preso. 

Novamente, Lula se comprometeu com as bandeiras de campanha, em especial o combate à fome e o investimento em educação, sempre com frases que cativam o público: “Quero que todos tenham a oportunidade que eu não tive” e “Eu vivi a fome, a fome é feia”. 

O petista também deu um conselho aos participantes: que não discutam com bolsonaristas. Recomendou que digam para voltarem ao Brasil para dar apoio ao presidente derrotado: “Ele está precisando”, ironizou. Ao mesmo tempo, destacou que quer um clima de paz e sem violência no país, diferente do que ocorria do lado de fora do evento, onde o pequeno grupo destilava ódio e mentiras.

Ao final do encontro com a comunidade brasileira, Lula posou para fotos, recebeu cartas de crianças, tirou selfies, beijou respeitosamente a testa de apoiadores, deu abraços longos e apertos de mão. O presidente eleito, a companheira e a equipe foram embora da terra de Camões sob aplausos, música e carinho. 

Os resultados da primeira viagem internacional depois do pleito reforçaram as já altas expectativas de líderes mundiais e do eleitorado brasileiro, representado em Portugal. Era visível a esperança nos olhos do público ao olharem para Lula. Tudo isso aumenta ainda mais o peso da responsabilidade para o mandato, que praticamente já começou. Estará o novo presidente do Brasil preparado para responder a tantas expectativas? Os próximos meses vão dizer.

* Amanda Lima escreve a sua opinião em Português do Brasil

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