Como a mudança dos padrões de vida pode originar mais doentes de Alzheimer. "Número de casos em Portugal é muito superior ao que se pensava"

6 mai 2023, 20:00
Alzheimer (Matt York/AP)

Na China, um jovem de apenas 19 anos foi diagnosticado com a doença. A confirmar-se que tem mesmo Alzheimer, será o paciente mais novo de sempre a ser diagnosticado com este tipo de demência. O que levanta uma questão: estão os padrões da sociedade a contribuir para acelerar o aparecimento mais precoce da doença?

Se lhe perguntassem se queria saber quando vai morrer, o que responderia? E se lhe perguntassem se queria saber se iria ter uma doença degenerativa como Alzheimer? Há testes genéticos que permitem identificar uma predisposição para o aparecimento desta demência, mas nenhum deles é 100% eficaz ao ponto de identificar se a patologia vai mesmo surgir, muito menos quando é que isso pode acontecer.

É aquilo a que o neurologista João Massano chama “tortura”, até porque, mesmo que identificada essa predisposição, existem muito poucas coisas que possam retardar a evolução da doença. “Não temos forma de prevenir a doença. Por isso, explicamos à pessoa para que serve um teste genético - e caso se encontre uma alteração genética, isso não vai mudar nada relativamente à prevenção. É uma tortura”, afirma à CNN Portugal o também coordenador da Unidade de Neurocognição e Demências do Hospital CUF Porto, que tem sempre uma conversa com os pacientes antes de avançar para o teste, até porque, “na maior parte das vezes, estamos a falar de probabilidades baixas de encontrar” os marcadores genéticos da doença.

Sofia Nunes de Oliveira concorda. A neurologista, que faz parte da Comissão Científica da Associação Alzheimer Portugal, explica à CNN Portugal que as formas familiares de Alzheimer “são raras”, havendo apenas três mutações principais identificadas. “São doentes com formas mais precoces, há genes de predisposição que estão nas famílias e aumentam o risco de ter a doença, sem que seja necessário que venham a tê-la”, refere, apontando o mesmo problema que João Massano: “Com a genética não podemos fazer nada. Nesses casos, os doentes podem até saber que têm genes de predisposição, fazemos os testes, mas depois podem nunca desenvolver a doença.” E não havendo uma cura 100% eficaz ou uma forma 100% eficaz de prevenir, "é preciso discutir muito bem quando se deve fazer os estudos genéticos”, acrescenta a especialista, que também dá consultas de Neurologia no Hospital da Luz.

Mesmo não sabendo quando, os especialistas sabem que as formas mais precoces de Alzheimer estão sempre ligadas a fatores genéticos. Esses mesmos fatores terão contribuído para um raro caso identificado na China, onde um jovem de apenas 19 anos foi diagnosticado com a patologia. A confirmar-se que este jovem tem mesmo Alzheimer, será o paciente mais novo de sempre a ser diagnosticado com este tipo de demência. O que levanta uma questão: estão os padrões da sociedade a contribuir para acelerar o aparecimento mais precoce da doença?

João Massano destaca este como um caso que “sai fora de todos os limites que conhecemos”, apontando que apenas 1 a 2% dos casos de Alzheimer se dão por alterações genéticas. Só que isso não aconteceu neste caso. “Nestes casos de mutação genética em pessoas com menos de 55 anos há várias gerações afetadas. São formas muito mais agressivas que o Alzheimer esporádico. Nas pessoas mais novas costuma ser mais agressivo - a sobrevivência é muito mais encurtada”, indica o neurologista, que não conhece casos de Alzheimer abaixo dos 40 anos, mesmo sabendo que isso é possível. Referindo-se a este caso em específico, João Massano assume que a comunidade ficou “espantada por não haver uma mutação genética”.

Boas e más notícias

A Organização Mundial da Saúde (OMS) já avisou que o número de casos de Alzheimer em todo o mundo deve duplicar até 2030 e triplicar até 2050. Dados que se explicam, em parte, pelo grande aumento da esperança média de vida.

“Não temos dúvidas de que o grande fator que vai aumentar a doença é o envelhecimento da população”, diz João Massano, apontando para os principais fatores de risco: diabetes, hipertensão, alcoolismo, tabagismo ou obesidade. Fatores que aumentam proporcionalmente à idade da população.

Sofia Nunes de Oliveira prefere ver o copo meio cheio: há mais casos mundialmente, sim, mas também “estamos a melhorar na capacidade de atrasar e prevenir a doença”, nomeadamente pelo controlo dos fatores de risco. Há mais consciência para problemas como o tabaco ou a obesidade, ao passo que se controlam mais devidamente problemas como a diabetes ou a hipertensão.

“Os grandes estudos mostram uma diminuição da incidência. A doença parece aparecer mais tarde, temos cuidados melhores e nos países mais desenvolvidos estamos a tratar melhor”, aponta. E isso pode fazer a diferença nos números da OMS. China e Índia, que em conjunto têm mais de um terço da população mundial, já têm uma esperança média de vida maior do que outros países em vias de desenvolvimento (no caso chinês já supera mesmo a dos Estados Unidos). Só que a prevenção e tratamento dos fatores de risco nesses países ainda não está ao nível de outros.

É a diferença entre incidência e prevalência, destaca a neurologista, que vê o último indicador a aumentar “brutalmente” - e por uma “razão óbvia”: “Estamos a viver mais, a esperança média de vida está a aumentar.” Um aumento que também afeta a Europa e Portugal, onde o número de pessoas com demência “é cada vez maior”.

No caso português, e segundo a neurologista da Associação Alzheimer Portugal, são cerca de 170 mil os casos. Número que estará longe do real, de acordo com Sofia Nunes de Oliveira. “O número de casos é muito superior ao que se pensava em Portugal”, sublinha a especialista, que aponta situações como idosos internados em lares, institucionalizados ou isolados que acabam por nunca ter um diagnóstico.

No seu consultório, diz a neurologista, os doentes que chegam são cada vez mais velhos, o que é um bom sinal dentro de tudo o que é obviamente mau pela existência da doença.

A relação entre poluição e Alzheimer

Embora trace um sinal de esperança, Sofia Nunes de Oliveira admite que “o futuro tem aspetos preocupantes” que não se colocavam em cenários anteriores. A neurologista fala do aumento do consumo de tabaco, de produtos com corantes, do sedentarismo, mas também de fatores mais estruturais, como a poluição atmosférica, que “parece claramente ser um fator” de risco para a evolução de doenças degenerativas.

Dados que, segundo João Massano, “não são de ignorar”, e que podem contribuir para que a doença, a pouco e pouco, se manifeste mais cedo. E será tanto mais assim quanto menor for o acompanhamento. O mesmo é dizer que um cidadão obeso que viva em Bombaim, por exemplo, tem uma maior propensão a desenvolver Alzheimer do que alguém que viva em Lisboa.

Em paralelo, lembra o neurologista, há uma maior associação de fatores de risco a idades mais novas. “Há cada vez mais problemas vasculares em pessoas mais jovens”, destaca, falando naquela que é a principal causa de Alzheimer, os problemas vasculares, que aparecem cada vez mais cedo, muitas vezes associados à obesidade, tabagismo ou outros comportamentos de risco.

Precisamente para combater isso, Sofia Nunes de Oliveira deixa vários conselhos: prevenir a obesidade, tratar a hipertensão, a diabetes, fazer exercício e manter uma atividade intelectual e social ativa. Isso “melhora a nossa saúde cerebral, melhora a plasticidade cerebral”, e deve começar a ser seguido com mais atenção logo aos 30/40 anos e não apenas aos 80, quando já há uma deterioração.

João Massano diz que esse tipo de comportamentos ajudam-nos a proteger a reserva cognitiva, a qual deve ser logo trabalhada desde pequeno. O especialista afirma que há mesmo uma relação entre isso e o nível de escolaridade, o que pode afetar países como Portugal. “O nosso país é um país com alta taxa de iliteracia, ainda vemos muitas pessoas com a quarta classe nas consultas”, alerta, explicando que a ideia não é desenvolver mais neurónios mas antes criar mais ligações entre eles, o que aumenta a reserva e protege melhor da doença de Alzheimer. “Ela está lá, mas não se mostra”, conclui.

O tratamento e a esperança numa cura

No consultório de Sofia Nunes de Oliveira há doentes que hoje são diagnosticados e que há dez anos não o seriam. A neurologista explica que “agora temos formas melhores de diagnóstico”, instrumentos e conhecimento que antes não existiam.

O diagnóstico de Alzheimer não é uma sentença, afiança a especialista, que fala na existência de terapêuticas que tratam sobretudo os sintomas. “Percebemos que tratar precocemente a doença gera menos complicações”, refere, explicando que isso ajuda o doente mas também a família.

“Não há uma cura, mas é útil fazer o diagnóstico cedo. A evolução é efetivamente menor se o doente estiver a ser acompanhado como deve ser. E isso não é apenas a intervenção médica, é também social”, sublinha a neurologista, que vê na maior capacidade da ciência uma das vantagens para conseguir fazer o diagnóstico mais cedo, até porque também há maior capacidade de prevenir, detetar e tratar os fatores de risco.

Esperança na cura existe sempre mas, para já, aquilo a que os médicos se agarram é a tratamentos. Um deles é um fármaco antiamilóide que já foi aprovado pela Food & Drugs Administration (FDA), o equivalente norte-americano à Agência Europeia do Medicamento.

“Ainda não percebemos se este tratamento é mais eficaz”, termina Sofia Nunes de Oliveira, que deixa um lamento: “Acho que estamos um bocadinho longe de ter uma cura para isto.”

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