Não bastava desmentir os números do Governo e fazer previsões económicas mais negativas. Agora, o manda-chuva do Banco de Portugal também critica a nossa gestão dos fogos florestais. Começamos mal…
Não sei se se lembra, mas há uns meses, Donald Trump fez uma cerimónia grande e pateta na Casa Branca, mesmo como ele gosta. Era, dizia o Donald, o “Dia da Libertação” dos Estados Unidos – o dia em que foi anunciada uma tabela de novas tarifas às importações.
Em julho, por cá, o Governo anunciou, com menos pompa e circunstância, uma espécie de Dia da Independência Reencontrada – Trump chamar-lhe-ia assim, se tivesse um anúncio desses para fazer. António Leitão Amaro dá o seu melhor como ministro da propaganda, mas ainda tem muito a aprender.
Nós não sabíamos, mas vivíamos até então num universo de Proust, “à procura da independência perdida”. Felizmente, a independência em causa não era da Pátria toda… mas só de uns quarteirões em Lisboa, ali onde estão os edifícios do Banco de Portugal.
O rosto da independência reencontrada
Pois, a independência voltou, encarnada no rosto singelo de Álvaro Santos Pereira. Ei-lo, como novo governador do Banco de Portugal. Segundo o Governo, o melhor, o mais bem preparado, o mais independente. Ele, que esteve num Governo do PSD, sendo até dispensado a meio do trajeto, mas é independente – foi aquilo a que uma comentadora arguta caracterizou, na época, como “uma saída limpa”.
A questão que o Governo quis enfatizar – e enfatizou mesmo, e muito – é que o bom velho “Álvaro” é cá dos nossos, não é como esse Centeno, do tempo do Costa, que desatou a publicar números que agora ensombram as previsões pristinas e cristalinas de Joaquim Miranda Sarmento, o nosso ministro das finanças licenciado em gestão.
Caíram todos
No entanto… Apesar do Dia da Independência Reencontrada, há umas semanas o governador do Banco de Portugal lançou uma espécie de bomba: nos primeiros três meses deste ano, os rendimentos reais das famílias portuguesas caíram 4,5%. Caíram todos!
O Governo bem pode anunciar que o salário médio líquido subiu, que os impostos desceram, que, que, que… Os números do governador do Banco Central não enganam.
Não, não me refiro a Mário Centeno. Esse ainda lá está, mas já foi despachado. Não voltará, em nome do Banco de Portugal, a contrariar os dados do Governo ou a fazer previsões mais negativas do que as do nosso Joaquim. Nada disso. Refiro-me ao indigitado novo governador do Banco de Portugal, o Álvaro, que é o economista-chefe da OCDE, esse sim, homem íntegro, independente e com currículo à prova de bala.
Por acaso, os números do Álvaro – que são os números da OCDE – desmentem a propaganda do Governo. São clarinhos como água: os portugueses, apesar de tudo nos correr no melhor dos mundos, perdem poder de compra. E porquê? Por causa da carga fiscal. Está escrito no relatório da OCDE. E o Álvaro confirma.
Fogos? Só mesmo por implicação da OCDE
A julgar pelo spin feito pelo atual Governo, “o Álvaro” não é só economista-chefe (o que não seria pouco, apesar de só ter assumido o cargo em Paris depois de ter perdido dois concursos, o que só lhe engrandece a perseverança), é uma espécie de dono daquilo tudo lá na OCDE. E não é que, por coincidência, depois de dar más notícias sobre os rendimentos reais dos portugueses, agora a OCDE veio implicar com a nossa prevenção e gestão de fogos? Só pode ser embirração, ou o Álvaro a querer mostrar independência.
Por junto, um relatório da organização apontou uma série de críticas sobre os fogos florestais neste cantinho à beira-mar plantado. Diz que é preciso “reforçar a coordenação entre diferentes níveis de governação [na prevenção e combate aos fogos], assegurar a continuidade dos investimentos e melhorar a monitorização dos resultados no terreno. A OCDE recomenda também uma “maior integração dos dados e ferramentas de planeamento, bem como a capacitação técnica de municípios e entidades locais”.
“Portugal tem de ter um melhor entendimento dos recursos que são gastos, em quê e de que forma. Por isso temos uma imagem muito limitada dos recursos que estão a ser mobilizados para a gestão de fogos. Acreditamos que não é necessariamente uma questão de gastar mais, mas de garantir que os recursos existentes são gastos de forma eficaz”, disse a coordenadora do estudo independente sobre Portugal, que será, seguramente, um alter-ego do Álvaro.
Por provocação, sem dúvida, um dos poucos elogios feitos ao nosso país é ao trabalho que se seguiu à tragédia de 2017: à criação do Sistema Integrado e o Plano de Ação, seguindo as recomendações da Comissão Técnica Independente constituída pelo governo de então (onde, por coincidência, Centeno era ministro).
O remédio para manias de estrangeirado
Tanta embirração só pode significar que o Álvaro anda com manias de estrangeirado. Mal chegue cá, a coisa atina. É bem sabido que não se pode confiar em instituições lá de fora. Então não é que Bruxelas acha as contas do dr. Joaquim Sarmento pouco credíveis e as suas metas orçamentais muito improváveis?... Que topete! Nem o banco do Centeno ia tão longe.
Em princípio, chegando cá o Álvaro… tudo se resolve. Já não precisará de se mostrar independente ou de mostrar serviço à OCDE. Mas, à cautela, talvez fosse melhor o Governo aprovar o mais depressa possível o novo pacote laboral.
É importante que entrem rapidamente em vigor as novas regras sobre o período experimental e o despedimento facilitado com justa causa – pode ser preciso… se o Álvaro não entrar na linha.
