Empreiteiro de Luís Neves fez obras na casa do diretor financeiro da PJ

Nuno Guedes | Sónia Trigueirão | Sandra Felgueiras , com Felícia Cabrita e Bruno Horta, do semanário Nascer do Sol
6 ago, 20:58
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Moradores confirmam intervenções recentes na residência de Álvaro Pires e recordam a presença, durante várias semanas, de uma carrinha da Construbarcelos. O responsável da PJ foi quem propôs entregar provisoriamente ao empresário João Carvalho o atrelado apreendido com produtos químicos associados ao fabrico de cocaína

Álvaro Pires, diretor dos Serviços de Gestão Financeira e Patrimonial da Polícia Judiciária, teve obras na sua residência executadas pelo mesmo empreiteiro que realizou trabalhos para a PJ e nos montes em Odemira de Luís Neves, ex-diretor nacional da Judiciária e atual ministro da Administração Interna, apurou a investigação do Nascer do Sol/TVI/CNN Portugal.

O nome de Álvaro Pires tornou-se conhecido nas últimas semanas por ter assumido internamente a iniciativa de propor que a galera apreendida pela Polícia Judiciária, onde se encontravam bidões com produtos químicos associados ao fabrico de cocaína, fosse provisoriamente guardada num espaço pertencente ao empresário João Carvalho. A proposta acabou por ser validada por Luís Neves, que mais tarde assumiu publicamente a decisão, justificando-a com a falta de alternativas.

A equipa do Nascer do Sol, TVI e CNN Portugal deslocou-se à Charneca de Caparica, no concelho de Almada, onde vive o diretor financeiro da PJ. Numa rua de vivendas, com circulação praticamente limitada a moradores e visitantes, vários residentes confirmaram terem assistido a obras recentes na habitação. Recordaram igualmente a presença, durante várias semanas, de uma carrinha branca estacionada nas proximidades da moradia.

Foi precisamente essa carrinha que permitiu levar a investigação mais longe. Um dos moradores fotografou e filmou o veículo durante o período em que decorriam os trabalhos, no final do ano passado.

Através da matrícula, foi possível identificarmos a viatura, da marca Fiat, como pertencente à Construbarcelos, empresa de João Carvalho. Segundo os testemunhos recolhidos no local, a carrinha permaneceu estacionada naquela rua durante várias semanas.

Uma das vizinhas, que prefere permanecer no anonimato, residente na mesma rua há vários anos, não tem dúvidas quanto à existência das obras: "Teve, teve”.

Outro morador que também preferiu não dar o nome recorda igualmente a intervenção e a presença de veículos: "Era uma carrinha branca. Houve obras.”

Já Pedro Rosa, morador naquela rua há quase 20 anos, afirmou lembrar-se perfeitamente das obras na casa do seu vizinho Álvaro Pires, e do transtorno que uma das carrinhas causou. “Lembro-me porque não há muito estacionamento na rua e a carrinha tinha muito mau aspeto e esteve aí parada muito tempo. Acho que desde junho até finais de novembro”, afirmou, sublinhando que, assistiu várias vezes à entrada e saída de matérias de construção da casa de Álvaro Pires.

“Estava essa carrinha e outra, eram brancas, estorvavam o trânsito e muitas vezes tínhamos de apitar para passar e lá vinha um homem, mais de idade e assim para o grisalho, desviar”, descreveu, identificando, através de uma fotografia, que mostrámos o empreiteiro João Carvalho como o homem que que aparecia sempre que apitava.

Pedro Rosa lembrou-se ainda de um outro pormenor: “Eu tenho um reboque e a certa altura a vizinha veio-me pedir bom senso, no sentido de o estacionar noutro lugar. Eu perguntei-lhe se, quando a carrinha branca esteve estacionada à porta dela durante tanto tempo se também disse o mesmo ao vizinho. Ela disse que a carrinha tinha ficado tanto tempo porque estava avariada”.

Ao que apurámos, de facto, a carrinha da Construbarcelos avariou e recorreram ao mecânico que tem uma oficina na mesma rua para a reparar. O arranjo foi pago em dinheiro pelo próprio diretor financeiro da PJ e não pelo empreiteiro João Carvalho. Custou 150 euros.

Confrontado com esta investigação e com a possibilidade de a Construbarcelos ter executado obras na residência de outros altos dirigentes da PJ, João Carvalho, por sua vez, rejeitou essa hipótese. "Não. Não. Só fiz para o Neves e pagou como os outros”.

Também Álvaro Pires foi abordado pela equipa de reportagem à porta de casa. Questionado sobre eventuais obras realizadas pela empresa de João Carvalho, respondeu: "Não sei do que está a falar."Perante a insistência dos jornalistas, acrescentou: "Obras? Tem de provar."

As ligações entre João Carvalho e responsáveis da Polícia Judiciária já tinham sido reveladas em anteriores investigações do Nascer do Sol, TVI e CNN Portugal. Entre 2020 e 2025, a Construbarcelos faturou cerca de 2,3 milhões de euros em 17 contratos relacionados com obras para a PJ, nomeadamente na Guarda e em Évora.

Na Guarda, a empresa recebeu cinco adjudicações entre 2020 e 2023, algumas delas sem concurso público. Em Évora, a própria Polícia Judiciária confirmou à investigação que apenas duas empresas foram consultadas e que a empreitada foi adjudicada à Construbarcelos por ter apresentado a proposta de menor valor. A obra foi contratada por 874.203,51 euros.

Este artigo contou com a contribuição dos jornalistas Felícia Cabrita e Bruno Horta, do semanário Nascer do Sol

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