Entraram em medicina. Querem servir o SNS. Mas não a qualquer custo. Cinco futuros médicos olham para o futuro

20 set, 07:00
Alunos de Medicina (DR)

O Mateus já estuda outros idiomas caso seja necessário emigrar e a Madalena não fecha a porta a uma carreira no privado. A Rita quer mudar a abordagem da Medicina para torná-la mais focada na prevenção. A Margarida espera que, daqui a seis anos, “ninguém seja escravizado”, até porque, continua o Pedro, os médicos não podem “fazer tudo sozinhos”. A CNN Portugal conversou com cinco jovens que foram esta semana colocados em Medicina

“Sempre tive curiosidade pela biologia, pelo corpo humano, e sempre gostei de conversar muito. A Medicina é aquela profissão onde posso ter o contacto com os pacientes, ao contrário das áreas de investigação”. Mateus Mestre, de 18 anos, não é o típico caloiro de Medicina que sempre quis ser médico, foi apenas “no nono ano” que percebeu que essa profissão poderia aliar duas das coisas que mais gosta: biologia e contacto com pessoas, uma dupla que, possivelmente, o levará à especialidade de geriatria, um cenário que, para já, deixa em aberto.

“Ainda não estudei nada para saber a especialidade, no geral gosto muito de estar com pessoas mais idosas, a geriatria poderia ser uma opção”, conta-nos o jovem da Ramada, em Odivelas. Aos 18 anos, Mateus foi colocado na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa com a média de 19,05 valores.

Sobre o futuro, é taxativo: “já que vou fazer o ensino no público, acredito que farei carreira no público”. Mas Mateus está consciente das dificuldades existentes e que, a seu ver, permanecerão quando terminar o curso, daqui a seis anos e, por isso mesmo, já prepara um possível plano B: “De momento não tenho nada traçado de forma muito específica, estou a tentar deixar as opções em aberto, mas estou a estudar outras línguas para emigrar se for necessário ou se surgir uma oportunidade melhor”.

Mateus Mestre, de 18 anos, entrou na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

Segundo os dados mais recentes da Ordem dos Médicos, publicados este ano e referentes a 2021, “a emigração de médicos disparou em 2021 com 88 profissionais a procurarem novas oportunidades fora de Portugal” -  só em 2016 é que se registou um número mais elevado de emigração, um total de 147. 

Pedro Monteiro, de 18 anos, não coloca a saída de Portugal nos seus planos pós-curso. “Prefiro o [setor] privado a emigrar”, garante. Natural de Matosinhos e agora aluno de Medicina na Universidade da Beira Interior, onde foi colocado com a média 18,53, o jovem, que “gostava de ir para cardiologia”, também sonha com uma carreira no público, mas “isto, claro, se o estado do SNS deixar de estar no estado caótico como tem estado”. 

O estado atual do Serviço Nacional de Saúde (SNS) é apontado pelos jovens entrevistados pela CNN Portugal como o grande calcanhar de Aquiles da Saúde em Portugal e, possivelmente, o entrave a uma carreira ‘para a vida’ no público, o objetivo que outrora foi de quem iniciava um curso de Medicina.

“Não tenho grande interesse em ir para o estrangeiro. Inicialmente todos temos de ir para o SNS, se correr bem gostava de ficar lá, gosto da parte de poder ajudar toda a gente independente das possibilidades financeiras de cada um. Mas não sei como as coisas vão estar na altura, se vai ser suficiente ou não [para não ir para o privado]”, diz-nos Margarida Maia Carvalho, de 18 anos e agora aluna de Medicina no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto, onde foi colocada com 18,93 valores.

“Gosto de acreditar que, quando chegar o meu momento, as coisas estarão recuperadas, faltam seis anos para as coisas melhorarem”, diz, em tom esperançoso a jovem que “desde muito pequena” quer ser médica e olha para a especialidade de cardiologia como algo “interessante” e um possível caminho a seguir.

Margarida Maia Carvalho, de 18 anos e agora aluna de Medicina no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto

A saída para o setor privado que estes jovens falam não é um cenário futurista, nem tão pouco uma novidade. O Bastonário da Ordem dos Médicos já alertou para o facto de hoje haver “muitos mais médicos” a sair do SNS rumo a hospitais e clínicas privadas, um cenário que se agravou ainda durante a pandemia.

No final do ano passado, mais de 400 médicos já tinham abandonado os hospitais públicos desde 1 maio de 2021, quando terminou a proibição de sair então imposta no estado de emergência da altura. De acordo com os dados da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) facultados ao jornal Público em abril deste ano, cerca de 800 médicos e pouco mais de 1800 enfermeiros deixaram o SNS desde o início da pandemia, em março de 2020.

Rita Malheiro, também natural do Porto, sempre soube que queria ser médica e, dos cinco jovens entrevistados, é a que tem o seu futuro mais planeado - ou, pelo menos, idealizado. “Considero-me muito sortuda, vi muita gente à minha volta perdida e sempre quis Medicina, nunca tive um plano B”, revela.

Quanto à futura carreira, a jovem de 17 anos - colocada na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto com média de 19,5 valores - coloca algumas cartas em cima da mesa. “O meu sonho sempre foi ir estudar para Oxford, não consegui por causa do Brexit, mas gostava de fazer a especialidade no Reino Unido”, conta, mas a sua carreira, espera, será feita em Portugal. “Quero sempre trabalhar no público”, adianta-se, embora não descarte vir a ter o seu próprio consultório de neurologia, especialidade que quer seguir. “Estive agora as duas últimas semanas a fazer um estágio sobre neurologia na [fundação] Champalimaud”, conta.

Segundo a Direção-Geral do Ensino Superior (DGES), este ano, abriram 1.451 vagas para Medicina nas sete instituições públicas com o curso, não sobrando vagas para a segunda fase. De todas as universidades com este curso, apenas a Universidade da Beira Interior e a Universidade de Coimbra aumentaram o número de vagas para o ano letivo que começa agora, mais cinco em cada estabelecimento de ensino. Este ano, houve ainda 70 vagas que abriram no curso privado de Medicina da Universidade Católica.

Rita Malheiro, de 17 anos, foi colocada na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto

Um SNS melhor do que o de muitos países, mas onde os médicos não podem continuar a ser “escravizados”. Futuros clínicos anseiam por melhorias e chutam a bola para o governo

As notícias não são animadoras, nem os desabafos de profissionais de saúde que vão aparecendo com mais frequência e menos timidez nas redes sociais. O estado atual do Serviço Nacional de Saúde - marcado por um verão ‘negro’ nas áreas de ginecologia e obstetrícia, mas que ainda faz sobressair problemas de outros tempos, como listas de espera infinitas e anos a fio sem garantias de médico de família para todos - preocupa os futuros jovens médicos, que não hesitam em defender que a solução passa pelo equilíbrio, um jogo de cintura conjunto entre os profissionais e o Governo.

“As pessoas ficam séculos à espera de consultas, os médicos trabalham demasiadas horas, fazem turnos brutos, mas poderíamos estar piores do que estamos”, reconhece Rita. “Por um lado, temos um SNS muito melhor do que noutros países, sobretudo comparando com um país como os Estados Unidos, em que se tem de hipotecar casas para fazer um tratamento de cancro”, atira a jovem, apressando-se a dar um exemplo bem recente, o de um português que sofreu um aneurisma numa viagem aos EUA e que agora não tem como pagar as despesas médicas

O estado do SNS é algo que “preocupa” Pedro Monteiro. “Tem a ver com a saúde dos cidadãos portugueses, podia estar em melhores mãos do que esteve até agora”, defende, adiantando que “este problema já não é recente, lidamos muito bem com a pandemia, mas negligenciamos outras áreas importantes na saúde, agora que a Covid 19 já quase terminou vieram ao de cima outros problemas”. Mas, como diz, prefere manter o otimismo: “Vamos ver se o novo ministro poderá fazer um bom trabalho, pode ser que até lá sim, até terminar o curso teremos dois mandatos diferentes, acho que há tempo para melhorar”, espera. 

Pedro Monteiro, de 18 anos, vai estudar Medicina na Universidade da Beira Interior, na Covilhã.

Margarida Maia Carvalho espera que haja mudanças na saúde pública durante os anos em que estiver a concluir o curso. “Espero que os médicos sejam pagos de uma forma justa e que ninguém seja escravizado, que não abusem do serviço dos médicos e dos enfermeiros, que todos [os cidadãos] possam recorrer sem filas de espera imensas”, diz a jovem, acrescentando que, para que isto se concretize, “tem de haver uma conciliação dos dois [profissionais e governo], não pode ser tudo apenas de uma parte, mas não deve ser tudo posto em cima do médicos, apesar da resiliência e esforço, os médicos também precisam de ser apoiados”.

Madalena Moita, de 17 anos e a residir na Tojeira, em Sintra, espera que haja mais vagas para “médicos especializados”. Uma questão que diz que tem de ser resolvida, não apenas para encurtar as listas de espera para consultas e cirurgias, mas sobretudo para evitar que os médicos precisem de fazer “tantas horas” como as que fazem, dando como exemplo o que tem acontecido com as especialidades de ginecologia e obstetrícia e com a recusa dos médicos internos de Medicina Interna em passar das 150 horas extraordinárias anuais. “A necessidade de fazer tantas horas vem de não haver gente para tanto trabalho”, diz-nos a jovem, que foi colocada com 18,38 valores na Nova Medical School - Faculdade de Ciências Médicas, em Lisboa, e que gostaria de se especializar em cirurgia cardiotorácica.

Embora a ocupação de vagas abaixo dos níveis esperados seja uma questão já transversal a quase todas as especialidades, é na Medicina Geral e Familiar que a questão é mais complexa. A Federação Nacional dos Médicos (FNAM) já veio alertar que foram preenchidas apenas 63% das vagas abertas em junho para recém-especialistas em Medicina Geral e Familiar, a mais baixa ocupação de lugares disponíveis desde a criação desta especialidade, o que vem agravar o cenário do elevado número de portugueses sem acesso a médico de família nos cuidados de saúde primários, os chamados centros de saúde.

Madalena Moita, de 17 anos, foi colocada na Nova Medical School - Faculdade de Ciências Médicas.

Também Mateus Mestre defende a importância de mais vagas em especialidades e de mais médicos no ativo, um cenário que espera que se concretize nos próximos anos. “O curso é exigente e é preocupante o estado em que está o SNS, o facto de haver falta de médicos causa muita sobrecarga, daqui a sete anos, quando for um deles, a carga [de trabalho] deve ser ainda maior, vai haver ainda mais problemas em conciliar vida pessoal e profissional. Mas não quero que a Medicina controle toda a minha vida”, desabafa.

“De momento, faltam muitas vagas nos cursos, as médias estão muito altas, mas há sempre algo que podemos fazer, mas o que pode ser agora feito é pelas gerações mais velhas”, diz o jovem de Odivelas, chutando a bola para o Ministério da Saúde, pois, defende, só assim se garantem condições para as gerações mais novas de médicos.

E um dos aspetos a mudar, para além do aumento de vagas no acesso ao Ensino Superior e da descida das médias, é a questão do acesso à especialidade. No que diz respeito a vagas, Francisco Pêgo, da Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM), revelou em entrevista à Lusa que no concurso para acesso a formação especializada havia 2.849 candidatos e o número de vagas disponibilizadas para a formação pós-graduada foi de apenas 1.938, o que deixou um terço dos alunos de fora. 

Sobre o estado em que espera que o SNS esteja quando terminar o curso, Rita e Pedro defendem que há todo um trabalho a ser feito pelos “dois lados”, o dos médicos e o do Estado. “Sinto que enquanto estudantes e futuros médicos, não podemos fazer tudo sozinhos, podemos dar no nosso contributo. Pelo que vejo nas notícias e de amigos meus, somos uma geração bem ciente dos problemas a enfrentar no futuro, mas terá de ser o Estado a intervir”, reconhece Pedro Monteiro.

“Sabemos o que queremos melhorar e podemos reivindicar as coisas como deve ser, de forma concreta e ser diretos, mas [a mudança] também tem de partir do Estado”, continua Rita Malheiro. E aqui, há que contratar mais médicos, sobretudo especialistas - e até o próprio primeiro-ministro António Costa reconheceu, em entrevista à CNN Portugal/TVI, que este é um dos problemas do SNS, sobretudo no que diz respeito às especialidades de Ginecologia e Obstetrícia - em que mais de 50% das vagas ficaram vazias no último concurso. Mas o problema é geral e também a Direção-Geral da Saúde já lançou o alerta sobre a falta de médicos para este inverno.

Rita vai mais além nas mudanças que espera ver no SNS, defende mesmo que as alterações não devem ser apenas organizacionais e a nível de vagas e carreira médica.

A estudante acredita que mudar a abordagem da Medicina pode mesmo ser um trampolim para melhores anos de saúde, seja dos cidadãos ou do próprio SNS. “Gosto muito de uma parte diferente da Medicina. A medicina hoje em dia está muito errada. Os médicos dão medicamentos para resolver os problemas, mas a maior parte das pessoas tem problemas pelos seus hábitos e os médicos não perguntam quais os hábitos”, diz-nos. A futura médica, quem sabe neurologista, diz que o caminho é o da “medicina de prevenção”. “Não vou andar contra a corrente, também acho interessante a teoria, mas na parte prática vou ser diferente”, assegura.

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