Com a redução das emissões aquém das necessidades do planeta, os especialistas ouvidos pela CNN Portugal consideram "completamente irrealista" esperar anos menos quentes daqui para a frente
O mundo está mais quente do que nunca, os últimos três anos bateram recordes e é sob essa premissa que se discute o futuro do planeta na COP30, a cimeira climática das Nações Unidas, que está a decorrer no Brasil: os mais recentes dados divulgados pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) apontam 2025 como o segundo ou terceiro ano mais quente de sempre, atrás de 2024 - o mais quente de que há registo e ainda com 2023 entre os três mais.
“Nós estamos a experienciar o melhor daquilo que está para vir”, garante à CNN Portugal Pedro Garrett, investigador em alterações climáticas, para quem a tendência nos próximos anos é clara: “Espera-se que os fenómenos extremos, nomeadamente ondas de calor, aumentem de forma significativa, portanto, até agora, não há como voltar atrás.”
Ao contrário daquilo que se pensa, explica o especialista, “o aquecimento global não é linear como se achava há dez anos”, altura em que foi assinado o Acordo de Paris com o objetivo de limitar o aumento da temperatura média do planeta. O pacto estabeleceu que este aumento não deveria ultrapassar em primeira instância os 1,5 graus Celsius até ao final do século, e, no limite, os dois graus, em relação aos níveis pré-industriais. “Hoje sabemos que isto é impossível”, indica Pedro Garrett, com base nas conclusões dos modelos científicos que “há cerca de pelo menos três anos já têm dado indicação de que iremos atingir um aumento da temperatura média acima do período pré-industrial de 1,5 graus de uma forma consistente a partir de 2026”.
Trata-se, diz o especialista em alterações climáticas, de um crescimento “quase exponencial”, a que “dificilmente conseguiremos fugir”, pelo que se estima que até 2050 o planeta consiga atingir a temperatura de dois graus acima do período pré-industrial.
O cenário também preocupa Filipe Duarte Santos, presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável (CNADS), que vê nos combustíveis fósseis a raiz do problema - e que só terá fim quando “a sua causa for eliminada”. “Quando se faz a combustão destes combustíveis fósseis, emite-se para a atmosfera dióxido de carbono em quantidades gigantescas e por ano são cerca de 37 mil milhões de toneladas”, sublinha à CNN Portugal.
Numa tentativa de minimizar o sobreaquecimento do planeta, a recomendação da ciência é que se complete uma transição energética que priorize as energias renováveis e outras formas descarbonizadas de energia, mas Filipe Duarte Santos relembra que a solução continua longe de se concretizar, quando “80% do bolo total ainda são energias fósseis e apenas 15% energias renováveis”.
“Não estamos a fazer uma transição energética, estamos a fazer uma adição energética”, afirma, constatando que “as energias renováveis de facto já são 15% do bolo, mas o crescimento dos 15% não se compara ao crescimento dos 80%”.
"Completamente irrealista" esperar anos menos quentes
O dióxido de carbono é o gás com efeito de estufa que mais contribui para a evolução da temperatura média da Terra. O CO2, bem como o metano, que permanece na atmosfera durante menos tempo mas retém mais energia e calor, prevalecem durante “bastante tempo na atmosfera, fazendo com que aqueça mais do que aquilo que aqueceria se eles não estivessem lá”, explica à CNN Portugal o climatologista do IPMA Carlos Pereira.
E vai mais longe a traçar o cenário. “Se todos os países do mundo, entre eles os Estados Unidos, a Índia e a China, que são os principais emissores, cortassem hoje a emissão, ainda demoraríamos 30 ou 40 anos até que todo o CO2 se retirasse da atmosfera, e a temperatura continuaria a subir.”
O especialista adianta que, por enquanto, “continuamos a ter emissões de carbono que nos fazem seguir uma trajetória prevista”, referindo-se à tendência crescente do nível médio da temperatura, que “virtualmente é a variável com menos incerteza”.
Face a um consumo “galopante” de energia, que também tem comprometido a transição energética, Filipe Duarte Santos considera “completamente irrealista” esperar anos menos quentes e põe o ónus do lado dos países mais desenvolvidos, responsáveis por grande parte das emissões. “Em particular nos países da União Europeia, mais industrializados, com economias avançadas e mais qualidade de vida, os impactos das alterações climáticas são mais controlados e menos prejudiciais, porque há capacidade para isso”, observa. Mas o mesmo não acontece com os países menos desenvolvidos, onde basta uma “seca terrível, inundações ou um fenómeno extremo” para “as pessoas passarem fome”, tendo em conta que se trata de economias maioritariamente dependentes da agricultura.
Aquecimento global traz mais calor (e frio também)
Pedro Garrett esclarece, ainda, que na prática o aumento da temperatura média global significa um aumento da energia no sistema climático. Para a humanidade, este aumento traduz-se em eventos meteorológicos extremos, que correspondem a um mecanismo do clima para dispersar essa energia. Daí resultam as inundações, as ondas de calor ou os fenómenos de frio que também podem tornar-se mais intensos.
“Existe uma cortina de vento que separa o ar frio do Ártico das temperaturas mais moderadas das nossas latitudes e com o aumento da temperatura média global essa cortina tem maior tendência a partir-se”, explica. “Quando isso acontece, o frio do Ártico aproxima-se das nossas latitudes e fica preso”, continua. É o enfraquecimento desta cortina que explica alguns períodos temporários de mais frio, mas também de sistemas bloqueados de calor muito intenso.
A explicação é corroborada por Carlos Pereira que assegura que o facto de termos uma temperatura média em constante subida fará com que tenhamos “mais extremos de temperatura, tanto na máxima como na mínima”.
Antes de a COP30 começar, a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, reforçou o apelo à ação, relembrando que "não podemos desafiar as leis da física" e que "a ciência não mente“.
Prova disso é o clima “destrutivo” de que a humanidade tem sido testemunha, com “ciclones supercarregados, calor extremo, fogo” e quantidades de chuva “numa questão de minutos” que normalmente preencheriam meses, recorda. O que também não deixa dúvidas, acrescenta, é o elevado nível de concentração de gases de efeito estufa que retêm o calor - os mais altos em 800 mil anos - e condenam o planeta a “um futuro mais quente e perigoso”.