O aquecimento global é um desafio para o corpo humano (e muitos podem não sobreviver)

19 fev, 08:00
Postal histórico da cimeira do clima

Está cada vez mais quente e por períodos cada vez maiores. Está cada vez mais frio e por períodos cada vez maiores. Há cada vez mais vírus e doenças e o ar é cada vez mais irrespirável. O aquecimento global coloca vários perigos à saúde humana e pode causar a morte a 40 milhões de pessoas até ao final do século

Não há dúvida de que a Terra está a aquecer. E se o planeta aquece, nós também. Não falamos apenas do que se passa ou vai passar à nossa volta e de como seremos afetados pela seca, pelos incêndios ou pelas migrações, associados à crise climática, mas também de como o nosso corpo vai reagir ao calor, ao frio e à poluição.

O último relatório das Nações Unidas, divulgado este mês, diz que, mesmo perante um cenário de recuo ou, melhor, de “mitigação moderada” das emissões, “cerca de 40 milhões de pessoas podem morrer” antes do final do século devido à alteração das temperaturas.

“Podemos ter problemas respiratórios quer no verão quer no inverno, nomeadamente entre a população mais vulnerável – idosos, crianças e pessoas com doenças. Teremos trabalhadores expostos a golpes de calor ou mais expostos à variação da temperatura, como, por exemplo, trabalhadores da construção civil ou polícias. O aquecimento global coloca vários perigos à saúde humana”, aponta Gustavo Tato Borges, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, em entrevista à CNN Portugal.

Um deles é a importação de doenças devido à invasão de espécies de mosquitos. Com as alterações climáticas, diferentes vetores (geralmente insetos) podem conseguir sobreviver na Europa e ameaçar a saúde pública. Portugal tem uma Rede de Vigilância de Vetores (REVIVE), monitorizada pelo Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA), mas com o aumento da temperatura, com o tempo mais quente e mais seco, pode ser difícil escapar a esta invasão.

“Por agora, não têm condições de habitabilidade ou de se implantarem de forma efetiva na Europa, mas vão ter, cada vez mais, [e virão] de sul para norte. E com eles vão trazer doenças a que não estamos habituados, como a Malária, o Dengue, o Chikungunya”, aponta à CNN Portugal o especialista em saúde pública Bernardo Gomes.

Também a febre amarela pode chegar à Europa a curto prazo, segundo o diretor do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, Filomeno Fortes, que fala mesmo no risco de uma epidemia da doença no velho continente com origem em surtos em África, “um potencial reservatório de problemas de saúde”. Basta que o vetor tenha condições para sobreviver.

A febre amarela, por exemplo, afeta vários órgãos internos, principalmente os rins e o fígado. Dores de cabeça, musculares e de costas, acompanhadas de febre alta, náuseas e vómitos (a determinado momento vómito negro, resultante da ocorrência de sangramento estomacal) são os sintomas desta doença com uma taxa de mortalidade que varia entre os 25 e os 50% e para a qual não existe terapia antiviral: o tratamento limita-se a diminuir os danos corporais - diálise, oxigénio, transfusões de sangue, etc. 

"Quando existe uma onda de calor quem é que protegemos?"

As doenças tropicais são um dos efeitos indiretos do aquecimento global que preocupam as autoridades de saúde. A Terra está cada vez mais quente e as notícias de recordes de temperaturas sucedem-se a cada ano. Foram registadas temperaturas mediterrânicas no Ártico numa pequena cidade siberiana, os termómetros atingiram os 19 graus no Alasca em dezembro, um mês por regra muito frio, na China a temperatura média atingiu o valor mais alto dos últimos 70 anos, a Austrália bateu os 50 graus no último ano e 2021 terminou como o sexto ano mais quente desde que há registo.

“As pessoas que, nomeadamente, têm patologias respiratórias ou cardíacas têm, por vezes, intervalos de equilíbrio mais finos de adaptação ao meio ambiente e isso nota-se com a necessidade de adaptação de medicação de acordo com a altura do ano, mais quente ou mais fria. Portanto, o que é expectável, se tivermos padrões climáticos mais aberrantes neste contexto, vai haver uma maior dificuldade de lidar com o quotidiano também de pessoas que tenham patologias do sistema cardíaco, do sistema respiratório e até do sistema imunitário”, explica Bernardo Gomes.

E neste campo das variações do meio ambiente, a capacidade que o ser humano tem em manter em equilíbrio todas as suas funções e a própria constituição química dos seus tecidos (conhecida como homeostasia) pode ser determinante. Mas há uma característica geral que não deixa dúvidas sobre a fragilidade que representa: a idade.

“Quando existe uma onda de calor quem é que protegemos? Vamos proteger os mais novos e os mais velhos, por circunstância da sua fragilidade e autonomia. Mesmo em termos biológicos, um organismo com 80 anos não tem a mesma capacidade homeostática de um de 20 e tudo o que sejam fenómenos climatéricos vão deixar mais à rasca o organismo de 80 anos. Tudo isto tem uma tela muito grande de efeitos diretos e indiretos, com uma maior agressividade para pessoas mais vulneráveis e ou com patologias cardíacas e respiratórias”, especifica Bernardo Gomes.

Uma coisa é certa, sublinha Gustavo Tato Gomes: se não revertermos a situação, “vamos ter problemas de saúde pública” e “não só ao nível da mortalidade”. E o nosso corpo pode manifestar-se de diferentes formas.

“Falamos de problemas cardiovasculares, problemas respiratórios, problemas gastrointestinais (devido à falta de equilíbrio nutricional dos alimentos), de exposição à radiação UV (com o aumento do buraco do ozono são expectáveis mais problemas dermatológicos e oftálmicos). Vamos ter pessoas afetadas por uma coisa tão simples como o aumento da temperatura e a pouca chuva”, aponta o presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública.

E, uma vez mais, são os mais vulneráveis que estão na linha da frente das preocupações de saúde. “Vamos ter fenómenos extremos mais longos e com maiores temperaturas, portanto, as pessoas mais vulneráveis vão estar muito mais suscetíveis. Vamos perder mais pessoas nesse âmbito, isso é certo”, defende Bernardo Gomes, ressalvando, porém, que "a adaptabilidade do ser humano a diferentes ecossistemas no planeta faz antever que tenhamos um ponto até ao qual nos conseguimos adaptar".

Um problema distante de saúde pública que não pode ser menosprezado

No relatório da ONU Novas Ameaças à Segurança Humano no Antropoceno "espera-se que as mudanças climáticas, a perda de biodiversidade e a insegurança alimentar se intensifiquem, com impactos desiguais entre e dentro dos países”, neste que é o período mais recente na história da Terra, em que as atividades humanas impactam no clima e no funcionamento dos ecossistemas.

Os países mais desenvolvidos não estão livres de ser apanhados pelas consequências do aquecimento global, mesmo que tenham mais recursos, seja de saúde ou económicos, que lhes permitam viver, por exemplo, à sombra do ar condicionado, mas é inegável, na atualidade, que a sua capacidade de adaptação aos efeitos das alterações climáticas "é muito maior" que nos países mais pobres.

“A poluição do ar e as temperaturas mais quentes resultantes das alterações climáticas estão a causar a deterioração da saúde das pessoas através de canais diretos e indiretos. Segundo uma estimativa, as mudanças climáticas antropogénicas contribuíram para 37% das mortes relacionadas com o calor da estação quente entre 1991 e 2018. O maior aumento na vulnerabilidade ao calor durante os últimos 30 anos ocorreu em países com um Índice de Desenvolvimento Humano baixo e médio. A poluição do ar é um fator-chave por trás do excesso de mortalidade e da baixa expectativa de vida, em parte por exacerbar as doenças cardiovasculares”, sublinha a ONU.

As alterações climáticas ameaçam, assim, "desfazer anos de progresso na saúde pública e no desenvolvimento sustentável”, e as respostas de adaptação estão longe de ser adequadas, segundo a ONU. Em Portugal, neste momento, os efeitos atuais não se traduzem em problemas de saúde pública, “mas não estamos assim tão longe”, considera Gustavo Tato Borges.

“Basta recordar como Portugal tem passado os seus invernos e os seus verões. Mais secos, com menos chuva, mais quentes. Estes problemas podem ser uma realidade ainda distante mas não podem ser menosprezados”, insiste.

Estamos, como diz o secretário-geral da ONU, António Guterres, diante de um “paradoxo do desenvolvimento”. “Embora as pessoas vivam, em média, vidas mais longas, mais saudáveis ​​e mais ricas, os avanços não conseguiram aumentar a sensação de segurança das pessoas. Isto vale para países de todo o mundo e estava a consolidar-se antes mesmo da incerteza causada pela pandemia de covid-19.”

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