Alimentos ultraprocessados ligados a mortes por cancro do ovário e outras mortes por cancro

CNN , Sandee LaMotte
4 fev 2023, 11:00
Supermercado

Comer mais alimentos ultraprocessados aumenta o risco de desenvolver e morrer de cancro, especialmente cancro do ovário, de acordo com um novo estudo que envolveu mais de 197.000 pessoas no Reino Unido, a maioria mulheres.

Os alimentos excessivamente processados incluem sopas pré-embaladas, molhos, pizza congelada e refeições prontas a comer, bem como salsichas, batatas fritas, refrigerantes, bolachas, bolos, rebuçados, gelados e muitos mais.

"Os alimentos ultraprocessados são produzidos com ingredientes derivados industrialmente e utilizam frequentemente aditivos alimentares para ajustar a cor, o sabor, a consistência, textura ou prolongar o prazo de validade", disse Kiara Chang, uma das autoras do estudo, investigadora do National Institute for Health and Care Research da Escola de Saúde Pública do Imperial College London, em comunicado.

"Os nossos corpos podem não reagir da mesma forma a estes ingredientes e aditivos ultraprocessados como reagem a alimentos frescos e nutritivos minimamente processados", observou Chang.

Contudo, as pessoas que comem mais alimentos ultraprocessados também tendem a "beber mais bebidas gaseificadas e menos chá e café, bem como menos vegetais e outros alimentos associados a um padrão alimentar saudável", apontou Duane Mellor, nutricionista e professor na Aston Medical School em Birmingham.

"Isto pode significar que pode não ser um efeito específico dos próprios alimentos ultraprocessados, mas sim refletir o impacto de uma menor ingestão de alimentos mais saudáveis", explicou Mellor, que não esteve envolvido no estudo.

Risco aumentou com o consumo

O estudo, publicado na revista eClinicalMedicine, parte da The Lancet, analisou a associação entre a ingestão de alimentos ultraprocessados e 34 tipos diferentes de cancro durante um período de 10 anos.

Os investigadores examinaram informações sobre os hábitos alimentares de 197.426 pessoas que faziam parte do Biobank do Reino Unido, uma grande base de dados biomédica e fonte de pesquisa, entre 2006 e 2010.

A quantidade de alimentos ultraprocessados consumidos por pessoas no estudo variou de um mínimo de 9,1% a um máximo de 41,4% da sua dieta, segundo o estudo.

Os padrões alimentares foram então comparados com os registos médicos que listavam tanto os diagnósticos de cancro como as mortes.

Cada aumento de 10% no consumo de alimentos ultraprocessados foi associado a um aumento de 2% no desenvolvimento de qualquer cancro, e a um aumento de 19% no risco de ser diagnosticado cancro do ovário, de acordo com um comunicado divulgado pelo Imperial College London.

As mortes por cancro também aumentaram, revelou o estudo. Para cada aumento adicional de 10% no consumo de alimentos ultraprocessados, o risco de morrer de qualquer tipo de cancro aumentou 6%, enquanto o risco de morrer de cancro do ovário aumentou 30%.

"Estas associações persistiram após a adaptação a uma série de factores sócio-demográficos, tabagismo, atividade física e principais fatores da dieta alimentar", escreveram os autores.

Quando se trata de morte por cancro entre as mulheres, o cancro do ovário ocupa o quinto lugar, "sendo responsável por mais mortes do que qualquer outro cancro do sistema reprodutivo feminino", observou a American Cancer Society.

"Os resultados acrescentam aos estudos anteriores uma associação entre uma maior proporção de alimentos ultraprocessados na dieta e um risco mais elevado de obesidade, ataques cardíacos, AVC e diabetes tipo 2", disse Simon Steenson, cientista de nutrição da Fundação Britânica para a Nutrição, uma instituição de beneficiência parcialmente apoiada por produtores e fabricantes de alimentos. Steenson não esteve envolvido neste novo estudo.

"Contudo, uma importante limitação desses estudos anteriores e da nova investigação é que os resultados são observacionais e, portanto, não fornecem provas de uma clara ligação causal entre alimentos processados e cancro, ou o risco de outras doenças", sublinhou Steenson.

Recolha de provas

As pessoas que comiam mais alimentos ultraprocessados "eram mais jovens e menos suscetíveis a ter um histórico familiar de cancro", escreveu Chang e os restantes coautores.

Os grandes consumidores de alimentos ultraprocessados eram também menos propensos a fazer atividade física e mais propensos a serem classificados como obesos. Estas pessoas eram também suscetíveis de ter rendimentos familiares e educação mais baixos e viver nas comunidades mais desfavorecidas, segundo o estudo.

"Este estudo aumenta a evidência crescente de que os alimentos ultraprocessados são suscetíveis de ter um impacto negativo na nossa saúde, incluindo o nosso risco de vir a sofrer de cancro", disse Eszter Vamos, principal autor do estudo e professor catedrático no Imperial College London.

Esta última investigação não é a primeira a mostrar uma associação entre uma elevada ingestão de alimentos ultraprocessados e o cancro.

Um estudo de 2022 avaliou as dietas de mais de 200.000 homens e mulheres nos Estados Unidos durante 28 anos e encontrou uma ligação entre alimentos ultraprocessados e cancro colorretal - o terceiro cancro mais diagnosticado nos EUA - nos homens, mas não nas mulheres.

E há "literalmente centenas de estudos que ligam alimentos ultraprocessados à obesidade, cancro, doenças cardiovasculares e mortalidade geral", disse anteriormente à CNN Marion Nestle, professora emérita de nutrição, estudos alimentares e saúde pública da Universidade de Nova Iorque.

Embora o novo estudo realizado no Reino Unido não possa provar a causa, apenas uma associação, "outras provas disponíveis mostram que a redução de alimentos ultraprocessados na nossa dieta pode trazer importantes benefícios à saúde", disse Vamos.

"É necessária mais investigação para confirmar estas descobertas e compreender as melhores estratégias de saúde pública para reduzir a presença generalizada e os danos dos alimentos ultraprocessados na nossa dieta", acrescentou.

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