"Mais um mês sem chover vai ser dramático": como a seca em Portugal afeta não só a agricultura mas também o seu dinheiro e a sua saúde

3 fev, 22:00

Comida mais cara nos supermercados, pastos que não crescem, gado sem alimento, alergénios mais tempo em suspensão e mais problemas de saúde: a falta de chuva está mesmo a afetar o país neste inverno

Há 17 anos que não havia tantas zonas do país em seca grave nesta altura do ano. E, não se prevendo chuva a curto prazo, o país pode estar a caminhar para um ano muito difícil ao nível da disponibilidade de água, admite José Paulo Martins, ambientalista da Associação Zero. "Há locais onde caíram menos de 100 milímetros de chuva desde o início do ano hidrológico, a 1 de outubro." 

Segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), para diminuir ou acabar com a seca seria necessário que no norte e centro do país chovesse mais do que 200 a 250 milímetros e no sul mais de 150 milímetros, mas a possibilidade de que isso se verifique ocorre apenas em 20% dos anos. 

"Vamos esperar que chova", diz José Paulo Martins ao telefone de Beja, onde o impacto da falta de água já é visível, bem como noutras partes do país. "Ainda temos água nas barragens, mas vamos passar para uma fase pior quando as barragens já não tiverem água sequer para fornecer a quem necessita", atalha, acrescentando que a situação em Espanha também não é famosa. "Nós ainda estamos com 75% de capacidade na bacia do Guadiana, mas a grande barragem do Guadiana de Espanha, La Serena, que é uma espécie de Alqueva deles, está com 35%", refere o ambientalista. E atalha: "Se não chover em fevereiro, mais um mês sem chover, vai ser dramático".  

Por agora, os reflexos da falta de chuva fazem-se sentir nos pastos, "que deviam estar a crescer mas não estão", e nas culturas de inverno, nos cereais, explica José Paulo Martins. Depois alastrará para as frutícolas fora das zonas regadas e as zonas regadas terão de ser provavelmente condicionadas à água disponível. "Pode ser um ano mau e nalgumas espécies já se está a notar."

Comida mais cara nos supermercados

Os impactos da seca sentem-se em muitas frentes: ao nível do solo, sem humidade, comprometendo as colheitas de inverno; nas plantas para alimentação do gado; e, naturalmente, no bolso dos agricultores, que são obrigados a regar. Na pecuária exige-se investimento naquilo que, nesta altura do ano, é disponibilizado gratuitamente pela natureza: os pastos que deviam estar a crescer mas não estão. "Já estamos a ver na flora espontânea plantas que não estão a florir, o que se reflete nos insetos e em toda a cadeia alimentar. Temos de ter esta noção global de que todos os ecossistemas são afetados", sublinha o ambientalista José Paulo Martins.

E como é que o nosso dia-a-dia será afetado? "Teremos comida no supermercado na mesma mas pode vir a sentir-se nos preços de algumas produções - se chegar a ter impacto nas frutícolas, por exemplo", esclarece José Paulo Martins. "Nas peras, maçãs, laranjas, a água pode ser um fator de custo numa altura em que os preços já têm subido por outros motivos da economia internacional, nomeadamente ao nível dos transportes", aponta. "Nas zonas que estão a ser regadas a seca é minimizada, mas a parte regada é uma pequena parte do território. E vamos ver também se os incêndios não começam mais cedo, com menos humidade no solo e na vegetação herbácea." 

Ainda assim, o ambientalista deixa uma réstia de esperança: "Em 2017 também estávamos a ficar com uma situação tremida mas em maio e abril fartou-se de chover". Se é provável que isso volte a acontecer? Talvez não. 

Em declarações à TVI/CNN Portugal, Miguel Miranda, presidente do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) admite que as previsões não são boas para as próximas três semanas, com "défice significativo de precipitação, principalmente no norte". 

"Se quiserem um número mágico, diria que temos 20% de probabilidade de recuperarmos uma parte da precipitação e, portanto, repormos o nível hidrológico, repormos albufeiras, o nível freático. Mas temos 80% de probabilidade de não o fazer", admite. 

Miguel Miranda recorda a necessidade de consumir água com moderação, lembrando que são as barragens que irão talvez "aguentar os próximos um ou dois anos". "Temos de ter sempre em lembrança que não controlamos o sistema natural", refere. 

Abastecimento humano não está em causa

O Governo determinou entretanto que fosse suspensa a utilização de água para a produção de eletricidade em várias barragens nacionais, as do Alto Lindoso e Touvedo, no distrito de Viana do Castelo, Cabril (Castelo Branco) e Castelo de Bode (Santarém). A água da barragem de Bravura, no Barlavento algarvio, deixou de poder ser usada para rega. Garantindo que a necessidade de poupança de água ainda não coloca em causa o abastecimento humano, o Executivo admite, porém, a possibilidade de transferir água de barragens com maior disponibilidade, como o Alqueva e outras na bacia do Douro, para aquelas com maior necessidade. 

"Vai sempre haver água para abastecimento", concorda José Paulo Martins. "O abastecimento humano é sempre uma pequena parte, é na agricultura que se gasta mais, mas há uma escala de prioridades", esclarece. O maior problema é do ponto de vista "natural e agrícola, na pecuária, na floresta, na produção florestal". 

O ambientalista da Zero dá o exemplo da cortiça: nos anos de seca, a camada do sobreiro pode crescer menos e adiar a extração da matéria-prima; a produção de bolota, por exemplo, pode ter reflexo no gado que precisa da bolota para comer, no porco preto. Perante os dados da falta de água, também os agricultores estarão já a entrar em plano de contingência e a adaptar as culturas da primavera: "Com este clima, por exemplo, nem vale a pena plantar nada de girassol. Nem aparece". Serão também as associações de regantes a decidir sobre a alteração de culturas, escolhendo outras que gastem menos água ou optando pela diminuição da área a cultivar.

José Paulo Martins recorda-se de, na grande seca de 1995, ver os sobreiros, árvores de folha perene, a perderem a folha. "Estavam despidos, pareciam mortos. Ainda não chegámos a isso, estamos em janeiro, mas com temperaturas de 16, 18 graus. E agora as temperaturas vão continuar a subir", reflete. 

Mais alergias e problemas respiratórios

A diminuição da oferta hídrica é também um problema de saúde. A diminuição da humidade no ar faz com que os alergénios que circulam perdurem mais tempo em suspensão, provocando maior número de reações alérgicas, alerta Gustavo Tato Borges, presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública.

"Há algumas broncoconstrições e problemas respiratórios associados a uma baixa da humidade", refere o especialista: com a chuva, os microorganismos são empurrados para o chão, daí a primavera, normalmente com menos precipitação, "ser uma altura normalíssima para alergias", explica Tato Borges. "Se temos seca há problemas respiratórios que podem aparecer e há um agravamento da sintomatologia respiratória de outras doenças crónicas. Pode até ter ligação com a covid-19, apesar de ainda não termos nada em concreto estudado", relata. 

O presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública admite ainda que a escassez de água permite que haja uma alteração da concentração de "produtos" que estão nas águas e que, em volumes normais, não são problemáticos para a saúde, mas podem ser nocivos em maiores concentrações. É o caso de "alguns metais e sais minerais que não são adequados para nós", diz Tato Borges. E, com temperaturas acima do habitual, também acontecem mergulhos fora de época e o consequente contacto com águas impróprias para consumo. "Pode provocar alterações cutâneas, oculares ou mesmo gastrointestinais", refere.

A possibilidade de a água ter de ser mais tratada, perante a escassez dos recursos hídricos, não será problema, segundo o ambientalista da Zero: "Existe uma monitorização continua dos nossos sistemas de abastecimento", explica José Paulo Martins, sublinhando a necessidade de haver sobretudo um "planeamento atempado" para evitar problemas maiores em consequência da seca.

Para o ambientalista, as alterações climáticas e o aquecimento global obrigam também a manter o foco no longo prazo, para prever o futuro de restrições com base nos dados do passado. "Temos de olhar agora para a tendência, ver o que aconteceu nos últimos 20 anos. E está demonstrado que existe uma tendência para a subida da temperatura e a redução da pluviosidade", conclui.

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