O que os alimentos ultraprocessados podem estar a fazer aos seus músculos sem que dê por isso

CNN , Sandee LaMotte
4 jun, 22:00
Ressonância magnética mostra as coxas de uma mulher cuja dieta era constituída em 87% por alimentos ultraprocessados.
Fonte: Radiological Society of North America
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

Quem consome mais destes alimentos pode acumular gordura no interior dos músculos, uma alteração associada a fraqueza muscular e problemas de saúde

A imagem parece mostrar uma fatia de carne com abundantes veios de gordura, semelhante a um bife de qualidade superior. Mas não se trata de comida. É uma ressonância magnética da coxa de uma mulher de 62 anos que obtinha 87% das calorias consumidas ao longo de um ano a partir de alimentos ultraprocessados.

"A alimentação desta participante era composta sobretudo por cereais de pequeno-almoço, chocolates e barras de chocolate, refrigerantes e outras bebidas açucaradas engarrafadas", explica Zehra Akkaya, investigadora e consultora do grupo de Investigação Clínica e Translacional em Imagiologia Musculoesquelética da Universidade da Califórnia, em São Francisco.

As camadas de gordura ocultas entre as fibras musculares e no seu interior podem ser um sinal de problemas de saúde graves, explica Akkaya, autora principal de um estudo que analisou o impacto dos alimentos ultraprocessados na gordura intramuscular de pessoas em risco de desenvolver osteoartrite do joelho.

Os alimentos ultraprocessados têm sido associados ao aumento de peso e à obesidade, bem como ao desenvolvimento de doenças crónicas, incluindo cancro, doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e depressão. Alguns estudos sugerem ainda que o seu consumo pode estar associado a uma menor esperança de vida.

Mais de 50% das calorias consumidas pelos adultos nos Estados Unidos provém de alimentos ultraprocessados, segundo os Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Entre as crianças, essa proporção sobe para 62%.

Uma mulher de 61 anos incluída no estudo também apresentava infiltração de gordura nos músculos da coxa, embora menos acentuada. Neste caso, cerca de 29% da alimentação anual era composta por alimentos ultraprocessados.

"Foi particularmente preocupante porque estes participantes - avaliados numa fase em que ainda não apresentavam sinais de osteoartrite do joelho - já revelavam uma deterioração da qualidade muscular", explica Akkaya.

O problema da gordura que não se vê

As células de gordura enfraquecem os músculos ao funcionarem como uma barreira ao seu desenvolvimento, impedindo que as fibras musculares se regenerem adequadamente. A fraqueza muscular é um dos principais fatores associados à osteoartrite do joelho, a forma mais comum de doença articular, que afeta cerca de 375 milhões de pessoas em todo o mundo. Durante muito tempo considerada uma doença associada ao envelhecimento, a osteoartrite do joelho está a surgir cada vez mais cedo. Um estudo concluiu que mais de metade dos novos casos ocorre em pessoas com menos de 55 anos, uma tendência que poderá estar relacionada com o aumento acentuado da obesidade a nível global.

“Os músculos da coxa são essenciais para a estabilidade da articulação do joelho, e qualquer perda de força ou de tónus muscular pode aumentar o stress mecânico sobre a articulação - sobretudo em pessoas com obesidade, nas quais o excesso de peso agrava essa sobrecarga”, explica Akkaya. “O nosso grupo de investigação, bem como outros, já demonstrou uma forte associação entre a força, a qualidade e a função muscular e o desenvolvimento da osteoartrite do joelho.”

A deteção de gordura intramuscular na coxa indica que outros músculos do corpo também estão afetados, afirma Miriam Bredella, radiologista e diretora do Instituto de Ciência Clínica e Translacional da NYU Langone Health.

"Trata-se de um processo sistémico, por isso não acontece apenas na coxa. Se observarmos outros músculos - os gémeos, os ombros ou os músculos abdominais - veremos um padrão semelhante", diz Bredella, que não participou no estudo.

Ter uma menor qualidade muscular devido à infiltração de gordura significa que os músculos não têm a mesma força - e isso é um indicador de futuros problemas de saúde, acrescenta.

"Se estiver internado, a fraqueza muscular aumenta o tempo de permanência no hospital. Se for submetido a uma cirurgia, é um fator associado a piores resultados", aponta Bredella. "Realizámos vários estudos com doentes oncológicos. A fraqueza muscular está associada a um maior risco de complicações cirúrgicas e de recidiva dos tumores. É algo claramente negativo."

Qual é o papel dos ultraprocessados?

O estudo, publicado na revista científica Radiology, analisou exames de ressonância magnética de 615 participantes da Iniciativa para a Osteoartrite (Osteoarthritis Initiative), um estudo de âmbito nacional criado para investigar formas de prevenir e tratar a osteoartrite do joelho. Nenhum dos participantes apresentava sinais da doença. Em média, tinham 60 anos e um índice de massa corporal (IMC) de 27.

No cálculo do IMC, valores entre 25 e 29,9 correspondem a excesso de peso; entre 30 e 34,9, a obesidade; entre 35 e 39,9, a obesidade de grau II; e valores iguais ou superiores a 40 são classificados como obesidade grave ou obesidade de grau III.

A mulher de 61 anos cuja dieta era composta por 29,5% de alimentos ultraprocessados (A na imagem abaixo) apresentava um IMC ligeiramente superior, de 32,6, e um nível de atividade física muito mais baixo do que a mulher (B na imagem), com um IMC de 31,8, cuja dieta era composta por 87,1% de alimentos ultraprocessados. Ainda assim, a participante com maior consumo de ultraprocessados apresentava uma infiltração de gordura significativamente mais acentuada nos músculos das coxas.

A dieta da mulher à esquerda incluía 29,5% de alimentos ultraprocessados, enquanto a da mulher à direita incluía 87,1%.  Fonte: Radiological Society of North America
A dieta da mulher à esquerda incluía 29,5% de alimentos ultraprocessados, enquanto a da mulher à direita incluía 87,1%. (Radiological Society of North America)

A ingestão calórica não pareceu ter influência nos resultados, segundo Thomas Link, autor sénior do estudo, professor e diretor da divisão de radiologia musculoesquelética do Departamento de Radiologia e Imagiologia Biomédica da Universidade da Califórnia, em São Francisco.

"Verificámos que, quanto maior era o consumo de alimentos ultraprocessados, maior era a quantidade de gordura intramuscular presente nos músculos da coxa, independentemente da ingestão calórica", explica.

Embora o estudo não tenha conseguido demonstrar que os alimentos ultraprocessados causam diretamente a infiltração de gordura nos músculos, "a associação observada foi forte", afirma Bredella. "O que não sabemos é durante quanto tempo é necessário consumir alimentos ultraprocessados para que isto aconteça aos músculos. E se uma pessoa deixar simplesmente de os consumir, será que o problema desaparece?"

"O que sabemos é que, quando existe infiltração de gordura nos músculos, a prática de exercício físico e uma alimentação saudável podem melhorar significativamente a qualidade muscular", acrescenta. "É muito mais fácil em pessoas jovens do que em pessoas mais velhas, mas é possível."

Menos gordura, mais músculo: o que recomendam os especialistas

Link desaconselha a prática de desportos com bola, como basquetebol ou ténis. "Não recomendamos exercícios de elevado impacto, porque podem danificar a articulação do joelho. Os exercícios de baixo impacto são a melhor opção", aponta.

Os especialistas recomendam exercícios que trabalhem os músculos que envolvem o joelho - quadríceps, isquiotibiais, glúteos e gémeos -, como agachamentos isométricos na parede (posição de cadeira na parede), subidas para uma plataforma (step-up), elevações da perna em pé, exercícios para os músculos da parte interna da coxa e elevações dos calcanhares.

"Num dos nossos estudos verificámos que o treino em máquina elíptica é muito benéfico, talvez até mais do que outros exercícios de baixo impacto. E, claro, o treino de força com pesos também é muito útil", afirma Link.

No que diz respeito à alimentação, o ideal é optar por refeições equilibradas preparadas em casa com alimentos pouco processados, diz Bredella.

"Os músculos precisam de uma quantidade adequada de proteína, mas a solução não passa por recorrer a barras proteicas e suplementos ultraprocessados", explica. "Muitas destas barras proteicas estão carregadas de açúcar e não são verdadeiramente saudáveis, ao contrário do que a publicidade e os rótulos podem fazer crer."

Para reduzir ainda mais o consumo de alimentos ultraprocessados, siga estas recomendações:

1. Leia e compare os rótulos dos produtos e procure alternativas menos processadas. Por exemplo, troque os iogurtes aromatizados por iogurte natural ao qual pode adicionar fruta.

2. O que acrescenta à alimentação é tão importante como aquilo que retira. Dê prioridade a alimentos como cereais integrais, legumes, feijão e outras leguminosas, bem como fruta fresca, congelada ou enlatada em água.

3. Tenha atenção às bebidas que consome. As bebidas açucaradas não têm valor nutricional. Substitua-as por água.

4. Quando comer fora de casa, prefira restaurantes e cafés locais em vez de cadeias de fast food. Os estabelecimentos locais têm menor probabilidade de servir alimentos ultraprocessados.

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Vida Saudável

Mais Vida Saudável