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"Quando se decide fazer um filme fora do sistema, sabemos que há consequências": para o realizador iraniano Ali Asgari o cinema e o humor são atos políticos

2 mai, 09:00
Realizador iraniano Ali Asgari (Lusa/ Estela Silva)

 

 

 

 

 

Ali Asgari decidiu não aceitar as regras do regime iraniano. Não pede autorização para fazer os seus filmes, filma e exibe-os clandestinamente. E é essa luta contra o absurdo da censura e da burocracia que mostra no seu mais recente filme, "Divina Comédia", em exibição em Portugal. O realizador saiu do Irão pouco depois de os ataques americanos terem começado, mas quer voltar - e espera que a guerra termine entretanto. "As pessoas estão a perder a vida, a perder a família, os empregos", conta em entrevista à CNN Portugal


Quando os ataques americanos começaram, Ali Asgari sentiu medo. "Foi assustador", diz. O realizador iraniano, que tem 43 anos, lembra-se ainda dos tempos da guerra com o Iraque, mas confessa que o que sentiu agora foi muito pior. "Nunca pensei que pudesse ficar assim tão assustado com as bombas a explodir. Não era só eu, muitas pessoas estavam mesmo assustadas e foi tão triste ver todas essas pessoas com medo e a morrer", conta à CNN Portugal. Asgari saiu do país dez dias depois do início da guerra, através da fronteira com a Turquia, porque tinha trabalhos fora do Irão, mas quer voltar. E tem esperança que a guerra termine rapidamente. "Espero que em breve os iranianos possam saborear a paz e a felicidade."

A situação no Irão "agora está um pouco melhor, por causa do cessar-fogo, mas ainda existe esse medo de a guerra recomeçar. Tudo está em grande suspense. Muitas coisas estão paradas devido à guerra, a economia está praticamente paralisada e a inflação está a subir cada vez mais todos os dias. Estes são todos os efeitos colaterais da guerra. Espero que tudo isto acabe em breve", diz o realizador, explicando que as dificuldades no país se adensaram ao último ano - primeiro, com os ataques israelitas, depois com a crise económica e os protestos que foram violentamente reprimidos e, por fim, com a guerra com os EUA. "Acho que tudo o que está a acontecer está realmente a afetar a vida das pessoas. Aqueles que estão no poder estão apenas a fazer o seu trabalho, mas as pessoas estão a perder a vida, a perder a família, os empregos. Tem sido um ano realmente difícil para os iranianos. A Internet está praticamente desligada há dois meses. Há duas semanas ou mais que não consigo contactar nenhum membro da minha família. Estas são, na verdade, as dificuldades básicas que os iranianos enfrentam. Acho que não merecemos ser tratados assim."

Asgari explica que entre a população "existem pontos de vista diferentes" sobre os ataques dos Estados Unidos: "Algumas pessoas até acham que é bom, pois acreditam que estão a bombardear as forças armadas do Irão e os líderes do país, e, por isso, acham que estão a livrar-se deles; ao mesmo tempo, há outras pessoas que não estão contentes com a guerra, estão desanimadas e com medo. Mas é realmente confuso, porque as pessoas não sabem como reagir, não sabem se devem estar felizes ou tristes." A incerteza, neste momento, é grande. Irá o regime resistir ou ser derrubado? "Não sabemos exatamente qual será o resultado da guerra. Tudo depende dos acordos que se fizerem. Mas acho que, em qualquer caso, eles [os dirigentes] têm de ser mais moderados, têm de respeitar mais as pessoas", defende.

Uma cena de "Divina Comédia", o filme de Ali Asgari que tem como protagonista um realizador a tentar contornar as restrições da censura no Irão (DR)

Para já, Ali Asgari está na Europa a promover o seu mais recente filme, "Divina Comédia", que esta semana se estreou em Portugal mas que nunca foi exibido no Irão. 

"Divine Comedy", uma coprodução entre Irão, Itália, França, Alemanha e Turquia, estreou-se no ano passado na secção Horizontes do Festival de Veneza. A personagem principal é Bahram, um cineasta a fazer tudo para que o seu filme seja exibido. A lei no Irão diz que, para ser mostrado a mais de cinco espectadores, um filme precisa de obter uma licença das autoridades. Mas Bahram recusa-se a fazer qualquer corte ou alteração ao filme e o regime considera-o "insolente". A solução é mostrar o filme, mesmo sem autorização do Ministério da Cultura, numa sessão ilegal, num cinema ou, em último caso, em casa de alguém. 

Ali Asgari explica que se inspirou na sua própria realidade. "Os meus filmes normalmente não são exibidos nos cinemas do Irão. Tenho tentado sempre encontrar uma forma de os exibir lá e de ver como os iranianos reagem aos meus  filmes, tentei exibir os filmes em locais muito pequenos, como as casas de alguns amigos. E nessas sessões tive algumas reações realmente boas e, por vezes, muito engraçadas. Então senti que podia fazer um filme a partir disso", conta.

"Alguém pode pedir-nos para cortar uma cena só porque não gosta, o absurdo começa aí"

"Não aceitar a censura é uma luta. As minhas imagens são exatamente o que eu queria, e isso é uma luta", diz a certa altura o protagonista do filme. Bahram e o seu irmão gémeo no filme, Bahman, são os irmãos Bahram e Bahman Ark na vida real - ambos realizadores e pertencentes à minoria azeri. É por isso que Ali Asgari diz que aquela personagem não é só um alter ego seu, ele representa todos os realizadores independentes do Irão. "A ideia inicial para fazer este filme foi minha, mas, depois, pedi ao Bahram para atuar no filme, já que ele é cineasta e tem as suas experiências pessoais com o sistema de censura; além disso, como a sua língua materna é outra e ele tem lutado constantemente para realizar na sua língua materna, achei que, ao misturar as experiências que eu tive, que ele teve e que o meu coargumentista, Ali Reza Khatami, teve, poderia falar de uma figura mais ampla, como se não se tratasse apenas de uma pessoa, que sou eu, mas de mais cineastas independentes do Irão", explica. 

O regime iraniano impõe várias restrições aos cineastas, "como a forma de representar o governo, a forma de representar o país no que diz respeito à religião e à política, e também não se pode falar muito sobre sexualidade", mas o principal problema, afirma Ali Asgari, é que depois há uma série de regras que não estão escritas em lado nenhum. "Estas são algumas linhas vermelhas, mas, para além disso, há muitas coisas que são subjetivas, que não se sabe exatamente como são, porque há comissões em que alguns dos membros nem sequer são especialistas em cinema, e estão ali sentados a ler o guião e a dizer que isto é bom ou isto não é bom, e é daí que vem o absurdo, porque, basicamente, fazer um filme é algo realmente subjetivo. Alguém pode pedir-nos para cortar uma cena só porque não gosta, o absurdo começa aí, e isso torna-se estúpido. Portanto, não há regras, e foi por isso que decidi não aceitar essas regras."

A certa altura do filme, o cineasta Bahram diz: “Quero mostrar o filme para me tornar humano”. Ali Asgari explica que falar de humanidade é, no fundo, falar de dignidade. "Na nossa vida, aceitamos muitas coisas que, por vezes, nos humilham. Perdemos a nossa dignidade ao aceitar certas coisas. E, neste caso, Bahram quer encontrar a salvação ao exibir este filme, porque quer dizer 'não' a um sistema maior, ao poder maior, é uma pessoa que se opõe às regras que o moldam ou censuram a sua personalidade, as suas ideias. Se ele aceitar as regras, aceita o sistema de censura e perde a sua dignidade."

"Quando se decide fazer um filme fora do sistema, sabemos que há consequências"

Tal como a sua personagem, Ali Asgari não faz concessões à censura: "Não pedi licença [para filmar], por isso o filme ficou exatamente como eu queria. Mas a questão é que, para fazer um filme que esteja fora do sistema, temos de fazer concessões noutros aspetos. Estamos sempre a tentar reduzir muitas coisas, como o orçamento, os membros da equipa. E temos de ter cuidado com os perigos que, por vezes, podem surgir. Portanto, fazemos concessões em relação a uma coisa para obter outra."

Apesar de todos os estratagemas que usaram para filmar e de toda as pressões a que os cineastas estão sujeitos, Asgari não quer fazer-se de vítima. "Não diria que ser realizador no Irão seja uma profissão perigosa. Hoje em dia no Irão há muitas coisas a acontecer e as pessoas estão a passar por muitas dificuldades. Muitas pessoas estão a lutar arduamente para obter os seus direitos e estão a fazer coisas muito mais perigosas. Por isso, não considero que seja um trabalho perigoso, mas é um trabalho problemático, posso dizê-lo."

Em 2023, Asgari estreou em Cannes "Terrestrial Verses", uma sátira ao regime iraniano, que acompanha pessoas comuns de todas as classes sociais enquanto lidam com as restrições culturais, religiosas e institucionais que lhes são impostas por várias autoridades. Quando regressou ao país, ficou proibido de viajar durante oito meses e teve os seus pertences pessoais confiscados durante semanas. "Acredito que tudo isso faz parte do trabalho", considera. "Quando se decide fazer um filme fora do sistema, sabemos que há algumas consequências. Eles têm as suas próprias ideias, eu não as aceito. Há alguns conflitos, mas tenho de encontrar sempre uma maneira de fazer o que acredito ser a coisa certa."

Apesar de tudo o realizador nunca pensou "em sair do Irão de vez". "Quero fazer mais filmes no Irão e viver lá. E tenho a minha família lá, a minha mãe e os meus amigos, tudo está lá. Por isso, prefiro ficar lá." Ali Asgari espera voltar ao Irão daqui a menos de dois meses. "Espero que nessa altura já não haja guerra. A guerra é o nosso maior problema agora."

Barhram e Sadaf percorrem Teerão em diversas negociações para tentar exibir o seu filme (DR)

Falar de assuntos sérios com humor é "um ato de resistência, um ato político"

No filme, Bahram está sempre a negociar - com a censura, com a burocracia, com os distribuidores, sobre a língua, sobre as cenas, sobre tudo. "Negociar é algo que fazemos normalmente, constantemente", admite Ali Asgari. "É por isso que surgem sempre muitos diálogos absurdos. O que mostrei no filme é algo que eu, pessoalmente, e alguns outros amigos, vivemos. Mas não é 100% a realidade, a base é real mas é a minha interpretação. Ao mesmo tempo, tento fazer humor a partir disso para mostrar um pouco mais o absurdo do que está a acontecer. "

Em constantes negociações, Bahram anda pela cidade na lambreta cor-de-rosa da sua namorada e produtora, uma mulher que se recusa a usar o hijabe a cobrir os seus rebeldes cabelos azuis (interpretada por Sadaf Asgar, ela própria uma atriz proibida de fazer filmes no Irão). É impossível não nos lembrarmos imediatamente de Nanni Moretti, que tantas vezes traz as suas angústias de realizador para os seus filmes, ou até mesmo de Woody Allen. O filme retrata a realidade da vida no Irão e a pressão do governo sobre os artistas, mas usando a comédia. Ali Asgari recusa colocar-se no papel de vítima, optando por ironizar toda a situação. "A história da censura era algo de que sempre se falava nos filmes iranianos e noutras formas de arte que vêm do Irão, eu queria ter um ponto de vista diferente e foi por isso que escolhi contá-la de uma forma mais cómica e brincar um pouco para gozar com essa censura", explica.

"Com o humor é possível falar sobre estes assuntos tão sérios de uma forma mais subtil. Assim, o perigo é menor, e também o público comum consegue identificar-se com o que se está a tentar dizer", justifica Ali Asgari. "Essa é a razão pela qual acho que o humor se torna um instrumento realmente bom para expressar o que se quer dizer e, ao mesmo tempo, ser um ato de resistência nosso, um ato político. Quando se goza com as coisas que se acredita serem sérias, então elas deixam de ser tão poderosas, está-se a diminuir a sua importância."

Ali Asgari é um otimista e mantém a esperança de que, o que quer que aconteça, a situação no seu país vai melhorar. "Se não tivermos esperança, a vida não tem qualquer significado", diz. "Se não houver esperança, somos apenas um cadáver, alguém que se move sem qualquer razão. A vida exige sempre muitas lutas, é uma mistura entre estar feliz e estar triste. Acho que agora não é um bom momento, mas tenho a certeza de que um dia, muito em breve, a felicidade e a paz chegarão."

Bahram e Sadaf, os protagonistas de "Divida Comédia", de Ali Asgari (DR)
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