Alfie Whiteman, antigo guarda-redes do Tottenham, abandonou o futebol após uma crise de identidade e encontrou na fotografia uma nova forma de expressão. Os autorretratos que começou a tirar durante um empréstimo na Suécia deram origem à exposição "A Loan", em Londres
Sozinho numa lavandaria sueca, Alfie Whiteman colocou um temporizador de 10 segundos na sua câmara e ponderou o que fazer a seguir.
Durante grande parte da sua vida como jogador profissional de futebol, houve sempre alguém a tomar decisões por ele - o que comer, onde ir e o que vestir. Agora, sozinho em circunstâncias desconhecidas, cabia-lhe decidir enquanto o temporizador fazia a contagem decrescente.
Com a pressão a aumentar, Whiteman optou pela coisa mais aleatória que conseguiu imaginar. Então despiu-se e entrou parcialmente dentro de uma máquina de lavar, à espera que a câmara disparasse.
Mas o que na altura pareceu um ato totalmente aleatório, na verdade refletia um sentimento mais amplo de libertação para alguém na casa dos 20 anos que se tinha cansado da sua gaiola dourada.
O resultado da fotografia acendeu uma faísca criativa em Whiteman e marcou o início de uma jornada que acabaria por levá-lo a abandonar o seu próprio sonho de infância aos 26 anos.
Desde então, a fotografia passou a fazer parte de um portefólio que está agora exposto numa nova exposição em Londres, na OOF Gallery - um conjunto de trabalhos intitulado "A Loan", que reflete a monotonia que Whiteman sentia ao viver a vida de atleta profissional.
Alcançar um sonho
Para compreender a história de Whiteman, é preciso recuar à sua infância, quando crescia à sombra de White Hart Lane - o antigo estádio do clube inglês da Premier League Tottenham Hotspur.
Como tantas crianças da sua idade, Whiteman era obcecado pelo "Beautiful Game", e revelou-se muito talentoso. Entrou no Tottenham aos nove anos e foi subindo nos escalões como um dos melhores guarda-redes da sua geração no país.
Acabou por se tornar profissional, atuando como guarda-redes suplente da equipa principal do Tottenham, jogando raramente, mas treinando todos os dias com algumas das maiores estrelas do futebol mundial.
Mas, mesmo enquanto vivia o seu sonho de infância, Whiteman enfrentava uma "crise constante de identidade", nunca se sentindo verdadeiramente um jogador de futebol.
Whiteman reconhece que sempre foi um pouco diferente dos colegas de equipa. Enquanto outros gastavam dinheiro em carros de luxo, ele preferia ir a pé desde casa ou usar transportes públicos para os jogos.
Como raramente jogava, conseguia viver com relativo anonimato.
Também ouvia música diferente, influenciado pelo gosto do pai por jazz. Via filmes de autor e lembra-se de ter sido exposto ao mundo da arte pelos pais desde pequeno. Mas, depois de se destacar no futebol, esses interesses ficaram por explorar.
Na altura, o futebol não era um ambiente acolhedor para hobbies alternativos ou qualquer coisa que pudesse ser vista como uma distração.
Whiteman ri-se ao recordar colegas e treinadores que o chamavam de "hippie" pelos seus gostos. Nos primeiros tempos, essas atitudes levaram-no a reprimir um pouco essa parte da sua personalidade.
Isso deixou nele um desconforto que o acompanhou no final da adolescência, incapaz de afastar a sensação persistente de que havia mais na vida do que o futebol.
"Fui eu que me coloquei nesta prisão", afirmou em declarações à CNN, a partir de um café perto do seu novo estúdio em Londres.
"Sentia que estava a perder coisas. Não tinha amigos nessa altura, sabes, ainda não tinha encontrado as minhas pessoas."
A cabana de madeira
As coisas começaram a mudar durante um período de empréstimo fora do Tottenham - uma transferência temporária para outro clube.
Foi uma mudança motivada pela frustração, com poucas oportunidades na equipa principal. Assim, à procura de algo diferente, aceitou a oportunidade de assinar pelo clube sueco Degerfors IF em 2021. A mudança tirou-o da zona de conforto e permitiu-lhe finalmente jogar com regularidade numa liga desconhecida para si.
E, embora tenha gostado da experiência, não conseguiu afastar o sentimento de querer uma vida diferente.
Após uma primeira passagem de seis meses, Whiteman regressou a Londres, mas as coisas tornaram-se ainda mais instáveis. Um novo treinador no Tottenham dificultava qualquer progressão, e o fim de uma relação, aliado ao mundo pós-Covid, intensificou o seu descontentamento.
À procura de escapar, voltou para a Suécia, desta vez para uma temporada completa no Degerfors.
"Tinha um ano para, sabes, encontrar-me, todos esses clichés", conta, rindo-se ao recordar o seu pensamento na altura.
"Estava a tentar simplificar a minha vida, afastar-me da vida na cidade e também lidar com alguma infelicidade e tentar perceber tudo."
Durante a primeira estadia na Escandinávia, Whiteman passou algum tempo numa pequena cabana de madeira alugada na floresta. Não tinha os luxos que muitos jogadores procuram, mas era suficientemente isolada para lhe dar espaço para refletir sobre a sua vida. Na segunda passagem, tornou-se um refúgio ainda mais importante.
A vida na cabana simplificou tudo. Passava horas sozinho, sem distrações, apenas com livros, podcasts e música. No entanto, as dúvidas sobre a sua identidade continuavam presentes.
Muitas noites eram passadas sozinho junto ao lago, onde jantava em silêncio enquanto observava o pôr do sol a partir do cais.
Foi também nessa altura que começou a integrar-se em novos círculos, criando ligações nos mundos criativos da arte, moda e cinema. Essas relações tornavam o tempo passado a jogar futebol ainda mais vazio.
"Um dia, estava sentado no cais e ia começar a chover, uma tempestade mesmo forte", recorda.
"As ondas batiam e pensei: ‘Meu Deus, isto é tão triste. Isto daria uma fotografia tão triste.’
"Por isso, da próxima vez que fui, levei o tripé e fiz um autorretrato. Depois fui para o meu apartamento, para a lavandaria, e fiz aqueles retratos estranhos. Era só eu. Não fazia ideia do que fazer.
"Durante todo o tempo que lá estive, acabei por tirar mais de 600 autorretratos. Tornou-se essencialmente uma forma de criar algo. Nunca pensei mostrar isto a ninguém, era quase como um diário fotográfico para mim."
Só agora, ao olhar para essas imagens, Whiteman consegue compreender o que sentia. Foram os primeiros passos para perceber a sua nova vida, retratos de uma "insatisfação juvenil".
Confrontar a verdade
Depois do empréstimo, Whiteman regressou a Londres para continuar a treinar com o Tottenham. Sem conseguir afirmar-se na equipa principal, o sentimento de estagnação manteve-se. Sentia que a sua vida no futebol o estava a afastar do que realmente queria fazer.
Em 2023, assinou uma extensão de dois anos, tendo dificuldade em abdicar de uma vida confortável que muitos sonham - e que ele próprio sonhou um dia.
Mais tarde, durante uma pré-época em que tinha impressionado, sofreu uma lesão grave que o afastou durante meses. O tempo de recuperação permitiu-lhe revisitar as fotografias da Suécia, que impressionaram os amigos a quem as mostrou.
Quando voltou a estar apto, sentia-se motivado para ser ele próprio. Deixou de se preocupar com o que o mundo do futebol pensava e começou a explorar a representação e a música.
Ainda existia uma insegurança - a de que as oportunidades surgiam apenas por causa do Tottenham - mas o processo já estava em andamento.
Foi por isso que, em 2025, o guarda-redes decidiu retirar-se aos 26 anos, recusando uma transferência para outro clube inglês e iniciando uma nova vida como realizador e fotógrafo na Somesuch.
Durante os 17 anos no Tottenham, fez apenas uma aparição pela equipa principal, mas terminou a carreira com uma medalha europeia, fazendo parte do plantel que venceu a Liga Europa na época passada.
"A vida é curta, mas foi uma decisão assustadora", afirma. "Tenho contas para pagar e estava a entrar no desconhecido."
Um futuro criativo
Whiteman considera que os meses desde que deixou o futebol foram os melhores da sua vida. Apesar de agora procurar poupar mais, está a desfrutar da liberdade total para fazer o que quiser e de conhecer pessoas com interesses semelhantes.
Com a ajuda de terapia, também reinterpretou a sua carreira. Em vez de a ver como tempo perdido, reconhece a "beleza colateral" que lhe trouxe.
"Deu-me tanto e tenho muita sorte", afirma. "Quem sou hoje foi moldado por essas experiências."
Desde que anunciou a exposição, o Tottenham ajudou a promovê-la, com a galeria situada ao lado do estádio. Para além dos autorretratos, irá apresentar textos de diário e um ensaio sobre a sua jornada.
Algo que espera ser apenas o início de muitos projetos criativos.
"Esse sentimento de estagnação desapareceu completamente", conta.
"Só quero continuar a explorar. Não há limites para o que quero fazer. Trata-se de aproveitar o caminho, e é isso que tenho feito. É bastante surreal."