"As crianças merecem deixar de viver num mundo em que o descanso é quase um pecado"

21 dez 2025, 08:00
Alexandre Coimbra Amaral

ENTREVISTA || Alexandre Coimbra Amaral, o psicólogo que anda a desarmar mitos e a devolver humanidade a quem sofre de ansiedade, apela a que abrandemos, que nos escutemos e que nos abracemos. Numa conversa à CNN Portugal, explica por que razão a ansiedade não deve ser encarada como um inimigo, mas antes escutada e porque é que esse gesto de ternura para connosco pode mudar muito à nossa volta

A ansiedade tornou-se a epidemia silenciosa do nosso tempo, alimentada pela urgência permanente, pela lógica da produtividade e pela crença tóxica de que fragilidade é sinónimo de fraqueza. Durante décadas, aprendemos a tratá-la como uma falha, um sinal de descontrolo ou um inimigo interno a ser silenciado.

No livro "Toda a ansiedade merece um abraço", o psicólogo brasileiro Alexandre Coimbra Amaral propõe um caminho diferente: abandonar a guerra interna e acolher aquilo que sentimos. Fala de uma sociedade que acelera mais do que o corpo consegue acompanhar, das emoções que contagiam as famílias e da importância vital de relações seguras.

Numa conversa por escrito com a CNN Portugal, Alexandre Coimbra Amaral desmonta preconceitos e aponta um gesto simples, mas transformador, como ponto de partida: o abraço, literal ou metafórico, a nós próprios.

No livro "Toda a Ansiedade Merece um Abraço", Alexandre Coimbra do Amaral desmistifica mitos acerca da ansiedade. (Divulgação)

 

O título do livro é muito acolhedor: “Toda a ansiedade merece um abraço.” O que significa, para si, “abraçar” a ansiedade?

Quando escolhi este título, o que queria era provocar uma inversão radical na forma como costumamos lidar com aquilo que nos desconcerta. Nós aprendemos culturalmente a tentar “vencer” a ansiedade, a escondê-la como se fosse um sinal de falha. Ou então a tratá-la como uma inimiga interna, que precisa ser calada a todo o custo.

Sou um questionador franco da ideia de lutar contra um sintoma, porque toda a história do campo da Psicologia, Psicanálise e Psiquiatria nos mostra que os sintomas nos ensinam, nos transformam e nos amadurecem também. Extirpá-los numa luta é considerar que eles só nos trazem malefícios. Há muito a aprender quando se troca a luta por um abraço.

Vou explicar isso melhor: quando digo que “toda a ansiedade merece um abraço”, estou a dizer o que a ansiedade é, antes de mais nada, uma mensagem do corpo. Uma espécie de pedido de atenção. E quando alguém pede atenção com desespero, o que funciona não é enfrentamento, mas sim acolhimento. Imagine que está com uma criança ao colo, assustada, com medo de alguma coisa que a transtorna naquele exato momento. Se você gritar com ela, só vai piorar o seu estado emocional. Se você a acolhe, ela pode voltar a respirar um pouco melhor. Abraçar, aqui, não é romantizar a ansiedade, nem dizer que é agradável sentir aquilo que aperta o peito. Não é isso. Abraçar é tirar a ansiedade do lugar da vergonha e colocá-la no lugar da humanidade. É tratar essa emoção com a mesma delicadeza com que tratamos alguém de quem gostamos quando está em sofrimento.

Abraçar a ansiedade significa reconhecer: “isto aqui faz parte de mim, não é uma invasora, é algo que preciso escutar”. E esse movimento muda tudo, porque, quando deixamos de travar uma guerra interna, a ansiedade deixa de ser um monstro e volta a ser o que sempre foi. A ansiedade é um sinal, um pedido de cuidado, uma forma do corpo nos dizer que algo na nossa vida precisa de pausa, de reorganização, de companhia. É uma forma de nos dizer “abrace-me mais”, qualquer que seja a forma como a pessoa deseja ser abraçada.

Que mito sobre a ansiedade sente que ainda domina a sociedade e que o seu livro pretende desconstruir?

O mito mais cruel da sociedade contemporânea é a lógica da performance. Isso é um problema crónico e crescente, lamentavelmente. E tomou conta do nosso cotidiano de forma contumaz. A performance, como mito, traz como consequência a ideia de que sentir ansiedade é sinónimo de fraqueza, de descontrolo, uma espécie de falha moral. Como se uma pessoa ansiosa estivesse a falhar numa prova invisível da ‘adultez’.

Esse mito transforma sofrimento em vergonha. E vergonha é uma segunda dor, muito mais silenciosa e muito mais corrosiva. Quando alguém sente ansiedade e, ao mesmo tempo, sente que não deveria sentir aquilo, a pessoa vive duas batalhas, a da emoção indesejada e a da culpa por a sentir.

O meu livro tenta desconstruir este mito, mostrando que a ansiedade é uma emoção básica da vida humana, tão inevitável quanto o medo, a alegria ou a tristeza. A diferença é que vivemos numa cultura que valoriza apenas emoções ‘ditas positivas’ (o que chamamos de positividade tóxica) e rejeita qualquer expressão que revele vulnerabilidade.

Desejo vivamente que as pessoas compreendam que sentir ansiedade não diminui ninguém. O que realmente nos faz sofrer não é a ansiedade em si, mas a solidão e o julgamento que se instalam em torno da pessoa que sofre. Se tirarmos a ansiedade desse quartinho escuro onde a cultura a colocou, ela perde algum do seu peso e recuperamos alguma da nossa dignidade emocional.

Quando é como nos tornámos estes seres ansiosos e apressados, que parecem viver sempre no futuro?

Há várias respostas possíveis para essa pergunta, mas todas convergem para uma mesma origem: a velocidade tornou-se a língua oficial do nosso tempo. Nas últimas décadas, fomos sendo moldados por uma lógica que coloca a produtividade no lugar do valor humano. Tudo está acelerado demais, de repente transformámo-nos no Coelho da Alice, que diz ‘tenho pressa, tenho pressa, tenho pressa!...’.

A tecnologia tornou-se mais rápida e nós fomos acompanhando a noção de ‘otimização do tempo’ como um ganho absoluto. E isso deixou um fundamento de que deveríamos acompanhar o ritmo que cada nova tecnologia nos entrega. Hoje, vivemos como se o presente fosse sempre insuficiente. O presente tornou-se apenas uma ponte para ‘o que ainda falta fazer’. E esta sensação permanente de insuficiência gera ansiedade, porque a ansiedade é justamente a incapacidade de permanecer num presente que parece não bastar.

Além disso, vivemos num mundo hiperconectado. As notificações, os e-mails e a urgência fabricada pelas redes sociais criaram a sensação de que tudo é imediato, urgente e indispensável. Para o nosso sistema emocional, isto é devastador. É como se vivêssemos numa neblina. E essa imagem aparece no livro porque é exatamente assim que muitos descrevem a ansiedade: um estado em que não vemos bem o caminho, mas somos pressionados a acelerar mesmo assim. O resultado é um corpo permanentemente em alerta, uma mente permanentemente num futuro que ainda não existe e o presente continuamente atropelado pela sensação de que nunca estamos a tempo.

E como é que conseguimos ouvir o corpo num mundo tão acelerado, quase em piloto automático?

Ouvir o corpo tornou-se um ato contracultura. Não porque seja complicado, mas porque exige tempo e o tempo tornou-se o bem mais caro do nosso século. Para ouvir o corpo, a primeira coisa é recuperar o direito de abrandar. Não estou a defender que nos mudemos todos para o campo para meditar três meses consecutivos. Defendo pequenas interrupções no fluxo automático da vida: cuidar do tempo de ligação aos ecrãs e aos algoritmos, respirar fundo antes de responder a uma mensagem, permitir um minuto de silêncio quando chegamos em casa e descansar de verdade, fazendo o corpo entrar em modo avião. Essas cenas, que podem parecer detalhes, são imensas lufadas de ar fresco para o corpo e para a alma, num mundo tão ansiogénico.

Outra forma de ouvir o corpo é prestar atenção aos sinais que ele nos dá. O corpo nunca nos deixa sem avisos. O imenso problema é que fomos ensinados a ignorá-los e homens precisam ler esta frase com mais cuidado ainda. Quando sentimos aperto no peito, irritação sem causa aparente, cansaço que não passa, dificuldades de concentração, insónia… nada disso é aleatório. É uma linguagem somática.

E há algo essencial que quero destacar aqui. Ouvir o corpo é mais fácil quando temos companhia segura. Muitas pessoas só conseguem sentir o próprio corpo quando alguém lhes oferece uma presença não julgadora. Às vezes, basta contar a alguém o que estamos a viver, para que o corpo diga aquilo que estava calado.

O aumento da ansiedade diz mais sobre nós ou sobre a sociedade que construímos?

Diz muito mais sobre a sociedade. Claro que cada pessoa sente a ansiedade à sua maneira, mas o contexto em que vivemos amplifica e multiplica aquilo que já estava ali.

Vivemos numa sociedade que troca descanso por produtividade, que confunde valor com desempenho, que trata o corpo como um recurso e não como um lugar digno de cuidado. A ansiedade aumentou porque a vida tornou-se quase impossível de acompanhar. Não fomos feitos para este ritmo, para esta intensidade de estímulos, para esta falta de comunidade, para esta solidão instalada mesmo nas casas cheias.

Dizemos que as pessoas estão mais ansiosas, mas arriscaria dizer outra coisa: as pessoas estão mais expostas a condições sociais que produzem ansiedade. Portanto, parece-me irresponsável nomear o problema como individual. É um problema estrutural do funcionamento de uma cultura inteira, que precisa reencontrar a humanidade que perdeu pelo caminho. A manifestação dessa dor coletiva aparece em cada um dos nossos corpos, mas a real é que ela nasce nas ruas. Todo corpo ansioso é também um corpo social, refletindo os desvãos da nossa forma de vida contemporânea.

Que herança estamos a deixar aos nossos filhos com a vida que levamos?

A infância é um campo de contágio emocional. As crianças aprendem não apenas o que dizemos, mas sobretudo como vivemos. E se vivemos sempre apressados, sempre tensos, sempre ‘a correr contra o tempo’, elas aprendem que este é o único modo possível de existência, ainda que sintam que isso as adoece. A herança que lhes estamos a deixar, sem querer, é a da urgência permanente.

Precisamos retomar as pausas. A infância é feita de pausas e contemplação entre as brincadeiras, a escola e as conversas com as pessoas queridas. As crianças merecem deixar de viver nesse mundo em que o descanso é quase um pecado e a presença é substituída pela eficiência.

Mas há também espaço para outra herança: a do cuidado, a do afeto devagar, a do elogio que não depende de performance, a do adulto que diz ‘hoje eu não estou bem e, com isso, ensina a vulnerabilidade, a do adulto que se desculpa quando falha e, com isso, ensina responsabilidade afetiva.

Diz que a ansiedade é contagiosa, mas não perigosa. Como se contagia a família e como quebrar esse ciclo de perigosidade?

A ansiedade é contagiosa porque é comunicada pelo corpo. Uma voz mais rápida, uma respiração curta, uma irritação que surge sem explicação chega aos outros como se fosse uma onda. E nas famílias, especialmente entre pais e filhos, essa onda circula com muita rapidez. Mas ser contagiosa não significa ser perigosa. Significa apenas que as emoções se propagam, tal como se propagam os bocejos.

Somos seres profundamente relacionais. Para quebrar o ciclo, não precisamos de eliminar a ansiedade, até porque isso é impossível. Precisamos de criar um ambiente onde as emoções possam ser expressas sem julgamento. Quando um adulto diz a uma criança: ‘Eu estou preocupado, mas estou aqui contigo’, essa frase interrompe a cadeia. Quando uma esposa diz ao seu marido: ‘Eu estou ansiosa, mas quero conversar sobre isso’, o ciclo enfraquece. A ansiedade só se torna perigosa quando é silenciada. Quando é reconhecida, nomeada e partilhada, ela perde poder e abre espaço para o encontro.

As relações influenciam a ansiedade? Como?

Influenciam profundamente, porque são o lugar onde a nossa ansiedade se acende e também o lugar onde ela se acalma. Afinal, grande parte do que nos angustia tem a ver com ameaças ao vínculo. Estou a falar do medo de falhar ou dececionar, por exemplo. Ou do medo de ser abandonado, medo de não ser suficiente. Esses medos são fantasmas que vão e vêm.

Quando vivemos relações rápidas, rasas, pouco acolhedoras, sentimos que estamos sempre numa corda bamba. Mas quando construímos relações lentas, profundas e com espaço para a falha, o corpo entende que está em segurança. E a segurança emocional diminui a ansiedade. O nosso sistema nervoso é profundamente relacional, já sabemos disso e regula-se na presença do outro. Por isso, relações curativas são um dos maiores antídotos contra a ansiedade, enquanto as tóxicas são um dos seus maiores gatilhos.

Porque é tão difícil mostrarmo-nos vulneráveis, mesmo a quem amamos?

Porque crescemos dentro de culturas que associam vulnerabilidade a fraqueza e ao risco iminente de humilhação. Porque muitos de nós carregam memórias de momentos em que mostraram o coração e não foram acolhidos adequadamente. Mostrar vulnerabilidade é um ato de enorme coragem. Nessa hora, entregamos ao outro a nossa parte mais sensível, confiando que ele não nos vai ferir. Só que essa confiança não é automática, intuitiva apenas, ela pode precisar de muito tempo para ser construída entre duas pessoas.

Além disso, vivemos num tempo que idolatra a ideia de ‘equilíbrio’ como se fosse uma identidade fixa. As pessoas sentem que precisam de se mostrar resolvidas, centradas, produtivas, organizadas, mesmo quando por dentro estão desorganizadas.

Mostrar vulnerabilidade é quebrar esse ideal estúpido de performance, embora não haja nenhuma garantia de nada e estejamos sempre expostos à possibilidade de rejeição. Acontece que é também nesse lugar de exposição que os encontros verdadeiros acontecem. Só existe intimidade onde existe risco partilhado.

Há algo que famílias e casais podem começar a fazer hoje mesmo para viver com menos ansiedade relacional?

Sim, e não passa por grandes revoluções. Passa por pequenos rituais emocionais. Uma família ou um casal pode começar por criar momentos curtos, porém frequentes, de conversa aberta. Não estou a falar de conversas longas ou profundas todos os dias, mas de práticas simples como perguntar ‘como te sentes?’ e realmente esperar pela resposta. Validar o que o outro sente, mesmo que não se compreenda completamente. Admitir ‘não sei’ ou ‘não estou bem’, sobretudo as figuras de poder. Desligar dispositivos por breves momentos para estar presente. Criar micro-rituais de cuidado, como preparar um chá ou mandar uma mensagem carinhosa.

A ansiedade relacional diminui quando cada pessoa sente que pode relaxar, ser ela mesma sem medo. E isso dá-se na soma dos pequenos gestos e não nas grandes conversas.

Que “abraço” gostaria que cada leitor encontrasse em si mesmo ao terminar este livro?

Gostaria que cada leitor encontrasse o abraço da legitimidade. O abraço que diz ‘eu posso sentir o que sinto sem me envergonhar’, que devolve humanidade à experiência ansiosa.

Isso tem acontecido no Brasil, o livro já está na 11ª edição. Quero que cada pessoa que termine este livro em Portugal consiga respirar um pouco melhor e dizer a si mesma ‘eu não sou um erro porque sinto ansiedade’. Se o livro conseguir devolver às pessoas um olhar mais terno sobre si mesmas, então já terá cumprido aquilo que nasceu para ser.

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