Era uma pergunta que o médico Gideon Lack fazia com frequência, ao dar palestras para colegas alergologistas e pediatras sobre o tema das alergias alimentares: quantos médicos na sala tinham um doente alérgico a amendoins?
Normalmente, “praticamente todos os médicos levantariam a mão”, diz Lack. A alergia aos amendoins é uma das alergias alimentares mais comuns, afetando mais de 2% das crianças nos Estados Unidos, com prevalência semelhante no Reino Unido, onde Lack exercia a sua profissão.
Mas numa palestra em Telavive, Israel, há cerca de 25 anos, a resposta do público surpreendeu Lack. Apenas dois ou três dos cerca de 200 médicos presentes levantaram a mão.
“Eu disse: ‘esperem, isto não faz sentido’”, recordou recentemente. “Eu estava a exercer em Londres, que tem uma grande comunidade judaica, e observava uma alta frequência de alergia aos amendoins entre crianças judias que compartilham uma origem ancestral semelhante.”
As investigações de Lack e dos seus colegas sobre o porquê, que se desenrolaram ao longo dos 15 anos seguintes, levaram a uma descoberta notável no mês passado: a de que a incidência de alergias a amendoim nos EUA – após um aumento vertiginoso – parecia ter caído drasticamente.
Descobriu-se que a orientação que pais e pediatras – e o próprio Lack – tinham vindo a seguir, para evitar dar amendoim a bebés e crianças pequenas na tentativa de prevenir o desenvolvimento de alergias perigosas, estava completamente equivocada.
"Ao pensarmos que os estávamos a proteger, na verdade estávamos a causar o problema", explica Lack à CNN.
A história de como ele e os seus colegas provaram que esse era o caso é uma introdução ao processo científico.
‘Mãe, pai, bamba’
Existe uma piada em Israel de que as três primeiras palavras que os bebés aprendem são "mãe", "pai" e "bamba", diz Lack – em referência aos salgadinhos de amendoim que os pais israelitas dão aos seus bebés quando estes são bem pequenos.
"Eles meio que se tornaram um lanche nacional", adianta, apontando que a piada é, na verdade, "uma verdade absoluta".
Ao conversar com médicos e pais de crianças pequenas, "todos me disseram uma coisa muito clara: 'damos salgadinhos de amendoim aos nossos bebés com entre 4 e 6 meses de idade'."
Os bambas contêm "grandes quantidades de proteína de amendoim", explica Lack. E ele passou a suspeitar que, “por acaso... esse produto foi desenvolvido em Israel e protegeu a população israelita".
Essa foi, contudo, uma observação, algo que ele aprendeu numa palestra, enfatiza Lack. "Isto não prova nada." Será que outras diferenças que as crianças israelitas vivenciam – clima, sol, exposição à vitamina D – poderiam ter contribuído para tal?
Para responder à pergunta, Lack e uma equipa de colegas decidiram estudar o assunto. Eles analisaram cerca de 5.000 crianças em idade escolar em Israel e 5.000 crianças judias em idade escolar em Londres que compartilhavam uma origem ancestral semelhante – para controlar as diferenças genéticas – e compararam as suas taxas de alergia a amendoins.
“No Reino Unido era dez vezes maior”: quase 2% das crianças, aponta Lack, enquanto em Israel “praticamente não existia”.
Ao examinar a dieta das crianças, inclusive em que altura o amendoim foi introduzido no primeiro ano de vida, revelou-se uma diferença óbvia: os bebés do Reino Unido consumiam, em média, zero gramas de amendoim por semana. Os bebés israelitas consumiam cerca de 2 gramas – o equivalente, na forma de bambas, a cerca de 10 amendoins por semana.
“As crianças comiam isto com muito gosto”, observa Lack – é um “lanche muito popular”.
Contudo, “na época em que sugeri esta hipótese, era praticamente impossível conseguir financiamento”, adianta. Ele e sua equipa recorreram ao Conselho Nacional do Amendoim, o grupo que representa os produtores de amendoim americanos. O estudo, diz, foi criticado por quem o financiou, mas isso não teve influência no resultado, enfatiza Lack.
"A ideia de comer amendoim era considerada absurda, [diziam] que estaríamos a colocar os bebés em risco e a causar alergia a amendoins com base no pensamento antigo que tínhamos, que seria até mesmo antiético", recorda.
Os resultados sugeriram o contrário. Mas o trabalho estava apenas a começar.
Um ensaio de sete anos
O que Lack e seus colegas demonstraram com aquele estudo, publicado no Journal of Allergy and Clinical Immunology em 2008, foi uma associação entre o consumo de amendoim no início da infância e uma menor probabilidade de desenvolver alergia a amendoins.
O que eles queriam provar era que a introdução precoce de amendoim era a causa dessas taxas reduzidas de alergia.
Para isso, era preciso que realizassem um ensaio clínico randomizado e controlado, no qual separariam aleatoriamente os participantes – neste caso, bebés com eczema grave, alergia a ovo ou ambos, o que os colocava em maior risco de alergia a amendoins – em dois grupos. Um grupo foi orientado a consumir alimentos com amendoim – como os salgadinhos de amendoim bambas – a partir dos 4 e até aos 11 meses de idade, e o outro foi instruído a evitá-los até completar 5 anos.
Desta vez, Lack e os seus colegas receberam financiamento dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, especificamente do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, que Lack classifica como “paciente e generoso”. Não foi um resultado da noite para o dia. Segundo Lack, foram necessários dois anos para recrutar os 640 bebés para o estudo, que foram acompanhados ao longo de cinco anos.
Os resultados foram impressionantes. Das 530 crianças que não apresentavam sensibilidade ao amendoim inicialmente, 13,7% desenvolveram alergia ao amendoim até aos 5 anos de idade se evitassem o alimento. No grupo que consumiu amendoins desde antes de 1 ano de idade, 1,9% desenvolveram alergia. Entre as crianças que já apresentavam sinais de sensibilidade, 35,3% das que evitaram o amendoim desenvolveram a alergia, contra 10,6% daquelas que o consumiram.
"Eu esperava algum efeito, mas não esperava uma redução de mais de 80%", diz Lack.
Quando os bioestatísticos lhe telefonaram e ao seu colega George Du Toit com os resultados, "brindámos a boa notícia com uísque e amendoim torrado", lembra. As descobertas do estudo, chamado LEAP, foram publicadas em 2015 no New England Journal of Medicine.
Os ziguezagues da medicina
Não estava claro, porém, se a mensagem teria repercussão entre pais e pediatras – se eles seriam capazes de mudar de rumo e fazer o oposto do que lhes havia sido dito durante tanto tempo.
Diretrizes haviam sido publicadas em 2000 pela Academia Americana de Pediatria e, embora sejam frequentemente descritas hoje sem nuances, estavam longe de ser definitivas.
“Ainda não estão disponíveis estudos conclusivos para permitir recomendações definitivas”, escreveu o Comité de Nutrição da academia num documento sobre fórmulas infantis hipoalergénicas. Para bebés com alto risco de desenvolver alergias, continuou o comité, “as seguintes recomendações parecem razoáveis neste momento” – incluindo adiar a introdução de laticínios até 1 ano de idade, de ovos até aos 2 anos e de amendoim, nozes e peixe até os 3 anos.
O próprio Lack seguiu a orientação de evitar esses alimentos com os seus próprios filhos, o que, é claro, “em retrospetiva foi o conselho errado”.
Mas, enfatiza, o processo científico de comprovação é a maneira como a medicina deve funcionar.
“A história da medicina é uma série de ziguezagues”, aponta. “Não é uma progressão linear e perfeita, e as pessoas esquecem-se disso.”
Em 2008, a Academia Americana de Pediatria retirou a sua diretriz que dizia que potenciais alérgenos devem ser evitados para bebés de alto risco, ainda que não tivesse dados suficientes para recomendar a sua introdução precoce.
Após a publicação do estudo LEAP em 2015, a diretriz foi atualizada no que os investigadores consideram hoje ter sido um marco histórico, e as recomendações foram ampliadas em 2017 e 2021.
Um estudo publicado no mês passado no periódico Pediatrics descobriu que as taxas de alergia a amendoim entre crianças americanas com até 3 anos de idade diminuíram 33% após a recomendação de 2015 e caíram 43% após 2017 – e a alergia a amendoins passou de mais prevalente para a segunda mais prevalente, atrás da alergia a ovos.
O líder do estudo, o médico David Hill, do Hospital Infantil da Filadélfia, observa que essas reduções, extrapoladas para o número de crianças americanas com menos de 3 anos, sugerem que quase 40.000 crianças podem ter evitado diagnósticos de alergia a amendoim desde que as diretrizes foram alteradas.
O próximo desafio
O trabalho de Lack continua. Atualmente, ele co-lidera outro estudo financiado pelo NIH, chamado estudo SEAL, que busca testar outra questão que antes parecia contraditória: o tratamento precoce do eczema na vida do bebé poderia prevenir o desenvolvimento de alergias alimentares?
"Durante anos, pensávamos que as alergias alimentares causavam eczema", diz Lack. "Agora sabemos que é o contrário."
A ideia é conhecida como hipótese da dupla exposição, e Hill observa que ela é suportada por décadas de investigação, incluindo o estudo LEAP.
"A exposição precoce às proteínas alimentares através do intestino promove a tolerância, ensinando ao sistema imunológico que esses alimentos são seguros", explica à CNN. "Em contraste, a exposição através da pele inflamada ou lesionada – como frequentemente ocorre em bebés com eczema – pode sensibilizar o sistema imunológico e aumentar a probabilidade de desenvolver alergia alimentar."
Os bebés podem entrar em contacto com proteínas alimentares através da pele se tiverem eczema apenas pelo facto de os seus pais consumirem esses alimentos, adianta Lack.
Ele formula a hipótese de outra maneira: “Se eu batesse na porta da sua casa e pedisse informações, você provavelmente cumprimentar-me-ia de forma educada. Mas se eu arrombasse uma das suas janelas, você provavelmente cumprimentar-me-ia de uma maneira diferente.”
O estudo SEAL visa tratar a pele seca, vermelha e descamada nas primeiras 12 semanas de vida, antes que os bebés desenvolvam alergias, usando hidratantes e esteroides tópicos, e dando aos bebés mais tempo para serem expostos aos alimentos, comendo-os. O objetivo: verificar se isso ajuda a reduzir a probabilidade de desenvolverem alergias alimentares.
Se estiverem certos, isso poderá mudar a medicina novamente.