A cidade alemã com uma incrível via-férrea suspensa

CNN , Marcel Krueger
21 mai, 23:00

Eram o futuro, mas a realidade nunca se concretizou e hoje a Alemanha e Japão são os únicos países do mundo com comboios que não circulam nos tradicionais carris

Hoje em dia, as vias-férreas suspensas parecem um anacronismo - uma visão datada do século 19 sobre como seria o futuro dos comboios. Assim sendo, obviamente que, em 2022, estaríamos todos a deslocar-nos para o trabalho em vias-férreas invertidas!

Ao contrário dos caminhos de ferro tradicionais e aborrecidos, que estão sempre fixos a terra firme, as vias-férreas suspensas estão penduradas sob carris suspensos em pilares. As suas carruagens passam por cima de estradas, rios e outros obstáculos, enquanto os passageiros aproveitam a vista.

Ironicamente, a ideia nunca pegou, apesar de alguns projetos bem-sucedidos - embora de curta duração - como o Braniff Jetrail Fastpark System, que durante quatro anos transportou passageiros do estacionamento ao terminal em Dallas Love Field, antes de o aeroporto fechar em 1974.

Hoje, os únicos caminhos de ferro suspensos em funcionamento estão no Japão e na Alemanha. E é na Alemanha que o original - e ainda o melhor - pode ser encontrado a trabalhar em pleno em toda a sua glória - o Wuppertal Schwebebahn.

Tudo começou na década de 1880, no rescaldo da chamada era Gründerzeit da Alemanha imperial de rápida expansão industrial. O empresário e engenheiro Eugen Langen andava a fazer experiências com uma via-férrea suspensa para movimentar mercadorias na sua fábrica de açúcar em Colónia.

Enquanto isso, a cidade vizinha de Wuppertal tinha um problema. Uma florescente indústria têxtil local viu a área crescer de um pequeno número de casas ao longo do rio Wupper para uma expansão urbana de 40 000 habitantes que agora precisavam de se deslocar.

Como o longo e sinuoso vale do rio impossibilitava os tradicionais comboios ou elétricos, as autoridades municipais pediram propostas para resolver o problema - e eis que surge Langen.

Em 1893, ele ofereceu o seu sistema de via-férrea suspensa à cidade, que aproveitou a oferta. A construção começou em 1898 e a linha foi inaugurada em 1901, com o imperador Guilherme II a fazer uma viagem de teste com a esposa Auguste Viktoria.

Danos de guerra

Foram usadas quase 20 000 toneladas de aço para construir os carris elevados que serpenteiam pela cidade. As suas 20 belas estações art nouveau complementavam os interiores em vidro e madeira das carruagens que podiam transportar 65 pessoas cada.

Em 1903, a rede foi alargada para o seu comprimento final de 13,3 quilómetros, com as viagens a começar e a acabar em ramais ligados às estações Vohwinkel e Oberbarmen.

A nova via-férrea foi um sucesso entre os habitantes. Nos anos que se seguiram, o comprimento dos comboios foi aumentado de duas para seis carruagens, circulando a cada cinco minutos.

A via-férrea suspensa de Wuppertal consegue contornar obstáculos como estradas e hidrovias.

O número de passageiros diminuiu durante a Primeira Guerra Mundial, quando muitos dos trabalhadores de Wuppertal cumpriam serviço nos exércitos do Kaiser, mas, em 1925, a rede já tinha transportado 20 milhões de passageiros por cima do calmo rio Wupper.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a rede foi gravemente danificada pelas bombas aliadas dos intensos ataques aéreos a Wuppertal, em maio e junho de 1943, e novamente em janeiro de 1945. Mas, na Páscoa de 1946, menos de um ano após o fim dos combates na Europa, toda a rota já estava operacional.

Para Rosemarie Weingarten, que nasceu no distrito de Barmen, em Wuppertal, em 1933, a Schwebebahn continua a ser o marco cultural da cidade graças à sua resistência.

“Acho que não existe um símbolo mais icónico a representar Wuppertal e Barmen do que a Schwebebahn. Sempre a conheci ali e tenho orgulho de que ainda esteja a funcionar”, disse ela à CNN.

O elefante na carruagem

Há uma estátua de Tuffi no local onde ele caiu.

Em 1950, a Schwebebahn recebeu o seu mais famoso passageiro até hoje, ainda mais famoso do que o Kaiser: o elefante Tuffi.

O Circo Althoff estava na cidade e organizou uma viagem promocional para o jovem paquiderme, que, na altura, era uma pequena celebridade na Alemanha Ocidental. Normalmente, Tuffi não tinha medo quando estava perto das pessoas, portanto, o dono do circo, Franz Althoff, usava-o frequentemente para promover o espetáculo.

O elefante já tinha andado de elétrico, já tinha bebido de uma fonte de água benta, já tinha entregado grades de cerveja a trabalhadores da construção e, de uma forma menos heroica, já tinha comido um ramo de flores e urinado num tapete persa.

No início, a viagem do elefante na Schwebebahn parecia estar a correr muito bem. O elefante embarcou na estação Wuppertal-Barmen (onde Althoff teve de comprar quatro bilhetes para Tuffi e um para ele).

Mas a carruagem estava cheia de jornalistas e representantes, portanto, quando Tuffi se tentou virar, passados alguns minutos, não conseguiu e entrou em pânico. Primeiro, pisou uma fila de cadeiras e, depois, saltou por uma janela para o rio, dez metros abaixo.

Naquele local, o rio tinha apenas 50 centímetros de profundidade, mas o chão estava lamacento e Tuffi sofreu apenas alguns arranhões. Ao que parece, Althoff queria saltar atrás do elefante, mas continuou até à estação seguinte de onde correu para trás em busca do elefante atordoado e o levou de volta ao circo.

Uma estátua feita de basalto, criada em 2020 pelo artista Bernd Bergkemper, está no local exato onde Tuffi caiu, em 1950.

Uma viagem ao passado

Hoje em dia, a Schwebebahn, com o seu balançar suave, já não transporta elefantes, mas ainda é usada como comboio suburbano, transportando uns surpreendentes 25 milhões de passageiros anualmente, antes da Covid.

Infelizmente, quase todas as gloriosas carruagens originais desapareceram, e até as icónicas carruagens GTW 72, usadas em 1972 e que funcionaram durante 27 anos, foram substituídas pelas elegantes carruagens azuis da “Geração 15”, que entraram ao serviço em 2016.

Mas apesar das carruagens novas, a Schwebebahn continua a ser popular entre os aficionados.

“O meu fascínio pela Schwebebahn está na maneira como foi construída há mais de 100 anos”, diz o arquiteto Christian Busch, de Colónia. “Concretizar tal projeto sem sistemas computorizados seria impensável, nos dias de hoje.”

“Um passeio na Schwebebahn proporciona ao passageiro uma visão extraordinária da vida dos moradores locais e parece realmente uma atração das feiras de outros tempos.”

A Schwebebahn, para utilizadores que não sejam elefantes, continua a ser uma forma extremamente segura de viajar.

Até 1999, era até considerada o meio de transporte público mais seguro da Alemanha, registando apenas alguns pequenos acidentes nos seus quase 100 anos de funcionamento.

No entanto, em abril de 1999, a Schwebebahn viveu o seu momento mais sombrio: cinco pessoas morreram e 47 ficaram feridas quando um comboio chocou com um gancho de ferro de 100 quilos deixado durante umas obras de construção, e mergulhou no Wupper de uma altura de oito metros.

Desde então, a via-férrea teve alguns altos e baixos, especialmente desde a última atualização, quando em 2018 um cabo de energia de 350 metros caiu na rua e fez parar a Schwebebahn durante quase nove meses, a mais longa interrupção do serviço da sua história.

A via-férrea reabriu em 2019 e tem sido ampla e alegremente usada pelos habitantes de Wuppertal.

Estrela de cinema

A via-férrea transporta 25 milhões de passageiros anualmente.

Tendo em conta a sua incrível história e aparência icónica, não é de admirar que a Schwebebahn tenha inspirado muitas obras de arte e a cultura popular alemã em geral.

Foi mencionada em 1902 no livro de ficção científica “Altneuland” (The Old New Land) do escritor sionista e ativista político Theodor Herzl. Aparece no filme de 1974 do diretor Wim Wenders "Alice in den Städten" (Alice nas Cidades); no drama de 2000 de Tom Tykwer "Der Krieger und die Kaiserin", e novamente num filme de Wenders de 2011, "Pina", celebrando outro ícone de Wuppertal, a coreógrafa Pina Bausch.

O artista inglês nomeado para um Prémio Turner, Darren Almond, criou uma obra cinematográfica em Super 8 intitulada "Schwebebahn" em 1995, e o Museu de Arte Moderna (MOMA) de Nova Iorque tem na sua coleção um filme de dois minutos, de 1902, filmado de uma carruagem da Schwebebahn, com uma vista única da cidade de Wuppertal.

Para moradores e visitantes, a Schwebebahn continua a ser um anacronismo adorado.

“Hoje, por razões estáticas e económicas, o betão é muitas vezes a escolha e caracteriza as nossas infraestruturas”, diz o arquiteto Christian Busch. “Mas as vigas de ferro da Schwebebahn permitem que as carruagens transportem os seus passageiros sem ter de considerar o fluxo cada vez maior de tráfego abaixo, e têm uma aparência fabulosa.”

O Monotrilho Shonan do Japão é considerado o irmão da Schwebebahn.

Enoshima, Japão, 16 de agosto: o Monotrilho Shonan passa por cima de uma estrada a 16 de agosto de 2019, perto de Enoshima, no Japão. Preparada para receber os eventos de vela, Enoshima é uma das várias zonas dentro e ao redor da capital do Japão envolvidas nos Jogos Olímpicos de Tóquio de 2020.

E esse adorado anacronismo ainda pode mostrar o caminho para o futuro. Desde 2018, a Schwebebahn é a via-férrea irmã do Monotrilho Shonan, da cidade japonesa de Kamakura. Partilham as melhores práticas e promovem as vias-férreas suspensas como modos sustentáveis de deslocação.

E, se visitar Wuppertal e quiser sentir-se muito chique, há uma gloriosa carruagem original ainda em serviço, aquela que Guilherme II e Auguste Viktoria usaram em 1900.

Conhecida como Kaiserwagen, ou Carruagem Imperial, pode ser reservada para eventos privados, incluindo casamentos.

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