Porque os novos muros já estão a ser erguidos: muros de desinformação, muros de populismo, muros de apatia democrática. Se a Alemanha não liderar, esses muros tornar-se-ão intransponíveis
Trinta e cinco anos depois da reunificação alemã, a Europa olha para trás com uma memória que ainda emociona: a noite em que o Muro de Berlim ruiu não por decreto nem por tratado, mas pela força de cidadãos que se recusaram a viver mais tempo atrás de arame farpado. A unificação não aconteceu automaticamente, mas sim pelo trabalho de pessoas corajosas que lutaram pela liberdade e pela democracia — e é essa a herança que devemos celebrar.
Em 1989, ninguém acreditava que o império soviético pudesse ceder tão depressa. E, no entanto, foi o grito das multidões em Leipzig e Dresden, foi a coragem de Gorbachev em não ordenar o massacre, foi a decisão política de Helmut Kohl em avançar sem medo que mudaram o curso da história. A unificação alemã não caiu do céu: foi construída passo a passo, contra receios internos, contra resistências externas, contra dúvidas de líderes europeus que viam na Alemanha unida uma potência potencialmente demasiado grande. Mas a coragem venceu, e com ela a Europa ganhou uma nova vida.
Hoje, quando celebramos o trigésimo quinto aniversário, não celebramos apenas a Alemanha. Celebramos a possibilidade de a Europa se reinventar. Foi essa reinvenção que deu ao projeto europeu novo fôlego: a adesão dos países do Leste, a consolidação do euro, a abertura de fronteiras. Foi essa reinvenção que deu a milhões de europeus a experiência concreta da liberdade de circulação, do direito ao voto, da segurança jurídica. A Alemanha foi o motor silencioso dessa transformação, reconstruindo o Leste, tornando possível o impossível.
Mas a história não se repete sem esforço. E, em 2025, a Europa está novamente diante de muros — não de betão, mas de ameaças híbridas, de propaganda, de ciberataques, de desinformação. Vladimir Putin ergueu na Rússia uma fortaleza autocrática que vive da guerra externa e do medo interno. A Ucrânia resiste heroicamente, mas cada hesitação europeia é explorada pelo Kremlin. Moscovo sabe que não tem de derrotar militarmente a NATO para vencer: basta-lhe dividir os europeus, quebrar a confiança na democracia liberal e financiar os extremismos que corroem por dentro as nossas sociedades.
Há, portanto, um paralelo claro entre o Muro de Berlim e os muros invisíveis que hoje se tentam erguer. Se em 1989 a divisão era física, hoje a divisão é psicológica e política. Putin não constrói muros para prender povos, mas para separar consciências: a democracia liberal contra a tentação autoritária, a Europa unida contra a Europa fragmentada. A sua estratégia é simples: enquanto a União Europeia discutir vetos orçamentais, hesitar em apoiar a Ucrânia e vacilar na sua política externa, o tempo trabalhará a favor do Kremlin.
É por isso que a Europa precisa novamente de uma Alemanha que lidere. Liderar não é apenas discursar: é agir com clareza. Na economia, a Alemanha tem de voltar a ser motor e não travão, investindo na reindustrialização verde e digital. Na tecnologia, tem de assumir a dianteira na inteligência artificial, em vez de deixar os Estados Unidos e a China definirem as regras de jogo. Na defesa, tem de abandonar a hesitação estratégica e investir de forma decidida na Bundeswehr, não como força simbólica, mas como garante de segurança coletiva. Na política europeia, tem de recuperar a tradição de Kohl e Merkel: a visão de que a União não sobrevive sem risco, sem coragem, sem decisões que parecem impossíveis no presente mas se revelam necessárias no futuro.
Sem a Alemanha, a Europa não lidera. E sem liderança, a Europa resigna-se. Resignar-se, em 2025, é aceitar que os Estados Unidos de Donald Trump definam o preço da nossa segurança; é aceitar que a China determine os padrões da nossa economia digital; é aceitar que Putin dite as fronteiras da nossa liberdade. Mas a Europa não nasceu para ser espectadora. Nasceu para ser projeto civilizacional.
Celebrar os 35 anos da reunificação é, por isso, mais do que olhar para trás. É lembrar que a história não se faz por inércia, mas por escolhas. Helmut Kohl arriscou quando muitos lhe pediam prudência. Os cidadãos de Leipzig arriscaram quando sabiam que podiam ser presos ou mortos. Essa coragem coletiva transformou a paisagem geopolítica da Europa. Hoje, precisamos da mesma coragem.
Porque os novos muros já estão a ser erguidos: muros de desinformação, muros de populismo, muros de apatia democrática. Se a Alemanha não liderar, esses muros tornar-se-ão intransponíveis. Se a Alemanha assumir a sua responsabilidade, esses muros podem cair — como caiu o de Berlim.
Trinta e cinco anos depois, a unidade alemã continua a ser motivo de celebração. Mas também de reflexão. Se aprendermos com o passado, talvez possamos salvar o futuro. A diversidade europeia é a nossa força, mas só se for guiada por um centro claro. Esse centro, ontem como hoje, chama-se Alemanha.
No fim, o verdadeiro legado da unificação é este: não há impossíveis quando a liberdade se torna prioridade. Cabe agora à Alemanha — e, com ela, à Europa — provar que essa lição não se perdeu.