A maior economia da Europa está a recrutar trabalhadores na Índia para se tentar salvar

CNN Portugal , MCN
23 mar, 16:16
talho na alemanha
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Há uma grave crise demográfica que ameaça paralisar os setores mais tradicionais. Para combater a escassez de mão-de-obra jovem, o país encontrou na Índia um parceiro estratégico

Tudo começou em 2021, com um e-mail da agência indiana Magic Billion. A mensagem, que dava conta da existência de milhares de jovens à procura de formação profissional, questionava Handirk von Ungern-Sternberg, da Câmara de Ofícios de Friburgo, sobre o eventual interesse da instituição em contratar cidadãos indianos.

A Câmara de Ofícios de Friburgo, que representa setores cruciais no sudoeste da Alemanha - incluindo carpinteiros, talhantes e padeiros -, viu naquele contacto uma solução para a carência de mão-de-obra qualificada nas suas empresas associadas. À BBC, Von Ungern-Sternberg recorda que o e-mail chegou num momento crucial: "Tínhamos muitos empregadores desesperados, que não conseguiam encontrar ninguém. Decidimos dar uma oportunidade.", revela.

O setor do talho era, na altura, um dos mais críticos. Devido à dificuldade em recrutar jovens locais, Von Ungern-Sternberg apresentou a proposta aos talhantes da região. O resultado? No outono de 2022, 13 jovens chegaram à Alemanha para aprender o ofício em várias cidades do sudoeste do país.

Passados três anos, o cenário transformou-se. Handirk Von Ungern-Sternberg fundou a sua própria agência, a India Works, em parceria com a Magic Billion, com o objetivo de intensificar este fluxo migratório.

A urgência é sustentada por números que mostram uma Alemanha que atravessa uma grave crise demográfica. De acordo com um estudo da Fundação Bertelsmann, citado pela estação britânica, a economia alemã precisa de atrair 288 mil trabalhadores estrangeiros por ano. Caso contrário, a força de trabalho poderá encolher 10% até 2040. Com a reforma da geração baby boomer, a baixa taxa de natalidade alemã não garante a substituição de quadros.

Contrariamente, a realidade na Índia é de abundância demográfica. "A Índia tem 600 milhões de pessoas abaixo dos 25 anos", explica Aditi Banerjee, da Magic Billion. "Apenas 12 milhões entram no mercado de trabalho anualmente, o que gera um enorme excedente de mão-de-obra."

A India Works prevê encaminhar, ainda este ano, cerca de 800 jovens indianos para o sistema de aprendizagem alemão denominado de Ausbildung. O foco incide em profissões tradicionais como mecânica, construção civil e panificação. 

Este fluxo é facilitado pelo Acordo de Parceria de Migração e Mobilidade de 2022 e pelo recente aumento da quota anual de vistos para trabalhadores qualificados indianos  que passou de 20 mil para 90 mil.

"Temos salários altos aqui"

Para os jovens indianos, a mudança é uma oportunidade de fuga à precariedade. É o caso de Ishu Gariya, de 20 anos, que optou por não seguir o ensino académico por receio de receber um salário baixo na Índia. "Temos salários altos aqui", explica à BBC. Atualmente aprendiz de padeiro numa aldeia alemã, Ishu consegue agora sustentar financeiramente a família que ficou em Deli.

A necessidade de talento estrangeiro estende-se também ao setor público. Diana Stöcker, presidente da câmara de Weil am Rhein e antiga membro do Bundestag, revela a carência de educadores de infância no município. Sem candidatos na Alemanha, a autarquia vai contratar dois trabalhadores indianos. "Temos procurado educadores em todo o país, mas são realmente difíceis de encontrar", confessa a autarca da CDU à estação britânica. "Temos de olhar para o estrangeiro. É a única possibilidade.", acrescenta.

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