Em Munique, o vice de Trump disse que a maior ameaça à Europa "vem de dentro", dos líderes que têm tentado manter a extrema-direita fora dos círculos de poder, e em vez de se encontrar com o chanceler alemão de saída reuniu-se com a líder da AfD. Discurso de JD Vance marcou uma viragem sem retorno na relação da UE com os EUA e foi um grito de alerta para a Alemanha, que vai este domingo às urnas
Há um antes e um depois da Conferência de Segurança de Munique deste ano. Quando JD Vance subiu ao púlpito do evento a 14 de fevereiro para um antecipado discurso, a maioria esperava que o vice-presidente dos Estados Unidos fornecesse mais detalhes sobre as recentes conversas entre o seu patrão, Donald Trump, e o presidente russo, Vladimir Putin, sobre o futuro da Ucrânia – e a maioria ficou chocada quando ouviu Vance declarar: “A ameaça que mais me preocupa em relação à Europa não é a Rússia, não é a China, é [...] a ameaça que vem de dentro.”
“Na melhor das hipóteses, [o discurso] foi totalmente irrelevante para as preocupações de segurança global europeias; na pior das hipóteses, foi uma interferência flagrante na campanha eleitoral a favor da AfD de extrema-direita”, reagiu Carl Bildt, antigo primeiro-ministro da Suécia e atual codiretor do European Council of Foreign Relations, na rede social X.
Para Gideon Rachman, do Financial Times, “se Vance esperava persuadir o público, em vez de simplesmente o insultar, falhou”. No exterior da sala de conferências, no rescaldo do famigerado discurso há uma semana, um reputado político alemão invocou “um ataque direto à democracia europeia”. Outro político alemão desabafou, citado pela Economist: “Parece que [os americanos] estão a tentar apanhar-nos.” Numa conversa com o correspondente do FT em Munique, um diplomata resumiu o estado de espírito generalizado: “É agora muito claro – a Europa está sozinha”; e questionado sobre se considera que os EUA passaram a ser um adversário da União Europeia, o mesmo diplomata respondeu simplesmente “sim”.
A “ameaça que vem de dentro” é, na ótica de Vance, a falta de liberdade de expressão entre europeus e os cordões sanitários que têm sido impostos a partidos extremistas e populistas no velho continente, em particular o facto de os partidos alemães rejeitarem coligações com a Alternativa para a Alemanha (AfD) de Alice Weidel, prestes a tornar-se a segunda força mais votada no país. E o facto de o número dois da administração Trump ter defendido isso mesmo numa das maiores cidades da Alemanha a nove dias das eleições federais – e ter escolhido encontrar-se com a líder da AfD logo a seguir (mas não com o chanceler Olaf Scholz) – é tudo menos uma coincidência.
“No que diz respeito às declarações de JD Vance, isto é basicamente o que se pode esperar da extrema-direita a partir de agora e já vemos isso no (ex)Twitter de Elon Musk a toda a hora, como vemos isso em sucessivas declarações de Trump”, diz à CNN Portugal o analista Julien Hoez, especialista em geopolítica e editor do The French Dispatch. “A realidade que as pessoas têm de aceitar é que os americanos não estão aqui para nos facilitar a vida – estão a resistir, são isolacionistas e têm este estilo revanchista muito estranho que está a definir a evolução do mundo.”
A "verdadeira aliada" dos EUA de Trump
Revanchismo é uma palavra que o próprio Vance poderia ter usado no seu discurso, no qual atirou aos organizadores da conferência por não terem convidado os líderes da AfD e da BSW (respetivamente os partidos de extrema-direita e extrema-esquerda da Alemanha, ambos relativamente próximos da Rússia de Putin). Em grande destaque ficou a ideia do vice de Trump de que, “para muitos do outro lado do Atlântico, parece cada vez mais que velhos interesses entrincheirados se escondem por trás de palavras feias da era soviética como desinformação”, quando os líderes europeus “simplesmente não gostam da ideia de que alguém com um ponto de vista alternativo possa expressar uma opinião diferente ou, Deus nos livre, votar de forma diferente ou, pior ainda, ganhar uma eleição”.
Foi um apelo direto à liderança europeia para que trabalhe com a extrema-direita, num continente onde ainda fervem as feridas abertas pelo regime nazi e num país onde, como destacou uma jornalista americana, "a liberdade de expressão foi instrumentalizada para executar um genocídio" no século passado. Mas sobretudo, foi um apelo ao eleitorado alemão, a nove dias da ida às urnas, com direito a uma indireta à CDU e referências veladas ao ‘brandmauer’, ou ‘barreira de proteção’ – o assunto-tabu da política alemã que Friedrich Merz, o líder dos conservadores e provável vencedor das eleições, quebrou na semana anterior, quando contou com o apoio parlamentar inédito da AfD para aprovar duas moções não-vinculativas sobre migração e segurança nas fronteiras.
“A democracia baseia-se no princípio sagrado de que a voz do povo importa, não há lugar para barreiras de proteção – ou aceitam ou não aceitam esse princípio”, disse Vance sobre o cordão sanitário à AfD de Alice Weidel, um partido tão extremista que está parcialmente sob vigilância estatal, e um que, assim mesmo, deverá conquistar os votos de um quinto dos eleitores alemães no domingo. “Se se candidatam com medo dos vossos próprios eleitores, então não há nada que a América possa fazer por vocês”, acrescentou o vice-presidente americano. “Excelente discurso”, reagiu Weidel na X.
Subindo ao mesmo púlpito horas depois, o ministro alemão da Defesa (que muitos gostariam de ter visto como cabeça-de-lista do SPD) respondeu de improviso. “Tinha preparado um discurso para hoje, mas não vou poder proferi-lo como planeado”, disse Boris Pistorius, classificando como “inaceitável” o facto de Vance ter “comparado as condições que prevalecem na Europa às que prevalecem nos regimes autoritários”, quando na Europa até “pequenos partidos extremistas como a AfD podem fazer campanha como qualquer outro”.
Se há algo que o discurso do braço-direito de Trump deixou bem claro é que “a administração Trump olha para a extrema-direita europeia como a sua verdadeira aliada”, escreve Gideon Rachman. “Ao apelar a que partidos como a AfD sejam bem aceites em governos, Vance está a pedir à Europa que se transforme numa versão mais alargada da Hungria de Viktor Orbán – uma autocracia suave com uma queda pela Rússia de Putin.”
A ideia é secundada por Julien Hoez, que diz que a mensagem encerrada neste discurso é “muito simples” e fácil de resumir. “A velha ordem mundial acabou e estamos numa nova e perigosa ordem, em que os americanos não são nossos amigos – e isso aumenta a pressão sobre a Europa para que se concentre no equipamento que produz e utiliza, no desenvolvimento das suas capacidades, em vez de depender das armas da América ou do gás da Rússia.”
Depender do mercado americano e do gás barato da Rússia traduz, para muitos, o grande erro cometido por Angela Merkel ao longo de quase 20 anos ao leme da Alemanha, um país que, sendo responsável por um quarto da produção da UE, está em recessão há dois anos, com um modelo económico moribundo e o debate público entregue à extrema-direita.
“É surpreendente como se deu pouca atenção nesta campanha à segurança externa e à ameaça da Rússia – em vez disso, a maioria dos partidos centra-se nas migrações, o que ajuda a AfD, que em matéria de segurança externa tem pouco a oferecer”, diz à CNN Portugal o cientista político alemão Etienne Hanelt. “Após a Conferência de Segurança de Munique, é evidente que a ordem securitária na Europa está a mudar rapidamente, e o novo governo alemão terá de desempenhar um papel decisivo na sua reordenação – e, para tal, terá de cooperar estreitamente com a Polónia e outros parceiros da Europa de Leste, com os países nórdicos, com Itália, Reino Unido e França.”
Sinais positivos vs. motivos para dúvidas
Sendo certo que o futuro da UE continua, em larga medida, a depender de uma aliança franco-alemã forte, é menos certo que tipo de liderança vai emergir das eleições alemãs, indiscutivelmente as mais importantes na Europa em décadas. Com a CDU acima dos 30% das intenções de voto, distante dos restantes rivais, é seguro apostar que Friedrich Merz será o próximo chanceler alemão – mas mantêm-se muitas dúvidas sobre a coligação que conseguirá formar e, mais do que isso, sobre o seu perfil enquanto líder da maior potência da UE.
Numa entrevista recente com a Economist, o conservador assumiu algumas posições que a própria revista considerou “tranquilizadoras”, mas também deixou “razões para dúvidas”, nomeadamente no que toca às reformas e pequenas revoluções de que a UE precisa para se posicionar nesta nova ordem mundial. “O sr. Merz parece, se não complacente, demasiado relaxado, demasiado propenso a favorecer o que parece ser uma mudança gradual em vez da mudança radical de que a Alemanha e a Europa precisam”, escrevia a Economist três dias depois da entrevista (um dia antes do discurso de JD Vance em Munique).
“Vejamos um exemplo: ele apoia uma união bancária à escala da UE, essencial para que o mercado único europeu [que defende] possa equiparar-se ao dos Estados Unidos ou da China. Mas, quase no mesmo instante, opõe-se à proposta de aquisição do Commerzbank [o segundo maior banco comercial da Alemanha] pelo italiano UniCredit, porque considera a oferta ‘hostil’, quando estas aquisições são precisamente a forma como um mercado único deve funcionar.”
Talvez mais gritante é o exemplo do travão constitucional à dívida, o grande ponto de discórdia na coligação Scholz e o motivo pelo qual os alemães vão às urnas este domingo e não no final de setembro, como inicialmente previsto. Atrapalhada por isto, a Alemanha não tem podido investir adequadamente nas suas estradas, caminhos-de-ferro, infraestruturas digitais ou na Defesa, com as despesas com educação e outros serviços sociais igualmente afetadas por esses limites ao endividamento. Mas pressionado pela Economist sobre se vai tentar aumentar o teto da dívida, Merz disse apenas que está “aberto a discuti-lo” mas que “não é a [nossa] primeira abordagem”.
“A necessidade de aumentar a despesa com a Defesa significa que as pressões fiscais estão a aumentar, o que será um problema para qualquer futuro governo”, destaca Etienne Hanelt quando questionado sobre o que esperar da próxima chancelaria. “Face aos problemas económicos da Alemanha, o bolo está a diminuir – e um futuro governo terá de proceder a reformas profundas nestes domínios políticos.”
Conseguirá Merz implementar essas reformas? A nível interno, é preciso esperar para ver. E a nível europeu, mesmo com todos os “sinais positivos” que tem enviado, a incógnita também se mantém para já. “Sejamos honestos: Scholz foi um chanceler bastante fraco e Merz parece ser mais combativo, vimos isso nos debates, em que repreendeu Weidel por ser pró-Rússia”, sublinha Julien Hoez. “Ele é muito pró-UE e está a levar a situação a sério, ou pelo menos tem levado na campanha. Mas onde é que isto nos vai levar? Não sabemos.”
O analista invoca as recentes palavras de Mario Draghi, que voltou a pedir à UE que “faça alguma coisa”. “Temos de fazer algo se queremos que algo aconteça, caso contrário vamos continuar a afundar-nos”, ressalta Hoez. “Mas não sei se Merz será um melhor parceiro de Emmanuel Macron, que é quem mais tem lutado por reformas na UE, ou melhor parceiro da Comissão Europeia e do Conselho, de Itália e de outros. O que sei é que não podemos continuar à espera, temos de começar a agir já.”
Num contexto de crescente instabilidade e imprevisibilidade geopolítica, acelerada pela postura de Trump e do seu bando, a Europa está de olhos postos em Berlim e, particularmente, em Merz. A grande questão é se o advogado sem experiência política de maior terá força, ou vontade, de encetar as reformas de que a UE precisa para se fortalecer.
“Temos de encontrar uma forma de nos darmos o poder de ser poderosos. Somos 450 milhões de pessoas, o maior mercado do mundo, sobrevivemos há centenas e centenas de anos e, portanto, porquê depender de um país que tem metade do nosso tamanho?", conclui Julien Hoez. "Temos de reconstruir a nossa indústria e os nossos regulamentos para nos tornarmos a potência geopolítica que podemos ser – mas para isso precisamos de reformar a UE e de ter tratados que nos permitam fazer o que é preciso e não ficar reféns da Hungria de Orbán e da Eslováquia de Fico, que bloqueiam tudo e sabotam os nossos esforços. Se continuarmos à espera, as coisas só vão piorar.”