Merz queria evitar uma nova coligação a três, mas poderá não ter como escapar a isso face aos resultados das legislativas antecipadas de domingo. Anteveem-se semanas difíceis de negociações ainda mais difíceis. “A Europa vai ter de viver sem um novo governo alemão durante algum tempo”
Houve coisas inéditas a marcar as eleições antecipadas de domingo na Alemanha, mas foram poucas as surpresas à medida que os votos eram contabilizados. Como as sondagens antecipavam, a coligação CDU/CSU de Friedrich Merz conquistou um confortável primeiro lugar, a Alternativa para a Alemanha (AfD, extrema-direita) seguiu logo atrás, alcançando o seu melhor resultado de sempre em eleições federais, e os sociais-democratas (SPD) ao leme de Olaf Scholz, o chanceler de saída, sofreram uma queda brutal - obtiveram quase menos 10 ponto percentuais de votos do que nas últimas legislativas, e o seu pior resultado de sempre desde a reunificação da Alemanha em 1990.
“As sondagens de opinião estavam bastante corretas - ao contrário do que aconteceu em muitas das eleições no passado”, diz à CNN o historiador alemão Kiran Klaus Patel, professor na Universidade Ludwig-Maximilians de Munique e membro da Royal Historical Society. “O resultado é muito claro e muito pouco claro: os eleitores estavam claramente descontentes com o desempenho do último governo, e os três partidos que dele faziam parte foram severamente castigados. Mas o resultado também não é claro, [porque] não existe um mandato óbvio para que um novo conjunto de partidos forme um governo de coligação.”
Com o avançar da contagem ao longo da noite de domingo, as atenções foram-se focando mais e mais na Aliança Sahra Wagerknecht (BSW), um partido de extrema-esquerda formado no ano passado por uma dissidente comunista que, em 2024, conquistou alguns ganhos em estados da Alemanha de Leste – e que poderá bem ser o grande decisor do rumo das negociações que Merz vai liderar.
Como explicava à CNN Alberto Cunha, doutorado em Estudos Europeus e professor em duas universidades de Berlim, pelas 22h em Lisboa: “Sendo quase certo que o FDP não entra no Bundestag”, a composição da futura coligação depende quase exclusivamente da BSW. “Desde o fecho das urnas a BSW está nos 4,9% num dos canais alemães e nos 5% no outro canal. Se entrar é por um triz, se não entrar também é por um triz – e, se entrar, então CDU e SPD não têm maioria para governar sozinhos.”
A maior surpresa
Ainda a contagem de votos ia a meio, saltou à vista como mais surpreendente o resultado do Die Linke, A Esquerda dos tempos da RDA que, contra o que se chegou a antecipar, não só ultrapassou como quase dobrou a fasquia mínima de 5% de votos para entrar no Bundestag. A nível federal, alcançaram cerca de 9% dos votos, um valor que sobe para cerca de 25% se se considerar apenas o eleitorado jovem.
“São os reis do TikTok e houve uma questão política em particular a contribuir para este resultado”, destaca Alberto Cunha. O caso remonta há duas semanas, à controversa votação de duas moções sobre migrações e segurança em que a CDU de Merz contou com o apoio da AfD. Com enormes protestos em várias cidades pela preservação da “brandmauer”, ou “barreira de proteção”, contra a extrema-direita, Heidi Reichinnek, um dos rostos do Die Linke e uma “verdadeira estrela do TikTok”, proferiu um discurso que se tornou viral.
“Nesse sentido, este resultado da Esquerda não é uma surpresa total, as sondagens da última semana, depois dessas votações no Bundestag, já lhe apontavam cerca de 8%, mas é uma surpresa se considerarmos que, em dezembro, todos achavam que o partido não ia chegar ao Parlamento federal”, adianta Cunha. “E isso foi tão importante que o líder do Die Linke agradeceu a Merz por ter dado um impulso à campanha.”
“As redes sociais não foram o único fator, mas foram um fator muito importante”, acrescenta Kiran Patel. “Para mais pormenores, teremos de esperar por uma análise detalhada, também sobre os fluxos de eleitores. Mas o facto de o Die Linke estar de volta é, certamente, a maior surpresa destas eleições.”
Die Linke e AfD foram, de resto, os partidos que, em conjunto, terão conquistado uma maioria qualificada do voto jovem, quando anteriormente os jovens tendiam a votar sobretudo n’Os Verdes, destaca Alberto Cunha. Esses, sem surpresas, ficaram em quarto lugar – tendo sido, apesar de tudo, os menos penalizados dos três partidos que compunham a anterior “coligação semáforo” liderada por Scholz.
“Terá havido alguma desilusão com a experiência governativa, os jovens d’Os Verdes são mais idealistas e o facto de o partido ter cedido na parte ecológica ou na questão da Palestina terá afastado alguns deles”, aponta o analista sediado em Berlim. “E também terá havido muita desilusão com o facto de Robert Habeck, o líder do partido, não ter prometido nunca coligar-se com a CDU, dada toda a situação geopolítica, depois daquela semana das votações no Bundestag.”
Os perdedores
Os Verdes de Habeck e o SPD de Scholz foram penalizados, mas o grande castigado – novamente sem surpresas – foi o FDP, o partido liberal de Christian Lindner, que não terá ultrapassado a fasquia dos 5% para eleger deputados federais. Com a contagem de votos a avançar a passos largos, aquele que Scholz despediu do cargo de ministro das Finanças em novembro, abrindo caminho a estas eleições antecipadas, assumiu a derrota ainda antes de estar confirmada.
“É claro que é concebível que o FDP se reposicione completamente em termos políticos e em termos de pessoal a partir de amanhã”, disse no tradicional debate entre todos os cabeças-de-lista no canal público alemão após terem saído os primeiros resultados à boca de urna. “Se o FDP deixar o Bundestag, é evidente que eu também deixarei a política.” Scholz seguiu a deixa e, como prometera ainda durante a campanha, assegurou no mesmo debate: “Não serei representante do SPD num Governo federal liderado pela CDU, nem o negociarei.” Da mesma forma, também Merz aproveitou o momento para deixar garantias ao eleitorado.
“Não entraremos em conversações de coligação com o AfD, dissemos isso antes das eleições e as pessoas que votaram no AfD sabiam-no”, destacou o líder vitorioso da CDU. “Ganhámos estas eleições de forma muito clara... O meu objetivo é construir um governo que represente todo o país e que resolva os problemas do país. Não é segredo para ninguém que eu teria preferido ter apenas um parceiro de coligação.”
Após a experiência falhada da “coligação semáforo”, a primeira tripartida em mais de 60 anos na Alemanha, Merz pode não querer governar com dois parceiros, mas não é certo se terá como evitá-lo. E antecipando as difíceis negociações que tem pela frente, apontou a Páscoa, daqui a quase dois meses, como a altura em que deseja já ter conseguido formar governo.
“No caso de ser necessário um terceiro parceiro, as negociações tornar-se-ão extremamente difíceis e a Páscoa poderá ser mais rápida do que se pensa”, diz Patel. “Durante algum tempo, a Europa vai ter de viver sem um novo governo alemão. E para o SPD, o parceiro mais provável no governo, a adesão à próxima coligação como parceiro minoritário será extremamente difícil de qualquer forma. O resultado é desastroso e não é, de modo algum, evidente que a CDU consiga entrar rapidamente em negociações de coligação.”
E se se vir forçada a negociar também com Os Verdes, aponta Alberto Cunha, o cenário é ainda mais lúgubre, considerando as medidas restritivas anti-imigração prometidas por Merz ao longo da campanha eleitoral. “Esta CDU está mais à direita do que em anos anteriores, o que torna ainda mais difícil uma coligação que integre Os Verdes – que, com A Esquerda, são os mais favoráveis à imigração.”
O novo paradigma
“A maior parte destes acontecimentos era previsível – há muitas novidades, mas muitas delas assentam em tendências mais antigas”, ressalta Kiran Patel, e isso é especialmente verdade quando se olha para o mapa de distribuição de votos nestas eleições – do lado ocidental, uma mancha azul correspondente à CDU, na Alemanha de Leste a cor preta da AfD.
A divisão Leste-Oeste não desapareceu com a queda do muro de Berlim, mas a imagem de uma antiga RDA comunista entregue à extrema-direita não deixa de ser paradigmática, ainda que pouco surpreendente. “A Alemanha de Leste não é simplesmente diferente – em muitos aspetos, está a seguir as tendências que também vemos desenvolver-se na Alemanha Ocidental, só que mais lentamente”, indica o historiador alemão. “Os eleitores são menos fieis aos seus partidos; mudam de voto e tendem a optar pelas opções mais radicais, enquanto os antigos grandes partidos se encontram sob uma pressão cada vez maior.”
A juntar a isso, há as grandes diferenças na distribuição de riqueza que sempre marcaram esta divisão – e que, com o país em recessão económica há dois anos, se tornam mais gritantes, aponta Alberto Cunha. “A Alemanha continua a ser a terceira maior economia do mundo em termos nominais, o que é impressionante dado o tamanho relativamente reduzido do país, mas estamos a entrar no terceiro ano de recessão, algo impensável. E a recessão afeta mais quem já é mais pobre – o Leste – e ainda há os laços económicos que havia com a Rússia e que, com a guerra na Ucrânia, sofreram o rombo que todos sabemos. E qual era a região que mais lucrava com o Nord Stream, por exemplo? O Leste da Alemanha.”
Foi precisamente à Rússia – e a uma administração Trump cada vez mais alinhada com ela – que Friedrich Merz apontou a mira numa espécie de discurso da vitória que, para o Politico, foi de “fazer cair o queixo”, após esse e outros temas de política externa terem desempenhado um papel menor ao longo da campanha eleitoral.
Na véspera de se marcarem os três anos da invasão em larga escala da Ucrânia, dias depois de ter sugerido que é altura de explorar a cooperação nuclear com França, Reino Unido e outros para substituir o guarda-chuva nuclear norte-americano que garantia a segurança da UE desde 1945, o futuro chanceler alemão não poupou palavras.
“A minha prioridade absoluta será fortalecer a Europa o mais rapidamente possível para que, passo a passo, possamos realmente alcançar a independência dos EUA. Nunca pensei ter de dizer uma coisa destas num programa de televisão. Mas depois das declarações de Donald Trump na semana passada, é evidente que os americanos, pelo menos esta parte dos americanos, esta administração, são em grande parte indiferentes ao destino da Europa.”
Também sugeriu que a Europa poderá ter de criar uma estrutura de Defesa alternativa à NATO, à qual só faltou passar um atestado de óbito. “Estou muito curioso para ver como vamos dirigir-nos para a cimeira da NATO, no final de junho – se continuaremos a falar da NATO na sua forma atual ou se teremos de criar uma capacidade de defesa europeia independente muito mais rapidamente.”
O seu “rapidamente” pode ter de esperar. A prioridade, para já, é negociar um governo estável onde cada envolvido terá concessões a fazer se todos quiserem evitar uma nova ida às urnas, que só promete reforçar ainda mais a AfD, o partido que o Presidente dos EUA optou por congratular em vez da CDU quando os resultados eleitorais começaram a chegar. “Na Alemanha, muitos consideram que esta é a derradeira oportunidade para travar a continuação da demolição do sistema partidário e, mais importante ainda, a continuação da ascensão da extrema-direita”, destaca Patel.
“Os velhos tempos de apenas três ou quatro partidos já lá vão e, em muitos aspetos, as eleições alemãs reproduzem tendências que também se verificam noutros locais: mais volatilidade, menos votos nos partidos que remontam à história do pós-guerra, mais votos nos partidos radicais”. Ainda assim, adianta o historiador, “as mudanças, pelo menos até agora, foram menos extremas do que noutros lugares – basta pensar nos resultados recentes em Itália, na Áustria, ou nos Países Baixos”. Mas “muito dependerá agora do próximo governo” que for possível formar.
“Com as próximas eleições, previstas para 2029, já no radar, será agora fundamental formar rapidamente um governo forte e fiável – caso contrário, as próximas eleições serão ainda mais perturbadoras do que as atuais.”