“Wandel durch Annäherung”: o que é preciso saber sobre isso e sobre as relações com a Rússia do novo ministro alemão da Defesa

19 jan, 22:04
Boris Pistorius (AP)

A nomeação de Boris Pistorius não foi recebida com agrado pelo governo ucraniano e aliados mais próximos. No entanto...

“Esta deveria ser uma ocasião para rever as sanções contra a Rússia: se não alcançamos os nossos objetivos, temos de questionar se os instrumentos são os corretos”: estas palavras proferidas em 2018 por Boris Pistorius, o novo ministro da Defesa da Alemanha, em declarações ao jornal Sueddeutsche Zeitung têm um significado que requerem contextualização à luz dos acontecimentos desse 2018 mas também dos de 2022/2023.. 

Para defender a sua posição há cinco anos, Pistorius alegou que a Alemanha perdeu “milhares de milhões de euros” com as sanções a Moscovo, decretadas após a anexação da Crimeia, e considerou que a própria posição de Vladimir Putin no panorama doméstico tinha saído reforçada. Não é de estranhar, portanto, que a sua nomeação para uma das pastas mais importantes do país tenha sido vista com desconfiança por Kiev e alguns aliados.

Ainda assim, Helena Ferro Gouveia, comentadora da CNN Portugal, afirma que Olaf Scholz pesou outros fatores quando nomeou o governante. “Apesar de ter concorrido contra Scholz pela liderança do SPD, Boris Pistorius é leal ao chanceler e ao partido. Mesmo não tendo experiência na área da Defesa, tem experiência na área da Administração Interna. As coisas correram-lhe bem enquanto ministro do Interior da Baixa Saxónia, um dos principais estados alemães.”

A especialista em assuntos internacionais refere ainda que Boris Pistorius é muito conhecido por ser “direto e firme”, algo que o pode ajudar com a nova pasta, “normalmente muito complexa na Alemanha”, e diz que a sua nomeação tem de ser “enquadrada” na forma como Berlim olha para as questões militares desde o final da II Guerra Mundial.

“Houve sempre uma continuidade na política de contenção, a Alemanha tem uma aversão a tudo o que implique o uso de tropas. Da primeira vez que o fez, em 1998, nos Balcãs, houve uma grande discussão. A memória histórica da II Guerra Mundial explica essa política. A Alemanha temeu, durante muito tempo, ser vista com desconfiança, há razões históricas que explicam a sua postura”, sublinha.

Outro ponto muito polémico que tem sido debatido é o facto de Pistorius ter feito parte de um comité de amizade Alemanha-Rússia durante o seu tempo (2013-2017) enquanto representante da Baixa Saxónia no Bundesrat, a câmara alta do parlamento alemão. Sobre este facto, Ferro Gouveia aponta, novamente, para a história política da Alemanha.

“O facto de Pistorius ter participado num comité de amizade Alemanha-Rússia insere-se numa política externa alemã que vem desde o tempo de Willy Brandt, que é a 'mudança através da aproximação', em alemão 'Wandel durch Annäherung', que, no fundo, era a convicção alemã de que é possível trazer para si um país através do comércio, da cultura. Não é de estranhar que a posição alemã em relação à Rússia - seja por ingenuidade, seja pelo seu próprio contexto histórico - tenha sido essa”, diz.

A comentadora releva também as palavras do próprio Pistorius após a invasão russa iniciada a 24 de fevereiro do ano passado, com as quais condenou os “brutais ataques” de Moscovo e pediu aos simpatizantes do Kremlin para não “glorificarem” a guerra.

“É intolerável que o fim da II Guerra Mundial, a vitória dos Aliados e a libertação da Europa estejam associados à guerra ilegal de agressão contra a Ucrânia", disse em maio, citado pela Reuters.

Pistorius entra para o executivo alemão numa altura em que este enfrenta enorme pressão do Ocidente e de Kiev. Polónia e Finlândia já mostraram disponibilidade para enviar carros de combate Leopard 2 para a Ucrânia, mas têm esbarrado na relutância alemã em dar o sim. Para que os veículos sejam fornecidos às forças armadas ucranianas, o governo alemão, à luz das regras de reexportação, tem de dar o seu consentimento, o que tem sido difícil de obter. Apesar de todo este contexto, Helena Ferro Gouveia prevê que a reunião dos ministros da Defesa do Ocidente, a realizar esta sexta-feira em Ramstein, traga notícias positivas para Volodymyr Zelensky.

“Acredito que após a reunião de Ramstein vamos ter a Alemanha a pelo menos não bloquear o envio de Leopards por parte de países que estão dispostos a fazê-lo. Não digo, contudo, que enviem os seus, pois poderiam estar a desguarnecer as suas forças armadas, que durante muito tempo não sofreram com a falta de investimento”, aponta, frisando que esta decisão pode ajudar a dissipar algumas dúvidas em relação à alegada proximidade de Pistorius com a Rússia.

No que diz respeito à política interna, contudo, a nomeação de Pistorius levanta um grande problema para Olaf Scholz: a questão da paridade entre homens e mulheres no executivo. “O SPD é um feroz defensor da paridade e Scholz, ao nomear um homem para ministro, veio romper com aquela que foi uma das suas grandes promessas eleitorais. Pode parecer um assunto menor mas na Alemanha não é, de todo”, afirma, notando o facto de um dos parceiros de coligação do SPD, Os Verdes, ter esse princípio como uma das principais bandeiras e aplicá-lo em todas as suas estruturas, tendo inclusive uma liderança bicéfala, composta por um homem e uma mulher.

Um homem discreto, mas sólido

Membro do SPD desde os seus 16 anos, Boris Pistorius subiu lentamente nas estruturas do partido. Nascido em Osnabruck, formou-se em Direito na Universidade de Munster, de onde seguiu para conselheiro para o gabinete do ministro do Interior da Baixa Saxónia, Gerhard Glogowski, num governo estadual liderado por Gerhard Schroeder, que mais tarde viria a ocupar o cargo de chanceler da Alemanha.

As curiosidades que o ligam a Schroeder, muito criticado pela sua amizade com Vladimir Putin, com quem se encontrou no verão do ano passado, não ficam por aqui. De 2016 a 2022, Pistorius manteve uma relação amorosa com Doris Schroeder-Kopf, ex-mulher do antigo chefe de governo alemão.

O agora ministro da Defesa foi presidente da sua autarquia natal entre 2006 e 2013, ano em que aceitou o convite para integrar o governo da Baixa Saxónia, onde se manteve até agora.

“Aquilo que se procurou foi ter uma pessoa sólida em termos de personalidade e a nível político. As palavras-chave para esta nomeação são solidez e cautela”, diz Ferro Gouveia. “Quando olhamos para a história alemã, percebemos que os seus políticos, independentemente do seu partido, são políticos de pequenos passos, cautelosos. Angela Merkel era assim, antes de tomar uma decisão parece que as coisas demoravam muito tempo, criavam alguma irritação nos outros. Scholz está a repetir essa cautela”, conclui.

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