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O álcool não é bom para nós. E esteja atento às bolhas

CNN , Andrea Kane
15 mar 2025, 16:00
Esteja atento às bolhas, avisa Jason Kilmer, professor de psiquiatria e de ciências comportamentais da Faculdade de Medicina da Universidade de Washington. “Quanto mais borbulhante é a bebida, mais rapidamente é absorvida” (SeventyFour/iStockphoto/Getty Images)
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Jason Kilmer, professor de psiquiatria e de ciências comportamentais da Faculdade de Medicina da Universidade de Washington, avisa que “quanto mais borbulhante é a bebida, mais rapidamente é absorvida”

Não é só nas festividades que acabamos por exagerar no consumo de álcool. Ao longo do ano, não faltam oportunidades para brindar uma e outra vez.

Temos vindo a aprender, com cada vez mais certezas, que os efeitos do álcool no corpo humano não são benéficos, para sermos contidos na abordagem. Em 2019, houve 2,6 milhões de mortes em todo o mundo atribuídas ao consumo de álcool, segundo a Organização Mundial de Saúde. O balanço inclui mortes por condições exponenciadas pelo álcool – como doenças cardíacas, doenças no fígado e vários tipos de cancro -, bem como mortes na sequência de acontecimentos onde o álcool teve um papel determinante, como quedas, afogamentos, acidentes rodoviários e suicídios.

E atenção: esta estatística é anterior à pandemia e covid-19, cujo stress e isolamento levaram a um aumento no consumo de álcool – e que se mantém nos nossos dias.

Talvez não seja surpresa que muitas pessoas se tenham tornado “sober curious”, que poderíamos trazer em português como, “pessoas curiosas pela sobriedade”, tornando mais populares os bares sem álcool, os ‘mocktails’ ou os meses dedicados a essa causa, como o “Dry January” (Janeiro Seco) ou o “Sober October” (Outubro Sóbrio).

Se o caro leitor escolhe beber ou não, é uma decisão sua. Mas saiba que ela é influenciada por muitos fatores: a sua história pessoal, o seu histórico familiar, a sua tolerância aos efeitos de curto prazo (como perder o controlo, embebedar-se, desmaiar ou ficar de ressaca), as suas preocupações com a saúde a longo prazo ou até mesmo se gosta ou não do sabor do álcool. Entra tudo na equação.

Uma das razões que leva as pessoas a recorrerem ao álcool é o facto de ele ser encarado como um ‘desbloqueador social’.

“Dizem-nos ‘Sou mais divertido’, ‘Fico menos envergonhado’, ‘Ganho confiança’, ‘Torno-me mais extrovertido’, ‘Consigo engatar melhor’”, conta à CNN Jason Kilmer, professor de psiquiatria e ciências comportamentais na Faculdade de Medicina da Universidade de Washington.

Contudo, Kilmer, que estudou e trabalhou durante duas décadas na área da prevenção de distúrbios causados pelo álcool e pelas drogas em estudantes universitários, conta que uma experiência inovadora, realizada no Laboratório de Investigação Comportamental com Álcool da Universidade de Washington, mostrou que, na realidade, não é verdade que beber aumente as interações.

“O álcool faz muitas coisas. Tem impacto no tempo de reação, na coordenação motora, na capacidade de tomar decisões. São todos efeitos farmacológicos do álcool”, refere.

“Contudo, os resultados sociais ou interpessoais que obtemos por termos bebido álcool acontecem muito mais à custa da nossa mentalidade, das nossas expectativas, das nossas crenças, do lugar onde estamos e com quem estamos, e não devido ao conteúdo do copo que está na nossa mão”.

Para a experiência, os estudantes recrutados, que tinham até 21 anos e assinaram um formulário de consentimento, foram divididos em quatro grupos.

Os membros de um grupo foram informados de que estavam a receber bebidas com álcool – e receberam-nas, de facto. Os participantes do segundo grupo foram informados de que estavam a receber bebidas sem álcool – e receberam-nas, de facto.

Até aqui tudo bem. A reviravolta acontece com os grupos que restam. Os estudantes do terceiro grupo foram informados de que estavam a receber bebidas com álcool, mas foram-lhes servidas bebidas sem álcool. Os estudantes do quarto grupo foram informados de que estavam a receber bebidas sem álcool, que, afinal, tinham álcool.

Os participantes neste estudo a quem foram dadas bebidas com álcool receberam uma quantidade específica desta substância, com base no sexo e no peso, que os levaria a um nível de álcool no sangue de 0,06%.

“É uma grande dose numa bebida só. Equivale a três quartos do limite legal nos Estados Unidos”, clarifica. “É o suficiente para manter alguém com um nível de álcool no sangue positiva durante as quatro horas após ter se ter atingido o pico”.

Os investigadores observaram os estudantes a interagir durante uma hora. Os resultados foram surpreendentes.

A reação dos participantes dos dois grupos onde a informação passada foi igual à bebida servida foi a esperada. No primeiro grupo, “parecia um monte de estudantes universitários a beber: o volume da conversa aumentava, as pessoas interagiam mais”, explica Kilmer.

O segundo grupo, sem álcool, estava mais contido. “Era um grupo muito mais tranquilo, com muito menos interação. No máximo, pareciam um grupo de estudantes que não se conheciam a serem convidados a estar juntos e a beber água durante uma hora”, junta.

Segundo Kilmer, as “descobertas inovadoras” fizeram-se nos dois grupos restantes.

Aqueles que achavam que estavam a beber álcool, mas que não o receberam, a dinâmica do grupo mostrou-se bastante ativa, descreve Kilmer. “O volume subiu, as pessoas interagiram muito mais, algumas estavam a juntar mesas e a fazer jogos de bebida com água”. “Algumas pessoas relataram ter sentido efeitos físicos”.

No quarto grupo, cujas pessoas achavam que estavam a receber bebidas sem álcool, não houve esse tipo de interações sociais. “Receberam álcool, mas não aconteceu nenhuma interação social de grandes dimensões”, resume. “Vinte minutos depois, estavam todos sentados numa roda, a perguntar quando é que este estudo parvo ia acabar”.

Kilmer refere que, 40 minutos depois do início da experiência, quando os efeitos físicos do álcool começaram a fazer-se sentir – o álcool deprime, ou desacelera, o sistema nervoso central -, os participantes do quarto grupo atribuíram o que estavam a sentir não à embriaguez, mas a outras coisas, como não terem dormido bem, ao facto de estarem numa sala demasiado quente ou por serem desajeitados.

No que respeita aos benefícios sociais, “para começar, eles não vêm do álcool”, insiste Kilmer. “Provavelmente, é porque é mesmo divertido estar com outras pessoas, longe do trabalho, da escola, do stress”.

Algumas pessoas podem, ainda assim, sentir-se relutantes em soltar o copo de vinho ou a garrafa de cerveja numa festa. Para elas, Kilmer tem cinco dias para ajudar a diminuir os danos do álcool.

Reduza ou recuse o álcool

Beba menos – ou não beba de todo.

“Certamente, se alguém está a tentar evitar os efeitos indesejados do álcool, escolher uma opção sem álcool pode ser o caminho a escolher”, diz Kilmer por email.

Se decidir beber, o especialista sugere reduzir o impacto do álcool alternando cada bebida alcoólica com um copo de água. “Isso vai ajudar a controlar o ritmo, além de ajudar a hidratar”, observa.

Hidratar-se também vai diminuir as suas probabilidades de ter uma ressaca no dia seguinte.

Não beba de estômago vazio

A sabedoria popular avisa que é preciso comer antes ou enquanto se bebe – e está correta.

“Quando bebemos com o estômago vazio, o álcool é absorvido mais depressa na corrente sanguínea. E isso pode resultar numa concentração maior de álcool no sangue”, argumenta Kilmer. “A comida vai ajudar a desacelerar a absorção do álcool na corrente sanguínea”.

Por isso, não se iniba, peça uns nachos para acompanhar. Vão fazer a diferença.

Conte porções, não copos

Um dos truques passa por controlar o número de doses de álcool que consome, não apenas o número de copos vazios na mesa, aconselha Kilmer.

“Um cocktail com duas doses de álcool forte pode vir apenas num copo, mas o corpo sabe que são duas doses”, diz. “O mesmo para o copo de vinho. Se for grande, será mais do que uma medida padrão”.

Nos Estados Unidos, a dose padrão contém aproximadamente 14 gramas de álcool puro. Isso equivale a cerca de 335 mililitros de cerveja comum (com 5% de álcool, uma vez que há cervejas mais leves, com uma percentagem menor), a 150 mililitros de vinho (com 12% de álcool) ou a 45 mililitros de destilados (com 40% de álcool).

Bolhas trazem sarilhos

Esteja consciente do papel das bolhas, avisa Kilmer.

“Quando mais borbulhante for a bebida, mais rapidamente é absorvida”, resume. “É por isso que as pessoas dizem que sentem os efeitos do champanhe tão depressa”.

O mesmo se aplica às misturas carbonatadas, isto é, com gás, junta. Um exemplo: um vodka tónico vai bater mais depressa do que um vodka com sumo de frutos vermelhos.

Este conhecimento pode ser relevante se estiver a beber champanhe ou outra bebida borbulhante ou carbonatada numa festa ou iniciativa da firma.

Fique de olho na bebida

É essencial que saiba o que há no seu copo.

“Se está mesmo a tentar reduzir os riscos ou danos, não aceite uma bebida se não soube o que há nela”, diz Kilmer, acrescentando que uma bebida “pode ser muito mais potente” se tiver uma porção de álcool superior ao habitual.

Também é essencial que não deixe a sua bebida sem vigilância, insiste.

“Infelizmente, é possível que alguém tente colocar lá algo se a bebida for deixada à sua mercê”, atesta.

Dicas extra

Kilmer tem ainda outras duas dicas que importa realçar.

A primeira é para lembrá-lo sobre a importância de não conduzir quando beber. “Tome medidas para ter um regresso seguro, num transporte alternativo, caso tenha intenção de beber”, começa.

A segunda é para estar consciente dos riscos de misturar o álcool com outras substâncias.

“Os estudos sobre a legalização da canábis insistem para a necessidade de não a combinar com álcool, para que os efeitos não se sobreponham”, aconselha. “Causa uma interação entre drogas, chamada ‘potenciação’. Do ponto de vista dos efeitos das drogas, o resultado é este: um mais um é maior do que dois”.

Esperamos que estas dicas o ajudem a ficar seguro, caso decida beber.

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