Todos os dias o "Azulinho" atravessa Alcântara. Ao volante, "Maradona" é mais do que o motorista
REPORTAGEM || Pelas ruas de Alcântara, em Lisboa, circula uma carrinha azul que liga bairros e transporta moradores. Mas, ao volante do “Azulinho”, Bruno Teixeira transporta muito mais do que passageiros: para uma população envelhecida e muitas vezes isolada, tornou-se companhia, amigo, quase família. Há quem o trate como um filho. E quem ainda lhe chame “Maradona”
Às oito da manhã, Bruno Teixeira senta-se ao volante do “Azulinho”. Até às cinco da tarde percorre as ruas de Alcântara. A cada virar de esquina, há um rosto conhecido e um gesto que se repete. Bruno dá dois toques na buzina e levanta a mão. “Olha o senhor Carlos. Senhor Carlos, como está? Tudo bem? Já vou fazer a volta e já passo para cima. Até logo”, cumprimenta, antes de resumir: “Isto é o meu dia a dia”.
É assim desde 2021, quando assumiu a função de motorista na Junta de Freguesia de Alcântara. O país saía de uma pandemia e o “Azulinho” voltava à rua. “O início foi um bocado difícil, porque isto veio pós-Covid. As pessoas estavam com muito medo”, recorda Bruno. Na altura, havia uma barreira entre ele e os passageiros: “Eu trabalhava com um acrílico gigante e não tinha o contacto direto.” E até conversar era difícil. “Não conseguia ouvi-los, porque eles também não me ouviam. Foi muito complicado.”
Mas o tempo foi passando e Bruno foi conquistando os moradores. Na primeira paragem, no Bairro da Cabrinha, Adelina Inácio explica logo porquê.
— Vou-me sentar aqui à frente para falar do senhor Bruno.
— Se vai falar mal de mim, fica já aí — brinca.
— Não, não. Vou dizer que ele é uma joia de pessoa.
Adelina começa então a enumerar aquilo que Bruno faz por ela. “Eu gosto muito dele. Vem-me buscar, vem-me trazer, vai comigo…” E guarda para o fim o exemplo que melhor explica a proximidade entre os dois: “Até lhe peço para ir comigo ao médico e ele vai, veja lá bem”. É nestes pequenos momentos que se percebe a relação entre o motorista e os passageiros.
Na verdade, Bruno apenas cumpre o itinerário estipulado. Mas, para Adelina ou para outras senhoras, é como se alguém fosse de propósito buscá-las. Adelina tem um filho, mas vive sozinha há 23 anos na Avenida de Ceuta, no Bairro da Cabrinha. Todas as semanas anda de “Azulinho”. Já costumava utilizar o serviço quando havia outro motorista. “Mas não era tantas vezes. Às vezes ia de autocarro”, distingue. “Com o senhor Bruno é que venho sempre.”
Usa o transporte para ir às compras, aos correios, ao centro de saúde ou às atividades da junta. E quando Bruno vai de férias? “Quando ele está de férias, venho no autocarro, no 751 ou no 756”, explica Adelina. Mas apressa-se a marcar a diferença: “Não é igual. Não, não”. Quando vai muito carregada, acaba por recorrer ao táxi. “Pronto, o senhor Bruno faz-me falta em tudo”, reconhece. E depois concede-lhe o inevitável: “Mas ele, coitadinho, tem de ir de férias”.
A conversa faz-se enquanto o percurso segue. Noutra paragem, na Rua Professora Vieira Natividade, entra Helena. E, mais acima, já no Bairro do Alvito, a carrinha enche. Entram Odete, Conceição e dois Antónios. Os dois estiveram na Guerra Colonial e esse é um tema recorrente nas viagens. Mas nesta carrinha de 14 lugares há espaço para todo o tipo de conversa. Os filhos, os netos, as maleitas, as tricas entre vizinhos ou os jogos do Atlético Clube de Portugal.
Aqui não há apenas utentes. Há nomes, há histórias. Bruno conhece cada uma por trás de cada nome. Mas não só. Conhece também as necessidades. “A maioria das pessoas que usam o ‘Azulinho’ têm uma média de idades para lá dos 70 anos”, começa por explicar. Muitos têm dificuldades físicas: “São pessoas que têm muitas dificuldades de locomoção, sim”. Mas Bruno aponta também para outro problema, menos visível. “Têm dificuldades até de interagir na sociedade. São pessoas isoladas”, sublinha. “Muitos deles não têm ninguém.”
A freguesia de Alcântara, em Lisboa, tem mais de 13.800 habitantes. E, por cada 100 jovens, há 188 idosos a viver em diferentes bairros. Alguns mais distantes ou de difícil acesso ao centro da freguesia. Foi para encurtar as distâncias que a junta criou este serviço de transporte. É semelhante a uma carreira da Carris, mas anda apenas dentro da freguesia.
Por sugestão de Bruno Teixeira até ganhou um novo ponto, já em Belém, para responder às necessidades de alguns passageiros. “Eu, como ando na estrada, também sou quem faz chegar à chefia as necessidades do serviço”, explica. Foi assim que percebeu que o percurso precisava de chegar mais longe. “Achei por bem alterarmos e colocarmos o ponto do Centro de Saúde de Pedrouços, que é fora de Alcântara, porque era aí que era o centro de saúde de Alcântara. Isto em 2021.”
Entretanto, há um novo centro de saúde na freguesia e Bruno já sinalizou outra alteração. “Agora já temos um centro novo aqui, que também ainda não tem ponto de paragem. Mas já está pedido para ser adicionada lá uma paragem.” A razão é simples: “É o local onde as pessoas vão com mais frequência. Infelizmente, até pela idade que têm”.
Entre as várias histórias que se sentam no “Azulinho” está a de Odete Esteves. Vive no Alvito há quase 60 anos. É natural do Teixoso, na Covilhã, mas foi o amor que a trouxe para Lisboa. “Foi uma história muito bonita”, recorda. Conheceram-se depois de uma ida do futuro marido a casa de um tio no Teixoso e começaram a namorar por carta. Odete ainda resume aqueles meses numa espécie de regra: “Carta recebida, carta respondida”. E não demorou muito. “Não chegou a um ano.”
Odete mudou-se para a capital, onde casou e viveu com o marido. Há 25 anos ficou viúva. E, quando a conversa chega a ele, a ausência permanece inteira. “Tenho muitas saudades”, admite. “Faz-me muita falta o meu marido.”Uma falta que se atenua com pequenos hábitos como a ida à ginástica ou à hidroginástica. Mas também com uma ida às compras na carrinha de Alcântara.Odete tem dois filhos e o mais velho fica responsável pelas grandes compras. Mas aproveita a “boleia” para ir ver as novidades e as promoções e pôr a conversa em dia. Também já andava no “mini-bus” quando era conduzido por outros motoristas. Faz questão de os elogiar antes de distinguir Bruno: “Foram todos bons, mas como o Bruno não há”.
Afinal, o que é que Bruno tem de especial? “É muito bom rapaz, muito humano, muito preocupado”, enumera Odete. Depois acrescenta outra qualidade: “É muito carinhoso”. E faz questão de lembrar que o afeto é retribuído. “E nós também o acarinhamos muito porque ele merece.”
Bruno confirma-o através de pequenos gestos que se repetem ao longo do ano. “Quase todas as semanas me trazem coisas. Elas têm hortas ali em cima”, conta. No Natal aparecem produtos da terra. “Trazem-me couves, trazem-me azeite…” Noutras semanas muda a oferta. “Esta semana deram-me uma garrafa de ginja.” É um hábito. “Todas as semanas há sempre qualquer coisa”, reconhece Bruno. Até o lanche pode chegar já pensado para dois: “Fazem uma sandes para o lanche e fazem uma também para mim”.
Entre o cuidado que se recebe e o cuidado que se retribui, criou-se um laço que vai muito além da carrinha. Adelina não precisa de uma grande explicação para definir o lugar que Bruno ocupa na sua vida: “O Bruno, para mim, é como um filho”. Considerar uma pessoa como filho ou neto é talvez uma das maiores expressões de carinho. Os laços que se foram criando fizeram de Bruno mais do que um motorista na vida destas pessoas. “Eu digo sempre isto: eu sou motorista de profissão, mas não faço da minha profissão o meu dia”, começa por distinguir. Para Bruno, aquelas horas são passadas de outra maneira: “Eu estou com os meus amigos”.
É também por isso que não esconde o gosto pelo trabalho. “Adoro o que faço. Sei que estou a ajudar.” E é com Helena que escolhe medir a importância dessa ajuda. “Só o facto de pegar no autocarro às oito da manhã e saber que está ali a dona Helena, com 94 anos, à minha espera todos os dias, e que não tem para onde ir nem o que fazer…” Para Bruno, isso basta. “Só por aí eu já sei que estou a ajudar”, reconhece. Primeiro chama-lhe função: “E essa é a minha função.” Depois escolhe uma palavra maior. “A minha missão é ajudar.” E rejeita também a distância de uma designação administrativa. “Eu não os trato como utentes”, sublinha. “Trato-os mesmo como amigos.”
Nestes cinco anos, viu alguns partir. “Infelizmente, sim. Já tive três ou quatro pessoas que faleceram”, recorda Bruno. Duas morreram depois de doença. “Mas outras duas foi de forma mais chocante, porque foram encontradas mortas em casa.” Nesses casos, foi ele quem primeiro estranhou a ausência. “Fui eu que dei por falta delas”, lembra. Alertou então quem podia ajudar: “Comuniquei à assistente social da junta e foram lá os bombeiros e a polícia.” O desfecho confirmou o pior. “Infelizmente, estavam mortas.”
A preocupação com as pessoas vai para lá da carrinha e faz-se pelo telemóvel. Os passageiros têm liberdade para ligar a Bruno ou mandar mensagem. Ele próprio mostra uma dessas conversas. “Estas mensagens, por exemplo, são do senhor António.” No ecrã aparece uma frase curta:
“Bom dia. Espero. Abraços”.
Bruno já sabe o que significa. “Todos os dias me manda esta mensagem, às nove e tal da manhã, para dizer que vem”, explica. E responde quase sempre da mesma maneira:
“Ok, senhor António. Até já. Abraço”.
A troca repete-se há muito. “Todos os dias. Há cinco anos”, reforça. E, quando António falta, também avisa:
“Hoje não venho”.
Depois Bruno passa para outra conversa. “Depois tem a dona Isabel.” As mensagens aqui já não servem para confirmar a viagem. Isabel chama-lhe “um anjo sem asas” e deseja-lhe: “Que a vida lhe sorria para sempre".
As ligações servem para confirmar a presença, tirar dúvidas sobre horários ou apenas conversar. Às vezes é Bruno quem liga. Na viagem deste dia, faltou Olga. A ausência foi suficiente para lhe despertar a preocupação e Bruno telefonou para saber se alguma coisa tinha acontecido. Do outro lado, chegou a explicação: “O meu marido hoje não está muito bem”.
Bruno Teixeira é um homem de Alcântara, nascido e criado. Jogou no Atlético e isso valeu-lhe uma alcunha pela qual também é conhecido na freguesia e que está cravada na pele. “Eu nasci aqui em Alcântara. Joguei 13 anos no Atlético. Sou filho da casa”, faz questão de situar. Foi também pelo futebol que muita gente começou a conhecê-lo. “Toda a gente me conhece daqui, mais pelo futebol”, recorda. “Quase ninguém sabia o meu nome. Só sabiam a minha alcunha.” Para encontrar a origem é preciso recuar à infância. “E desde os seis anos que tenho a alcunha de Maradona”, situa Bruno. Não há uma história complicada por trás dela: “Houve uma pessoa que me começou a chamar Maradona e ficou”.
A ligação ao futebol mantém-se. Agora, de outra forma. Aos fins de semana, em dias de jogo, Bruno leva na carrinha azul os adeptos do Atlético Clube de Portugal aos jogos. Transporta também o coro da freguesia de Alcântara ou assegura qualquer outro serviço de transporte que seja necessário.
Bruno Teixeira é descrito como “o homem que conduz com o coração”. Ao volante, este motorista fez de uma simples carrinha um ponto de encontro, de companhia e de atenção. Hoje, o “Azulinho” não encurta apenas as distâncias entre bairros. Aproxima pessoas e dá companhia a uma população que vive entre os novos ares de Alcântara, mas que, tantas vezes, está só.
