"A função do príncipe herdeiro é esperar que o soberano morra" (entrevista)

30 abr 2023, 08:00
Rei Carlos III (AP Photo)

Alberto Miranda é jornalista e comentador conhecido pela sua especialização em famílias reais. Com a coroação de Carlos III marcada para 6 de maio, as expectativas são elevadas e os olhos do mundo estão voltados para a monarquia britânica. Em entrevista à CNN Portugal, numa antevisão do que pode ser esperado para o novo ciclo monárquico no Reino Unido, Alberto Miranda afirma que se pode antever que a chegada do novo rei traga mudanças significativas para a nação e para a família real

Qual é a sua expectativa para o reinado do Carlos III?

Ele esteve tantos anos à espera para assumir o trono, houve tanta polémica em volta disto, desta espera. Carlos é rei desde o dia 8 de setembro, logo a seguir à morte da mãe. Carlos foi, de facto, o príncipe herdeiro mais bem preparado das 10 famílias reais da Europa, porque foi o que esteve mais tempo na função de herdeiro. E a função do príncipe herdeiro é esperar que o soberano morra. O papel institucional dele é esperar pela morte ou pela abdicação do seu progenitor, numa terra em que não há abdicação. A palavra abdicação é uma palavra que não fazia parte do léxico de Isabel II, por razões óbvias, por causa do tio ter abdicado.

Foi por isso que não abdicou?

Isabel II tinha jurado que queria dedicar a sua vida, fosse longa ou curta, ao serviço da grande família que era a nação britânica. E, portanto, as pessoas falaram muito disso. À medida que ela foi envelhecendo, porque não passou o testemunho ao filho? Vai abdicar? Quando é que ela abdica, mesmo quando ela está visivelmente mais debilitada, mais cansada? Esta palavra falou-se. Mas Isabel II morreu como quis, na cama, ou seja, ao serviço. Carlos, portanto, tem agora um papel, cabe-lhe os destinos que anteriormente estavam na posse da mãe, ou seja, ser o chefe de Estado. Ou seja, agora é ele o chefe de Estado porque herdou da mãe, sem voto popular, portanto sem eleições como acontecem nas repúblicas. E o papel dele também como pai foi educar os filhos para isso. 

Foram essas as razões para que a questão do Harry fosse tão polémica?

Agora temos como príncipe herdeiro William. E porque esta questão do Harry foi tão polémica? Não foi só porque ele era uma pessoa conhecida, não. Esta questão do Harry foi muito polémica precisamente porque ele era um príncipe, filho do príncipe herdeiro, portanto agora filho de um rei. E os príncipes são educados para servir. E o Harry abandona a tradição em que foi educado. E um dos papéis principais de Carlos é assegurar que o seu descendente direto, herdeiro número um, está preparado no futuro para assegurar também a chefia de Estado.

Qual o grande papel de Carlos III?

Um dos grandes papéis de Carlos é a unificação do reino, da Escócia, da Irlanda, do País de Gales, e depois também da Commonwealth, porque também houve pessoas que mostraram vontade, uma certa independência. O rei só existe se houver um Estado. 

Família Real na varanda do Palácio de Buckingham durante o Jubileu de Platina [AP PHOTO]

Considera que Carlos III alguma vez vai conseguir a popularidade de que Isabel II gozou?

Essa pergunta da popularidade, porque nós temos muito presente o papel da mãe, da rainha Isabel II como um elemento unificador. De grande adesão, de grande carinho. E a idade trouxe isso a Isabel II, as pessoas viam nela verdadeiramente uma matriarca, a mãe da família. No Reino Unido quase ninguém conheceu outra soberana a não ser a própria Isabel II.

Alguma vez a popularidade de Isabel II esteve em causa?

A popularidade de Isabel II, tirando aquele momento da morte da Diana, nunca esteve em causa. Foi sempre uma soberana muito popular, muito querida pelos seus súbditos, pelos seus cidadãos. E Carlos sabe que não tem a mesma popularidade. E nós temos de pensar também, e não foi há muito tempo, e para quem tem mais de 30 anos tem memória, da popularidade de Carlos quando se separa de Diana e quando Diana morre.

E antes da morte de Diana, como estava a popularidade de Carlos? 

Estava muito, muito, muito em baixo. Naquela célebre entrevista que a Diana dá à BBC e onde assume 'nós éramos três', porque isso é uma grande multidão, a popularidade de Carlos cai a pique porque Carlos mostra-se um homem traidor, que tem uma amante. Ele era, como príncipe herdeiro, o futuro chefe da igreja de Inglaterra, da igreja anglicana. E, na altura, o casamento entre divorciados não era possível e não podia haver, era muito estranho. Nós estávamos a pensar num futuro rei divorciado. E, portanto, a popularidade de Carlos estava muito em baixo.

Mas isso mudou…

Isto foi em 1997, a Diana morre, Carlos e Camilla casam em 2005, nós estamos em 2023, e o mundo mudou, é completamente diferente. Aliás, a rainha antes de morrer expressou o seu desejo de que a Camilla fosse, quando chegasse a vez de Carlos, tratada como rainha e assim está. O mundo mudou muito e Camilla acabou por ser aceite, assim como Carlos. E não deixa de ser curioso as voltas que o destino dá para vermos hoje Camilla, que chegou a ser a mulher mais odiada do Reino Unido, precisamente por ser a amante do príncipe de Gales, a destruidora do casamento, do conto de fadas. E hoje o mundo mudou, temos Camilla ao lado de Carlos, e Camilla que vai ser coroada, rainha, como Carlos, no dia 6 de maio. Não deixa de ser curioso. 

Acha que os filhos de Carlos estão confortáveis com a subida ao trono de Camilla? O príncipe Harry já disse que não, mas como é que o príncipe William verá isto?

De facto, o livro do Harry levanta muitas questões nesse sentido. E ele próprio diz que, quando soube que ele ia casar com Camilla, que ele e o irmão pediram ao pai para não casar com ela, com medo de que Camilla fosse a madrasta má. Aqui ficamos a saber, pela voz do príncipe Harry, que ele no início tinha aqui um certo receio da presença de Camilla como a mulher legítima. E no próprio livro, ele deixa cair muitas verdades, muitas máscaras, dizendo que Camilla interferiu, deixava passar mensagens para a comunicação social, coisas que se passavam com ele. Da leitura que eu fiz do livro, vejo que Harry não está confortável com Camilla. O William, o que eu posso dizer, no fundo, não deixam de ser as leituras que faço daquilo que vemos, porque não temos, não estamos na posse de todos os elementos, não sabemos de facto se os sorrisos são verdadeiros, se são fingidos. Mas a perceção que tenho e que a maior parte das pessoas tem é que o William acabou por aceitar a Camilla como sua madrasta. 

Disse que a monarquia é um clube ao qual se pertence ou por nascimento ou por casamento. Camilla, Kate e Meghan pertencem a este clube por casamento, mas William e Harry pertencem por nascimento. O que se espera deles?

Eles pertencem a um clube muito restrito. Meghan torna-se membro da realeza por casamento, assim como a Kate. Mas o William e o Harry são por nascimento. E isto dá-lhes, quer eles queiram quer não, um estatuto à parte. Esperamos deles um papel exemplar. O exemplo, a união, o símbolo da unidade, da trindade. A família real é este exemplo de serviço, de lealdade. Foi o exemplo que Isabel II nos deixou. Isto não quer dizer que as monarquias não evoluam, não se adaptem. Aliás, a coroação de Carlos é isso mesmo.

O que é que Carlos III pretende do seu reinado e da sua coroação?

Por todas as informações que já passaram para nós, Carlos pretende um novo reinado com um novo estilo. E a própria coroação vai ser isso mesmo. Este será um reinado muito diferente do de Isabel II, mais moderno, com um novo estilo. Carlos sabe perfeitamente qual é o seu papel, mas também sabe que as sociedades estão em constante mutação.

Há aqui um fluir constante de dinâmicas sociais... 

E a própria diversidade étnica da sociedade britânica e mundial, já para não falar só no Reino Unido, impõe-se que os Estados acompanhem esta evolução, que consigam acompanhar a evolução dos tempos. Mas, não deixando de lado essa parte da inovação, da atualização, Carlos sabe também que é o herdeiro de uma dinastia secular, com mil anos. A própria coroação vai ser também este misto de uma e da outra.

E já que falamos de simbologia, o Reino Unido foi comandado por uma mulher nos últimos 70 anos, voltamos aos homens. 

É verdade. Agora o Carlos, a seguir será o William e depois o George.

E depois do George…

Veremos. Mas não deixa de ser curioso isto. O mesmo aconteceu também durante mais de 100 anos na Holanda, nos atuais Países Baixos, foram até 2013 com a rainha Beatriz. E agora temos o rei Willem-Alexandre, mas no futuro vai ser a filha dele outra vez. E isto também nos mostra que as mulheres também são educadas para isto, a própria mudança da lei da primogenitura absoluta, independentemente do sexo do herdeiro que nasce, a Inglaterra mudou. Mudou para que os sexos diferentes tenham o mesmo direito. É curioso que todas as monarquias da Europa mudaram esta lei, à exceção da Espanha, do Mónaco e do Liechtenstein.

Rainha Isabel II em Windsor, em abril de 2022 [AP PHOTO]

Carlos levará o reinado até ao fim, como a mãe? A abdicação também não fará parte do léxico dele?

Carlos esperou toda a vida por isto. O reinado de Carlos é necessariamente mais curto do que o da mãe. Ele tem 74 anos. Toda a gente pensava que Carlos, quando a mãe morresse, iria abdicar a favor do filho, porque tinha maior popularidade. Mas isto é o que as pessoas, é o que o imaginário coletivo espera. Só que não é a verdadeira intenção da pessoa. Porque Carlos esteve toda a vida a ser preparado para isto. Ele foi educado para isto. Ele não podia saltar uma geração. Se saltasse uma geração, estava a pôr acima a sua vontade pessoal. E eles não são educados para as vontades pessoais. Primeiro o país, primeiro o serviço, primeira a lealdade com a instituição. 

William e Kate chegarão a reinar? E o que seria preciso para que Harry subisse ao trono? 

Harry só pode chegar ao trono se, de facto, morrerem os anteriores. Tendo em conta que neste momento temos já William, George, Louis e Charlotte, cada um tem o seu número na linha de sucessão. Harry vem sempre atrás do irmão e dos sobrinhos, como é óbvio. Só se houvesse uma tragédia. Por exemplo, o rei da Suécia herdou o trono do avô porque o pai morreu num acidente de avião. 

O George tem nove anos. Se o avô e o pai morressem agora, o George subiria ao trono? 

O George era rei, mas como é menor ficaria a mãe como regente. Aconteceu isso com o rei Afonso XIII em Espanha. O rei Afonso XII morreu, a rainha Cristina estava grávida e já tinha filhas. Mas nasceu Afonso XIII e ele foi rei. Porém, era a mãe a regente até ele ter a maioridade. E aconteceu o mesmo também na Bulgária com o rei Simeão, que foi rei aos seis anos porque o pai, o rei Boris III, foi assassinado, segundo consta, por Hitler. E era rei, mas era a mãe a regente. No caso hipotético de haver uma morte dos reis e os príncipes herdeiros serem menores, terá sempre de haver um regente. Mas a criança não perde o direito ao trono por ser menor. Pelo contrário.

Voltando a William e a Kate, eles chegarão a reinar?

Só se de facto houver uma catástrofe e que aconteça um imprevisto que mude essa circunstância. Todos têm o seu lugar. A lista é sempre importante porque pode acontecer uma desgraça. Há uns anos, por exemplo, o príncipe herdeiro do Nepal chegou ao palácio e matou o rei, matou os irmãos, matou os tios, matou todos, e depois foi um primo que se tornou rei. Portanto, a importância da linha de sucessão é sempre crucial nas monarquias. Porque a monarquia é sempre hereditária e o posto é muito importante.

Mas falando do cenário que está agora, a monarquia vai continuar a existir no Reino Unido?

A monarquia é uma grande instituição no Reino Unido. É aquela velha história de visitar o palácio de Buckingham quando se vai a Londres, de ver onde mora o rei, não é? E está muito presente no turismo internacional. É uma marca, a monarquia. E as monarquias todas, mas a inglesa em particular, são fortes catalisadores da economia, do turismo. Mesmo em Portugal, os palácios reais da Ajuda, de Queluz, de Sintra, quer dizer, já não temos monarquia e as pessoas vão ver. Porque há sempre um lado voyeur de uma recuperação do passado que nós queremos ver, que nós queremos perceber como é que é. E esta dimensão está muito arraigada na sociedade britânica.

Portanto, a monarquia não vai desaparecer no reino de Carlos, nem com William? Ainda veremos George no trono?

Nós provavelmente não. Isabel II, que tirou fotografias com a sua avó, com os pais, ela própria fez questão, antes de morrer, de deixar quatro gerações juntas. Ela tirou fotografias com o filho, Carlos, com o neto William, e com o filho de William, George, mostrando a continuidade, de que a monarquia estaria lá depois dela.

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