Da "pobreza dramática" em Portugal à homenagem de Obama: este é o português que agora é alvo do FBI

27 fev, 08:00
Superintendente Alberto Carvalho. Getty Images

Antes de liderar o segundo maior sistema escolar dos EUA, o português chegou como imigrante ilegal e ainda teve de lavar pratos ou viver na rua para sobreviver

Tinha tudo para não ir longe, mas acabou por contrariar aquilo que a vida lhe tinha destinado. Alberto Carvalho era, para muitos portugueses, desconhecido até à passada quarta-feira, dia em que chegou a notícia de que estaria a ser investigado pelo FBI.

Nascido em Portugal, de onde saiu com apenas 17 anos, o agora luso-americano tornou-se no único dos seis irmãos a concluir o ensino secundário. Filho de um fiscal e de uma costureira, Alberto Carvalho descreveu a infância, anos mais tarde, como tendo sido marcada por “uma pobreza bastante dramática”, vivida “num apartamento com uma só divisão, sem água corrente e sem eletricidade”.

“Quando se nasce pobre, esse estado de espírito nunca nos abandona”, lembrou em 2025, citado pelo The New York Times.

Determinado a mudar o rumo da sua vida, no início da década de 80, depois de já ter terminado o ensino secundário em Portugal, partiu para os EUA, onde permaneceu por vários anos como imigrante ilegal, como contou ao jornal norte-americano em abril do ano passado. Ao longo desse tempo, trabalhou na construção civil e lavou pratos em vários restaurantes, até ser atirado para a rua, onde, por um período, viveu como sem-abrigo. O português chegou, inclusive, a dormir debaixo de uma ponte.

Foram precisos dois anos de luta para que, aos 19 anos, conseguisse os tão ambicionados documentos que lhe permitiam viver legalmente o sonho americano. A partir daí, conseguiu o visto de estudante, que lhe permitiu ter um número na segurança social do país.

“Aquilo foi um marco”, lembrou durante uma visita a uma escola primária onde falou do tema da imigração. “Senti-me a pessoa mais sortuda do mundo”.

Focado em apostar na sua formação, frequentou o Broward College e a Barry University, onde se licenciou em Biologia em 1990, grau que lhe permitiu tornar-se professor de física na mesma cidade onde outrora fora sem-abrigo e imigrante ilegal, Miami. E assim foi progredindo na carreira, até que, em 2008, acabou por ser convidado a tornar-se superintendente das Escolas Públicas do Condado de Miami-Dade, cargo que ocupou por 14 anos.

Dois anos depois, em 2010, foi escolhido para presidir a uma task force destinada a melhorar a qualidade do ensino na região. Nesse período avançou com a expansão da MAST Academy, tendo criado três novas escolas inspiradas na instituição original de Virginia Key, uma decisão que gerou controvérsia.

Paralelamente, manteve-se ligado a projetos educativos próprios, assumindo-se como diretor de duas escolas que fundou: o Primary Learning Center, em 2009, e a iPreparatory Academy, em 2010, esta última frequentemente referida por si como a sua “escola de assinatura”.

Bastaram três anos para que o reconhecimento público chegasse. Em dezembro de 2013 foi distinguido como Superintendente do Ano na Florida e, em fevereiro de 2014, recebeu o título de Superintendente Nacional do Ano pela AASA.

Poucos meses depois, em maio desse mesmo ano, entrou pela Casa Branca onde foi homenageado pelo então presidente dos EUA, Barack Obama, numa cerimónia que reuniu também os vencedores nacionais dos prémios de Professor e Diretor do Ano. Já em 2015, foi nomeado para o Conselho Administrativo da Avaliação Nacional pelo então secretário de Educação dos Estados Unidos, Arne Duncan.

O superintendente escolar do condado de Miami-Dade, Alberto Carvalho, cumprimenta o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, antes deste discursar durante um evento da iniciativa ConnectED na Sala Leste da Casa Branca, a 19 de novembro de 2014, em Washington, DC. (Foto de Mark Wilson/Getty Images)

O percurso, porém, não ficou isento de polémicas. Em 2008, viu-se implicado num caso de traição, depois de se ter envolvido com uma ex-repórter do Miami Herald, numa altura em que era casado. O caso acabou por se propagar na comunicação social norte-americana.

Antes de ser convidado para liderar o segundo maior sistema escolar do país, o Distrito Escolar Unificado de Los Angeles, em 2021, cargo que ocupa até aos dias de hoje, Alberto Carvalho tinha recusado ser chanceler do Departamento de Educação de Nova Iorque, a convite do autarca da cidade, Bill de Blasio.

Esta quarta-feira, o nome de Alberto Carvalho voltou a ganhar projeção mediática, sobretudo em Portugal, depois de o FBI ter executado mandados de busca nas suas residências em Miami e em Los Angeles, bem como na sede do Distrito Escolar Unificado de Los Angeles (LAUSD), segundo avançou em primeira mão a Associated Press.

A imprensa em frente à casa do superintendente do Distrito Escolar Unificado de Los Angeles, Alberto Carvalho, na quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026, em San Pedro, Califórnia (AP Photo/William Liang)

“Olhei pela janela e tinha um homem camuflado com uma espingarda apontada. Eles algemaram alguém. Não deu para perceber quem, mas algemaram alguém", descreveram alguns vizinhos do português que testemunharam o momento das buscas.

Os agentes federais entraram nos dois locais durante a manhã desta quarta-feira para cumprir mandados relacionados com uma investigação judicial. Até ao momento, não foi divulgada a natureza do processo nem das alegações.

E.U.A.

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