Os interruptores de combustível de ambos os motores “passaram da posição RUN para a posição CUTOFF um”, num espaço de um segundo, interrompendo o fluxo de combustível. Mas como?
Um relatório oficial sobre o acidente de aviação mais mortífero do mundo numa década respondeu a uma questão fundamental - mas levantou outras.
O voo AI171 da Air India mal tinha saído da pista, no mês passado, quando perdeu força e se despenhou numa zona densamente povoada da cidade indiana de Ahmedabad, no oeste do país, matando todas as 242 pessoas a bordo, exceto uma, e 19 outras em terra.
Agora, um relatório preliminar do Gabinete de Investigação de Acidentes com Aeronaves (AAIB) da Índia revelou que o fornecimento de combustível a ambos os motores foi cortado nos minutos cruciais em que o avião estava a subir.
A “caixa negra” do avião, o gravador de dados de voo, mostrou que o avião tinha atingido uma velocidade de 180 nós quando os interruptores de combustível de ambos os motores “passaram da posição RUN para a posição CUTOFF um”, refere-se no relatório. Os interruptores foram acionados com um segundo de diferença um do outro, interrompendo o fluxo de combustível.
Numa gravação áudio da caixa negra, mencionada no relatório, ouve-se um dos pilotos perguntar ao outro por que razão acionou os interruptores. O outro piloto responde que não o fez. O relatório não especifica quem era o piloto e quem era o copiloto no diálogo.
Segundos depois, os interruptores do Boeing 787 Dreamliner foram acionados no sentido inverso para voltar a ligar o abastecimento de combustível. Ambos os motores conseguiram reacender-se e um deles começou a “progredir para a recuperação”, segundo o relatório, mas era demasiado tarde para travar a descida angustiante do avião.
O relatório revela a razão fundamental pela qual o jato se despenhou, mas há ainda muitas dúvidas por explicar.
De RUN para CUTOFF - mas como?
As conclusões do relatório não esclarecem como é que os interruptores de combustível foram colocados na posição de corte durante o voo, se foi deliberado, acidental ou se foi uma falha técnica.
Nos 787 Dreamliners da Boeing, os interruptores de combustível encontram-se entre os dois assentos dos pilotos, imediatamente atrás das alavancas de aceleração do avião. Estão protegidos lateralmente por uma barra de metal.
Os interruptores requerem que um operador levante fisicamente o manípulo do interruptor para cima e sobre um detentor - um fecho - uma vez que foram deliberadamente concebidos para não poderem ser derrubados acidentalmente.
Geoffrey Dell, um especialista em segurança aérea que conduziu várias investigações de acidentes aéreos, considera difícil perceber como é que ambos os interruptores podem ter sido acionados por engano.
“É, pelo menos, um processo de duas ações para cada um deles”, explica à CNN. "É preciso puxar o interruptor na nossa direção e depois empurrá-lo para baixo. Não é o tipo de coisa que se possa fazer inadvertidamente".
Segundo Geoffrey Dell, seria “bizarro” que um piloto cortasse deliberadamente o combustível de ambos os motores imediatamente após a descolagem.
Não há “nenhum cenário no planeta em que se faça isso imediatamente após a descolagem”, garante.
Apontando para o facto de ambos os interruptores dos motores terem sido acionados com um segundo de diferença, Dell observa: “É o tipo de coisa que se faz quando se estaciona o avião no fim do voo... Liga-se ao terminal e desligam-se os motores”.
Uma possibilidade que o relatório levanta está relacionada com um boletim de informação emitido pela Administração Federal de Aviação dos EUA em 2018 sobre “o potencial desbloqueio da funcionalidade de bloqueio do interruptor de controlo do combustível”. Mas, dado que esta não era considerada uma condição insegura, a Air India não realizou inspeções.
Geoffrey Dell assume que um gravador de dados de voo do avião deve ajudar a explicar como é que os interruptores de combustível foram ativados em cada caso. No entanto, a AAIB da Índia não divulgou a transcrição completa da conversa entre os dois pilotos. Sem ela, o especialista diz que é difícil entender o que aconteceu.
O ex-piloto Ehsan Khalid também considera que as conclusões do relatório levantam questões sobre a posição dos interruptores vitais de combustível do motor, o que, segundo ele, deve ser esclarecido pelos investigadores.
Em declarações à Reuters, Ehsan Khalid alerta para o facto de não se poder atribuir a culpa aos pilotos. “O relatório da AAIB, para mim, só é conclusivo para dizer que o acidente aconteceu porque ambos os motores perderam potência”.
Os pilotos sabiam que os motores do avião tinham perdido a potência e também sabiam que não tinham feito nada para provocar o acidente", acrescenta.
O relatório completo só deverá ser apresentado dentro de meses e o ministro da Aviação Civil da Índia, Ram Mohan Naidu, apela para que não se tirem “conclusões precipitadas nesta fase”.
O avião da Air India descolou do Aeroporto Internacional Sardar Vallabhbhai Patel, em Ahmedabad, no Estado de Gujarat, no oeste da Índia, a 12 de junho, com destino a Londres Gatwick.
A Air India informou que 242 passageiros e membros da tripulação estavam a bordo. Entre eles, 169 cidadãos indianos, 53 britânicos, sete portugueses e um canadiano. Todas as pessoas a bordo morreram, com exceção de um passageiro.
As 19 pessoas que se encontravam em terra morreram quando o avião se despenhou contra a residência do BJ Medical College and Hospital.
A Air India confirmou entretanto que recebeu o relatório e garante que continuará a cooperar com as autoridades na investigação.
