Atriz brasileira e o realizador Walter Salles em entrevista exclusiva
"Nossa, que saudades de Lisboa", diz Fernanda Torres no final da entrevista conjunta com Walter Salles a partir de Nova Iorque. A atriz tem casa na capital portuguesa, mas não tem planos para voltar tão cedo porque, por agora, a prioridade é dar a maior visibilidade possível ao filme que lhe valeu o Globo de Ouro de Melhor Atriz Dramática. “Ainda Estou Aqui” soma aplausos desde a estreia mundial no Festival de Veneza, acaba de ser nomeado para o Bafta de Melhor Filme em Língua Não Inglesa e está pré-nomeado para o Óscar de Melhor Filme Internacional. A uma semana do anúncio da Academia de Hollywood, a humildade é maior que a expectativa, até porque o foco está nas salas. O realizador lembra que o filme lhes deu “a volta do público ao cinema no Brasil e outros lugares” e garante que esse é o maior prémio de todos, “aconteça o que acontecer”. A protagonista sublinha o exemplo da família Paiva na história da ditadura militar no Brasil, porque “ajuda o não esquecimento do que significa viver num país que suspende os direitos civis” e lembra que o livro que deu origem ao filme foi escrito numa altura em que “o país começava a dar sinais de querer reescrever a ditadura, de dizer que aquilo tinha sido um tempo bom”. Mas não foi.
Antes de mais, como é ser a primeira atriz brasileira a ganhar um Globo de Ouro?
FT: Parece que eu ganhei a Copa do Mundo no Brasil! Estou me sentindo um jogador de futebol (risos), mas é um feito incrível realmente porque é um filme falado em português, a nossa língua, a nossa pátria, e no meio de todos os outros concorrentes, filmes falados em inglês com grandes performances, grandes atrizes, atrizes maduras – o que diz também muito sobre a abertura da indústria cinematográfica… Eu acho que quem ganhou esse prémio se chama Eunice Paiva. Ela é a mulher que moveu esse filme e que moveu pessoas e que me fez subir naquele palco. No fundo, é um prémio dado a Eunice Paiva.
No momento do obrigado, referiu o percurso da sua mãe. O facto de ela também participar neste filme é simbólico, é irónico, é especial, 25 anos depois de “Central do Brasil”?
FT: Eu, o Walter e a mamãe somos uma família de Cinema. Eu e o Walter estivemos juntos a filmar em Lisboa o “Terra Estrangeira”, um filme que acho que está na base da formação do Walter como diretor. Depois, ele fez o “Central” e é uma história muito linda que a vida nos tenha reunido nesse filme, não é, Walter?
WS: Sim, é um filme também sobre a questão da transmissão. Você vê a transmissão na família do filme, a família Paiva, a família de Eunice. Também é um filme sobre a transmissão na representação porque você vê tanto a Nanda como a Dona Fernanda fazendo o mesmo papel. Há um entrelaçamento entre aquilo que é de ordem ficcional e aquilo que a vida traz e isso foi, na filmagem para a gente, um momento muito forte, filmar com Nanda e logo depois com Dona Fernanda.
E como é para si adaptar ao cinema a história verídica deste livro que acaba de ser lançado em Portugal (edição Dom Quixote) e do qual também foi uma testemunha, porque frequentou aquela casa, conheceu aquela família, nos anos 70?
WS: Quando tinha 13, 14 anos de idade, num momento difícil da história do Brasil porque estávamos sob a ditadura militar, eu tive a possibilidade de conhecer essa família pela qual me apaixonei. Uma família composta por sete pessoas, cinco jovens, pai e mãe, com todos os seus amigos. Eles eram outro país. A vida naquela casa representava exatamente tudo aquilo que era negado fora daquela casa. Esse livro que acaba de mostrar é a porta de entrada no filme. O Marcelo Rubens Paiva reconstrói a história da sua família e, ao mesmo tempo, oferece a possibilidade de reconstruir a memória do Brasil e esse entrelaçamento entre a história pessoal da família e a história coletiva do país é que me fez abraçar o filme. Foram sete anos para a gente estar conversando hoje. Foi um projeto de muito longa gestação e fico feliz que ele esteja ecoando, que as pessoas se reconheçam nessa história.
Quando o filme começou a ganhar forma, quando os dois começaram a falar sobre ele, alguma vez imaginaram que pudesse chegar tão longe, que tivesse tanto impacto internacional e também no Brasil?
FT: Eu, particularmente, não acredito em projetos que começam para atingir o universo e além. Eu acho que todo o projeto bom nasce de um microcosmo, de um trabalho de formiga dentro do set. Nós realmente trabalhámos assim. Aquela casa foi o nosso ninho, foi o nosso formigueiro. A gente nunca trabalhou pensando: “Daqui a tantos anos, vamos estar no Óscar!” Não acredito em trabalhos que trabalham para isso. Só acredito em trabalhos que trabalham para dentro, que costuram para dentro e esse foi um deles.
WS: Uma amiga nossa disse, outro dia, que a definição de um filme independente é um filme que quase não foi feito e foi o caso aqui. A gente fez um filme que imaginava fazer da forma mais orgânica e mais honesta possível. O que aconteceu e está acontecendo com o filme e o facto de ser abraçado em tantos lugares é uma extensão desse gesto, eu acho. Concordo totalmente com o que a Fernanda disse.
Neste caso, contar no Cinema esta história é também uma forma de lembrar que a ditadura no Brasil, de certa forma, continua impune?
FT: Quero lembrar que esse filme é baseado no livro do Marcelo que foi escrito porque a Eunice, a mãe dele, estava começando a dar sinais de Alzheimer e ele viu que ela ia esquecer a história dela. Ao mesmo tempo em que o país começava a dar sinais de querer reescrever a ditadura, de dizer que aquilo tinha sido um tempo bom, por pessoas saudosistas da ditadura militar. O Marcelo se viu obrigado a escrever esse livro para preservar a memória da mãe e para lembrar o país o que significa. O bonito desse filme é que, numa hora de esquecimento como essa, por se tratar de uma família, ele conseguiu vencer as bolhas. Ele conseguiu vencer o estado binário de que ou você está de um lado ou você está do outro. Houve uma espécie de empatia em relação àquela família, de jovens com os jovens da família, das mães com a mãe da família, dos pais com o pai da família…. Houve uma espécie de compreensão do que significa viver num país onde os direitos civis são suspensos e onde a polícia pode entrar na tua casa a qualquer hora e levar quem quiser, do sentimento de horror que é aquilo, de não apenas de aprender isso num livro de história, mas aprender – que é o que a arte faz – através de um sentimento. É um filme muito importante. Eu acho que ajuda o não esquecimento do que significa viver num país que suspende os direitos civis.
Walter, mesmo sem Globo de Ouro, preparado para a nomeação para o Óscar de Melhor Filme Internacional?
WS: Como a Fernanda diz, eu torço pelo Botafogo, no Brasil, e isso me faz um pessimista convicto. Eu acho que um otimista é sempre alguém que está passivamente mal informado.
Fernanda, depois do Globo de Ouro, preparada para a nomeação para o Óscar de Melhor Atriz?
FT: Eu não sou botafoguense, mas sou criada para não ter expectativa. Eu odeio ter expectativa! Esse filme já nos deu tanta coisa que eu não tenho o direito de exigir mais nada dele. (risos) A coisa mais triste é ter uma história linda como a desse filme e no final… ah. Não pode! Eu estou encantada com onde esse filme nos levou, ele já deu muito mais do que poderia nos dar, não é, Walter?
WS: Ele nos deu a volta do público ao cinema no Brasil e outros lugares, mas no Brasil sobretudo porque vimos de quatro anos muito difíceis no cinema brasileiro, de silêncio no cinema brasileiro durante o governo Bolsonaro, e também por causa da pandemia. Não sabíamos se o público iria voltar e o público não só voltou, como voltou em massa com gerações diferentes. Acho que esse é o nosso maior prémio. Aconteça o que acontecer, esse será o nosso maior prémio sempre.
Aconteça o que acontecer, como também vemos no filme, sorrir sempre… porque a esperança é a última a morrer?
WS: Totalmente.
FT: Sorrir é um ato de resistência muito saudável.
“Ainda Estou Aqui” chega esta quinta-feira a 51 salas de todo o país.