Esta é a primeira vez que o Brasil ganha o Óscar de Melhor Filme internacional. O realizador Walter Salles dedicou o prémio a Eunice Paiva, protagonista de "Ainda Estou Aqui", e às duas atrizes, Fernanda Torres e Fernanda Montenegro, que a interpretam
O filme brasileiro "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles, ganhou o Óscar de Melhor Filme Internacional. O realizador subiu ao palco do Dolby Theater, em Los Angeles, e pôs os óculos na ponta do nariz para dizer o curto discurso em inglês: dedicou este prémio a "uma mulher que, depois de uma perda sofrida durante um regime autoritário, decidiu não se vergar, mas resistir". Essa mulher é Eunice Paiva. E Salles dedicou o Óscar também às duas "mulheres extraordinárias" que lhe dão vida na tela, Fernanda Torres e Fernanda Montenegro.
"Ainda Estou Aqui" acompanha Eunice Paiva (Fernanda Torres) e os seus cinco filhos após o desaparecimento do marido, o ex-deputado Rubens Paiva (Selton Mello), depois de ter sido interrogado pela polícia durante a ditadura militar. Trata-se de uma história verdadeira que foi contada em livro pelo filho mais novo do casal, Marcelo Rubens Paiva.
Os outros nomeados eram: "Emilia Pérez", de Jacques Audiard (França), "A Rapariga da Agulha", de Magnus von Horn (Dinamarca), "Flow", de Gints Zilbalodis (Letónia) e "A Semente do Figo Sagrado", de Mohammad Rasoulof (Alemanha).
O filme protagonizado por Fernanda Torres e Selton Mello partia para esta corrida como um dos grandes favoritos, especialmente depois dos muitos problemas na promoção de "Emilia Pérez". E é mesmo uma enorme conquista: apesar de já ter estado nomeado quatro vezes - "O Pagador de Promessas" (1963), "O Quatrilho" (1996), "O Que É Isso, Companheiro?" (1998) e "Central do Brasil" (1999) - esta é a primeira vez que o Brasil ganha o Óscar de Melhor Filme Internacional.
Mas este não é o primeiro filme falado em língua portuguesa a ganhar este Óscar. Em 1960, "Orfeu Negro", com realização de Marcel Camus, uma produção franco-italo-brasileira ganhou o Óscar em representação da França. Isto, apesar de a história ser inspirada numa peça de Vinicius de Morais, de o filme ter sido rodado no Rio de Janeiro, de quase todos os atores serem brasileiros e de contar com músicas de Tom Jobim, Luis Bonfá e Vinicius.
Desta vez, a estatueta dourada vai mesmo para o Brasil. "Ainda Estou Aqui" esteve também nomeado nas categorias de Melhor Atriz e de Melhor Filme - foi a primeira vez que um filme brasileiro conseguiu estar nomeado na categoria principal e Fernanda Torres foi apenas a segunda atriz brasileira nomeada, depois da sua mãe, Fernanda Montenegro.
"Ainda Estou Aqui" estreou no Festival de Veneza do ano passado onde foi aplaudido durante mais de dez minutos e ganhou o prémio de melhor argumento. Depois começou a aparecer nas listas de melhores filmes do ano de vários críticos e esteve nomeado para os Globos de Ouro, onde, com grande surpresa, Fernanda Torres ganhou o globo para melhor atriz num filme dramático - e foi a primeira brasileira a consegui-lo.
De então para cá, o filme teve cada vez mais projeção. A produção arrecadou mais de 25 milhões de euros em todo o mundo, incluindo mais de 2,9 milhões em apenas um mês de exibição nos EUA, onde ainda está em cartaz.
