Aida Sigharian saiu do Irão para estudar piano, imaginando que um dia voltaria a Teerão para abrir uma escola de artes. Ficou na Europa, fez do Porto casa, mas entretanto regressou ao seu país para dar um concerto; quando voltou ao Porto, confrontou-se com a culpa de quem respira liberdade fora do Irão. Chora quando se lembra de Teerão mas diz sem solenidade que ser iraniana “é ser revolucionária”: “O mundo tem de saber que as mulheres iranianas são muito fortes”
Há países que passam a caber, injustamente, dentro das imagens do poder que os oprime. No caso do Irão, demasiadas vezes, o mundo vê primeiro os aiatolas, a polícia da moralidade, o véu obrigatório, as prisões, as execuções, a guerra, os comunicados, os mapas, as ameaças. Só depois, se houver tempo e atenção, aparecem a Pérsia, a poesia, a música, o cinema, a língua, os desertos, as histórias antigas, a hospitalidade, as casas onde uma mãe entra na sala e todos se levantam.
Aida Sigharian nasceu em Teerão, começou a estudar piano aos seis anos e saiu do Irão em 2001 para continuar a formação na Holanda, antes de se fixar em Portugal. Vive no Porto, trabalha ligada à música e à comunidade iraniana e foi uma das vozes que, depois da morte de Mahsa Amini e do movimento Mulher, Vida, Liberdade, ajudaram a dar corpo à Associação Iraniana Mithra, criada para juntar, proteger e mostrar uma cultura que o regime tenta reduzir ou apagar.
Nesta entrevista à CNN Portugal, feita para também ouvir no podcast Fúria Épica, a pianista não fala do Irão como quem comenta apenas uma notícia. Fala como quem tem a casa, a infância, a mãe, os amigos, os professores, as ruas de Teerão e uma parte do corpo ainda lá. Chora quando se lembra da cidade. Ri-se quando procura uma palavra em português. Volta muitas vezes à ideia de que a cultura iraniana tem uma bagagem antiga, pesada, resistente. E talvez por isso diga, sem solenidade, que ser iraniana “é ser revolucionária”.
A entrevista aconteceu num dia em que a guerra voltou a mudar de forma. Donald Trump anunciava uma pausa na operação norte-americana “Project Freedom”, falava de progressos nas negociações com Teerão e, ao mesmo tempo, mantinha a ameaça de novos bombardeamentos se não houvesse acordo. Estados Unidos e Irão pareciam aproximar-se de um memorando de 14 pontos para tentar acabar com a guerra e abrir uma nova fase negocial. As mensagens passavam também pelo Paquistão, mas Teerão ainda não tinha dado resposta formal à proposta norte-americana.
Aida não fala de Trump como quem espera um salvador. Também não fala da guerra como quem esquece o regime. Entre a possibilidade de uma oportunidade e o medo de mais destruição, há uma frase que atravessa a conversa: “A esperança é nossa”. A esperança de que o Irão fique bem, “agora ou daqui a 50 anos”. A esperança de que, quando a República Islâmica acabar, por dentro ou por fora, por colapso, transição ou outra forma ainda sem nome, reste uma cultura inteira para regressar a si própria.
Antes disso, há o piano. Há a menina que entrou no Conservatório de Música de Teerão e descobriu que até a arte tinha de pedir licença. Há a mulher que tocou com lenço e casaco, mais concentrada no corpo do que no som. Há a ativista que viu em Mahsa Amini o momento em que o país deixou de aceitar pequenas sobrevivências e passou a pedir mudança. Há a iraniana que, ao sentir o vento no cabelo numa praia portuguesa, se sentiu culpada pelas mulheres que ficaram.
Aida Sigharian escolheu Chopin para terminar a entrevista. Não uma música iraniana, como chegou a pensar que teria de ser. Chopin. Porque a música é universal. E porque, naquele instante, a palavra que encontra para explicar a escolha é uma só. “Melancolia.”
Aida, antes de falarmos da República Islâmica atual, da situação atual, da repressão, da guerra, que Irão é que tu gostavas que se devolvesse mais à conversa? O da música, que é a tua área, o da poesia, do cinema, da língua persa? Que Irão é que tu gostavas que as pessoas conhecessem mais e de que falassem mais, além deste Irão atual e das últimas largas décadas, que é o Irão deste regime, não é?
Por acaso é de todos. De todos os que mencionaste. Acho que, em geral, nós, iranianos, temos orgulho, muito orgulho na nossa cultura. E há muitas coisas, acho que ricas e interessantes, que são desconhecidas pelo mundo, infelizmente. E eu agora estou há 24 anos fora do Irão. Vivi mais fora do que dentro do Irão, por acaso [risos]. E acho isso uma pena.
Agora vou dizer isto: uma vez fui visitar o Japão. É um sítio muito bonito e eles, em cada canto, em cada centro histórico, estão a promover as histórias deles, outras coisas. E todos os turistas ficam assim: “Uau, uau, o que é isto?” E eu vi também que nós temos tantas histórias antigas, lendas, música, poesia, tantas coisas. E talvez não estejam na moda, ou por causa do regime ninguém as conhece. E acho que é uma pena. Infelizmente, as notícias são sempre sobre o regime e têm imagens do regime, destes aiatolas e tudo isso.
Mas aquilo de que eu gostaria, pessoalmente, era de falar de histórias antigas. Não são só lendas que temos. Há música. E também acho que os iranianos são muito hospitaleiros. Têm muitas coisas interessantes culturalmente entre eles, na sociedade. Acho que são hábitos interessantes. São esses pormenores... [pausa] Desculpa, ainda é um pouco cedo para o português [risos]. Ainda não tomei café.
Disseste que já estás há mais anos fora do Irão do que no Irão. Quando olhas, por exemplo, para essa tua infância em Teerão, qual é a primeira memória que te aparece? É a de casa? É música, se calhar? Ou é já de algum tipo de proibição? Ou quando se é criança não se percebe que há proibições?
Agora, quando dás opções, passam-me todas as imagens de tudo. Aquilo de que tenho mais saudades são as ruas [chora]. Desculpa.
Estás à vontade.
Tenho mesmo saudades de Teerão. Agora já são sete anos. Desde 2019 que não vou.
E, sim, as primeiras memórias que tenho são da infância, da escola primária, da nossa casa e da proximidade da família também. Acho que todos os iranianos, especialmente antigamente, eram muito mais próximos e temos um convívio forte. É parecido com a cultura portuguesa também, em que a família é muito importante.
Por isso, nos últimos anos, isso ficou mais importante, talvez porque eu cheguei a ter uma noção mais forte de que existia e de como foi. Acho que é por causa da vida, da idade e também das notícias. Tu ficas mais consciente do que está a acontecer e do que está a acontecer comigo e connosco todos.
Mas eu, pessoalmente, tenho mais memórias... Não tenho memórias de repressão, por acaso. Tenho, tenho. Mas as primeiras coisas de que me lembro são as ruas, a nossa escola, o Conservatório de Música, que por acaso foi um sítio muito especial. E acho que é por isso que eu sou um pouco livre. Foi um pouco à parte de tudo.
Porquê?
Talvez porque a música, até as nossas professoras, eram diferentes. Cada escola no Irão tem uma coisa que se chama professor disciplinário. É alguém que parece a polícia da moralidade, sabes? Está lá só para controlar o que se está a passar e o que não está a passar. Todas as escolas têm isso. Mas, na nossa escola, eram diferentes. Existiam, mas eram pessoas também muito livres e deixavam-nos ser.
Disseste que, apesar de não serem as primeiras memórias que te ocorrem, já tinhas alguma memória do regime ou de algum tipo de repressão. Se não era no conservatório, era onde?
Era na primária. Especialmente nestes dias, em que agora estamos a falar sobre o Irão, lembro-me mais disso. Isto não aconteceu à outra geração, mas aconteceu à minha. Foi depois da guerra. Fomos para a escola primária e eles estavam a tentar — porque tinha sido a revolução, depois a guerra — controlar tudo. E lembro-me de que, na escola, no primeiro ano, nos primeiros dias, eles mostravam garrafas de álcool e perguntavam: 'Alguém já viu isto em casa? Dentro de casa?' Os nossos pais prepararam-nos para não dizermos que tínhamos álcool, para não dizermos que tínhamos vídeos, filmes de Hollywood e essas coisas. São agora memórias que tenho disso, de repressão.
Tu começaste a estudar piano ainda em criança, num país em que a música nunca foi apenas música, foi algo realmente importante. E em que ser mulher também, infelizmente, nunca foi ser mulher de uma forma totalmente livre. Em que momento é que tu percebeste que tocar também podia ser uma forma, se tu quiseres, de desobediência?
Por acaso foi dentro da nossa casa, por causa da minha mãe. Eu comecei com seis ou sete anos, acho que com seis anos, com a música e logo com piano. Depois, com o conservatório, o sistema é como aqui: a partir dos 11 anos entramos no conservatório. Toda a gente perguntava aos nossos pais: 'Porque é que a deixaram ir para a música?' E a minha mãe respondia sempre isto: 'Porque a música é nadar contra...' Como se chama?
Corrente.
Corrente, sim [risos]. E por causa disso, agora, ela sempre diz 'mas porque é que tu agora és ativista?'. E eu digo 'mas foste tu, foste tu que me ensinaste, que me direcionaste para este caminho'. Por isso, sim, foi mesmo a minha mãe que respondia a toda a gente que estudar música, ou tocar um instrumento, é nadar contra a corrente.
Achas que isso era só um conselho de mãe, como já todos recebemos? Ou era já um aviso político? Ou eram as duas coisas ao mesmo tempo, se calhar? Estava já a preparar-te para alguma coisa?
Não. Acho que só não queria que nós ficássemos com lavagem cerebral. Queria preparar-nos. Lembro-me de que, no primeiro ano, tínhamos aulas de religião também. E lembro-me de que entrei em discussão com a professora. Porque ela estava a dizer que temos de ter medo de Deus. E eu perguntei: 'Mas se está a dizer que Deus é muito amável, generoso e simpático, porque temos de ter medo d’Ele?' Ela ficou muito zangada comigo porque eu estava a perguntar e não fiquei satisfeita com a resposta dela. Fui para casa e perguntei: 'Mãe, porque é que temos de ter medo de Deus?' E ela olhou para mim e perguntou porque é que eu perguntei. E ela disse-me: 'Olha, vão dizer-te muitas coisas na escola. Eu não te vou dizer nada porque depois vais ouvir coisas diferentes. Tu vais crescer e vais saber'.
Acho que ela não queria que eu ficasse ativista ou que ficasse contra o regime, porque eles sabem que isso também é perigoso e nunca quiseram isso. Acho que eles próprios já estavam assim, já estavam contra o regime e não queriam perder os filhos para estar do outro lado [risos].
Há uma imagem muito concreta no teu percurso, da qual já falaste, que é uma pianista em palco, concentrada na música, mas também no lenço, no casaco, no corpo, no olhar dos outros. O que é que um regime tira a um artista quando entra assim em palco, em que tem de pensar na música mas também na forma como aparenta estar?
Vou contar várias histórias. Lembro-me de que quando entrei no conservatório... E o que é estranho é que o conservatório é uma escola mas não faz parte do Ministério da Educação. Faz parte de outro Ministério, que é o ministério que normalmente dá autorizações a artistas para trabalhar. Se tu queres organizar concertos, teatro, publicar um livro, tens de pedir autorização. E a autorização não é por causa dos direitos, é para ver se tudo está dentro daquilo em que tem de estar, deve estar. E a nossa escola pertencia a este Ministério.
Lembro-me, logo no primeiro ano, de que Khamenei deu uma fatwa [decreto religioso] que dizia que a música era proibida, que a música era haram [proibida pela lei religiosa]. Ficámos todos preocupados porque pensámos 'agora vão fechar a escola'. E lembro-me de que alguém chegou do Ministério para fazer um discurso e disse: 'Não, não. Ele estava a falar sobre a música má e coisas más. Mas nós queremos sempre que vocês cantem o hino do Irão e essas coisas para nós'.
Outra coisa é que a nossa escola estava em frente a uma sala grande, a sala mais importante de Teerão, Talar Vahdat. Quando entrávamos nesta sala — e eu já toquei várias vezes nessa sala — tínhamos de nos tapar muito bem. Noutras salas não era assim tão rigoroso. Mas nessa sala não podias dar a mão a outro homem, tinhas de ter cuidado com a relação com os teus colegas homens.
E também me lembro de estar a tocar piano e, antes, estar ocupada a pensar '0 que é que eu vou fazer?'. Porque também já tinha vivido fora do Irão e não tenho o hábito de tocar com lenço. Mas lá é perigoso. Eu também não queria criar um problema ao organizador, ao professor que organizou tudo isso, que convidou uma pianista que agora está a cair. E estava sempre sozinha no palco. Lembro-me da última vez que toquei e pensei 'é difícil tocar aqui porque não estou concentrada no meu ato, no que tenho de fazer, estou a pensar se estou bem, se estou a fazer bem aquilo que interessa'.
Eles sabem muito bem. Até tenho vergonha de ter chegado a esta conclusão tão tarde na vida [risos]. Eles já sabiam, já tinham organizado. Eles sabiam que a arte é muito forte. É uma maneira, é uma luta muito forte. Logo desde o início tentaram barrar e controlar.
Lembro-me — eu ainda não ia à escola mas ouvi esta história — de que, no início da Revolução, partiram instrumentos em frente ao edifício da rádio. A orquestra da rádio tinha ensaios e eles partiram os instrumentos. A partir daí começaram a controlar livros, artistas. A música ficou proibida. Mostrar instrumentos ficou proibido. Ficou proibido mostrar instrumentos na televisão. É ridículo. A televisão passava música mas não mostrava a orquestra, não mostrava o instrumento, não mostrava o músico. São coisas ridículas. E isto diz tudo. Na televisão passam música mas não mostram a orquestra, não mostram o instrumento, não mostram o músico.
Também não é assim tão fechado. Mas sim... A dança não existe. Ninguém pode dançar. Acho que não está na lei mas não acontece. Depois, a mulher não pode cantar em público. Só pode cantar se estiver em grupo. Dessa maneira sim, elas podem. Mas depois as pessoas arranjam sempre maneira: põem duas ou três pessoas no palco, parece que estão a cantar mas no fim é só uma pessoa que está a cantar. Sabes? As pessoas arranjam sempre maneira de continuar.
Tu saíste do Irão para estudar música, não necessariamente para praticar ativismo. Então a minha pergunta é: quando é que essa distância do Irão passou a ser também essa responsabilidade política e de ativista? Além do estudo e do trabalho enquanto pianista, obviamente. Foi logo ou ainda demorou uns anos?
Não, não foi logo. Quando saí gostei muito, como toda a gente, mas não queria sair para viver fora do Irão. Saí para voltar ao Irão. Tinha o sonho de construir a minha escola, a nossa escola de arte. Até falávamos com os nossos amigos, no conservatório, de ser numa zona mais de floresta, onde faríamos um espaço com teatro e tudo. Quando fui para Amesterdão foi mesmo isso. Tinha este sonho: vou estudar, tenho de ser muito boa, muito melhor, tenho de aprender tudo o que for possível e depois volto e fazemos.
Mas lembro-me de que, quando estava a acabar — ainda não tinha acabado, foi a altura de Ahmadinejad e começou o Movimento Verde — e eu pensei 'eu não posso ensinar'. Especialmente com a música clássica, eu não vou ensinar como é que se tem de tocar Mozart ou Beethoven a estes miúdos, quando eles têm de ver como se foge na rua, como se sobrevive nas ruas.
Mas depois também nunca pensei em ativismo. Foi mesmo com o movimento Mulher, Vida, Liberdade. Foi um movimento que falou comigo. Senti que estava relacionada, que entendia, e tinha orgulho no que estava a acontecer. Por isso, foi aí que tudo começou.
Depois da morte da Mahsa Amini e precisamente do movimento Mulher, Vida, Liberdade, o que é que mudou no Irão e também na diáspora iraniana, que é onde tu estás agora? O que mudou com a morte da Mahsa?
A morte da Mahsa foi um momento em que os iranianos disseram 'já chega!' [riso nervoso]. Porque antes tolerávamos. Íamos sempre arranjar uma maneira de sobreviver. Mas, depois de tolerarmos o regime e com a morte da Mahsa, e depois com os outros meninos que foram para a rua e continuaram, foi um momento em que pensámos 'nós queremos mudança'.
O Movimento Verde foi quando pensámos 'não conseguimos mudar o regime mas vamos fazer mudanças pouco a pouco'. Depois, com a morte da Mahsa, chegámos à conclusão de que não podemos. Não há melhoria neste regime. Tem mesmo de mudar. Foi isso que aconteceu connosco.
Eu prometi-te que falaríamos das mulheres e vamos falar, porque acho que é realmente importante. O regime iraniano controla as mulheres pelo cabelo, pela roupa, pela voz - como dissemos há pouco sobre o cantar -, até pela forma como se deslocam, como circulam e, sobretudo, pelo medo. Há medo de ser mulher no Irão. Mas depois, quando pensamos neste movimento, foram as mulheres que tornaram esta imagem de resistência mais forte. O que é que o mundo ainda não sabe e devia saber sobre as mulheres iranianas que estão lá? E culturalmente também, obviamente. Acho que falamos pouco delas e focamo-nos muito no regime e nos homens que estão fora, no exílio. Mas o que é que precisamos de saber sobre as mulheres iranianas?
Existe, dentro da sociedade, violência contra a mulher. Mas também acho que o mundo tem de saber que as mulheres iranianas são muito fortes. E também há muito respeito, dentro da sociedade. Não é que as coisas que eu disse não existam noutros sítios.
Quando imaginas um jantar em nossa casa, a minha mãe está a preparar, as pessoas estão sentadas à mesa, e quando a mãe entra na sala, porque tem alguma idade e é mulher, as pessoas levantam-se. Sabes? Há muitas coisas assim. Talvez sejam coisas que também podem parecer contraditórias, mas acho que há muito respeito pelas mulheres.
Isso é cultural, isso é anterior até ao próprio regime.
Sim, isso é dentro da sociedade. Mas, claro, existem muitas famílias ainda em que há violência doméstica ou que não deixam a mulher trabalhar. E há muitas coisas na lei: a mulher não pode, sem autorização do marido ou do pai, trabalhar, não se pode divorciar, não se pode casar, não pode sair do país, não pode ter passaporte. Tudo é com autorização.
Quando uma mulher iraniana no Irão — e nós vamos encontrando por vezes relatos disso, quando é possível ter esses relatos — tira o véu ou canta e dança em público, e simplesmente se recusa a obedecer àquilo que lhe querem impor, o que é que isso te faz sentir? Eu sei que é um pequeno gesto, é um gesto individual, mas depois a verdade é que se amplifica e parece que vai começar uma pequena revolução, que depois obviamente é travada pela repressão. Mas quando vês à distância mulheres iranianas, muitas delas muito jovens, muitas delas artistas também, a terem estes pequenos gestos de revolução, o que é que isso te faz sentir?
Não sei porquê, mas nós, fora, sentimos um pouco de culpa. Ou sentimos… Culpa, não. Sentimo-nos mal, porque eu estou agora a viver bem, tenho a minha liberdade, mas tenho a minha família, os meus amigos dentro do Irão, que ainda vivem naquele sistema.
Lembro-me de que, na última vez que saí mesmo do Irão, tinha tido um concerto. Quando voltei ao Porto, estava bom tempo aqui, fui à praia e, logo quando senti o vento no meu cabelo, senti-me culpada, sabes? 'Eu estou a sentir-me bem aqui, mas elas não.'
Mas, por acaso, depois do Mulher, Vida, Liberdade, agora as mulheres não têm véu. Toda a gente anda com o cabelo solto e com o que quer vestir. Acho que estes pequenos gestos são mesmo para relembrar o que está a acontecer no Irão, só para tentar ser voz de alguém dentro do Irão. Tudo o que é esta diáspora, com manifestações, tantas manifestações semanais que fazem.
Tu estás no Porto. A partir do Porto, como é que viveste as últimas semanas, até meses, da situação no Irão? Naturalmente que acompanhas há vários anos a situação do regime, mas esta situação de guerra... Como é que, a partir do Porto, à distância, com amigos lá, com a família lá, acompanhas o Irão de hoje?
Uffff, é muito difícil. Muito difícil, por acaso. Não sei como vou trabalhar, como estou a fazer a minha vida com isto na cabeça. Parece perder a tua mãe. E a verdade é que nós não aprendemos exatamente o que é o país, o que significa para nós. E agora estou a entender. É muito forte. É mesmo como perder a tua mãe [chora].
Inicialmente, posso dizer, tinha alguma esperança de que talvez fosse uma oportunidade. Não pensei que Trump nos iria salvar, mas pensei que talvez pudesse ser uma oportunidade para fazermos alguma coisa. Mas depois… Eu não penso como outros. Não concordo que ele possa destruir tudo. Destruir tudo, não, mas como se chamam aquelas… infraestruturas?
As centrais elétricas, as pontes.
Sim. Porque há muitas coisas para construir. Já temos construído ainda mais. Não sei em que fase vamos continuar. Não sou muito positiva em relação ao Trump. Acho que ele tem os planos dele. Por isso, é muito difícil... [chora novamente]
Eu não pensei que ia ficar assim tão emocionada.
O que digo sempre, pelo menos a mim e também aos outros, é que a esperança é nossa e não a podem tirar de nós. Estes meses, por causa da esperança, foi sempre acima, abaixo, acima, abaixo. O que tenho a certeza é que um dia o Irão vai ficar bem. Se vai ser agora ou daqui a 50 anos, não sei. Mas, como a vida mostrou, tudo vai acima e abaixo. Quando estás em baixo, tens de saber que haverá um momento em que vai subir.
Acho que a cultura iraniana tem uma bagagem muito forte para conseguir, porque nós não somos pessoas que desistam. Por acaso, estava a ouvir um podcast sobre desertos no Irão. Era sobre um homem inglês que, acho, há 70 ou 80 anos foi ao Irão pesquisar sobre desertos. E ele escreveu que nunca tinha visto um povo que estava a sonhar com o passado, que estava a viver anos atrás. E eu pensei 'sim, somos mesmo nós'. Por isso, acho que nós temos uma bagagem para ter esta esperança. Nós vamos sobreviver e vamos conseguir um dia. Eles não vão conseguir continuar durante anos e anos.
Isso que tu disseste é muito bonito, essa ideia de viver muito a pensar no passado, porque isso também é uma coisa muito portuguesa. E é isso que me leva à Associação Iraniana Mithra. O que é que se tenta fazer no Porto com essa associação? É juntar a comunidade? Também é proteger essa memória? Ou é, se calhar, também explicar o Irão aos portugueses? O que é que tentam fazer com a associação no Porto?
Exatamente o que disseste. Inicialmente, foi depois do Mulher, Vida, Liberdade. Nós éramos todos ativistas. Mas depois pensámos em abrir uma associação cultural e não fazer atos políticos. Não combinar, não misturar. Por várias razões. Uma foi porque muitos iranianos têm medo aqui, têm medo da embaixada, não querem ficar expostos.
E há família no Irão.
Sim, sim. Também por causa deles. Porque, se eles sabem que tu vais ao Irão, logo no aeroporto prendem-te. Já fizeram isso. Outra coisa: eu queria mesmo tentar unir-nos. Porque o regime sempre tentou… Eles são muito espertos. Não é só controlar, mas também dividir-nos. Eles têm sempre alguma propaganda e põem-nos uns contra os outros.
Como é que se faz isso?
Sim, eles têm ciberataques, é isso. Dão uma notícia que não é importante e, de repente, toda a gente fica 'ah, o que está a acontecer?' Mesmo agora: guerra, não à guerra. As pessoas estão a lutar. 'Ah, tu dizes não à guerra? Não queres guerra? Tu és inimigo. Não, tu és inimigo.' Sabes? E esquecemo-nos de que, não, o inimigo é o regime. Não somos nós. Eles jogam sempre com essas coisas.
Sejas monarquista ou republicana - e mesmo as pessoas do regime também -, nós temos de conseguir estar juntos no momento em que vamos ouvir música iraniana ou vamos celebrar o Ano Novo, que é com a primavera. Depois cheguei a esta conclusão, depois do Mulher, Vida, Liberdade, e começámos com a associação. Reparei que, mesmo há 47 anos, o regime está sempre a proibir arte. Não é só dança.
Agora nós já não sabemos exatamente o que é, porque o Irão é um pouco como Espanha: tem muitas etnias diferentes e cada uma tem a sua música, o seu vestir, a sua dança. E nós já perdemos. Já não sabemos o que é dança iraniana. E a música também: não mostrar instrumentos, essas coisas. Já começa a ficar longe da cabeça.
E especialmente quando eles cortam a internet, cheguei mesmo a essa conclusão: isto é mesmo uma luta. Quando as coisas não acontecem dentro do Irão, por causa da covid, por causa da guerra, por causa das manifestações — cancelam, as pessoas cancelam concertos, ou não podem fazer teatro, essas coisas —, nós aqui estamos livres e temos poder. Somos artistas, conhecemo-nos uns aos outros. Temos de manter isso. Só para que um dia, quando o regime não existir, a cultura iraniana ainda exista em nós.
Quando tu tocas — a propósito do que estás a dizer — repertório iraniano, que eu sei que não é um repertório único, como tu dizes, é multicultural dentro de uma cultura, quando tocas compositores iranianos, quando trabalhas a língua farsi e estás a mostrar isso no exterior, no Porto, em Portugal, onde for, o que é que isso te faz sentir? Sentes que estás a preservar a tua cultura para lá daquilo que o regime quer esconder dela?
Sim. Alguns momentos, sim. Eu sou música clássica, felizmente ou infelizmente [risos]. Às vezes penso 'como é que nós chegámos a ser músicos clássicos?'.
Mas é o que eu disse: acho que o Irão tem histórias bonitas, tem muitas coisas para contar. E acho que é uma pena que o público não saiba. Por isso, quando faço, eu gostaria mesmo que eles conhecessem outras coisas também. Outras coisas novas, com as quais eu me relaciono. Claro que existem muitas outras coisas também, mas aquilo que eu posso transmitir são essas coisas.
Houve uma pergunta que eu fiz a outra pessoa com quem gostei muito de conversar, e que tu conheces, que é a Sanaz Zadegan. É uma pergunta que se calhar gostava de fazer a ti também, até porque acredito que a resposta possa ser diferente. O que é, para ti, ser iraniana hoje em dia? Uma iraniana que está fora do Irão. O que é, para ti, ser iraniana?
[riso nervoso] Ser iraniana é ser revolucionária. É isso.
Toda a gente pergunta 'desde quando é que reparaste na repressão?, desde quando?'. Desde o início. E não sou só eu. Há vários iranianos que dizem que não são políticos. Isso não é verdade. Todos somos políticos nestes assuntos, mesmo que queiramos ou não. Desde a infância, quando vais à escola, dizem 'vocês fazem isto?, fazem isto em casa?'. E tu aprendes em casa que, quando sais de casa, tens um comportamento diferente daquele que tens dentro de casa.
Por isso, acho que ser iraniano é ser revolucionário.
Vou fazer-te uma última pergunta, que eu sei que pode ser uma armadilha mas acredito que me vais responder. Para terminarmos esta conversa, que tem sido sobre o Irão mas também sobre as mulheres, sobre ti, sobre cultura, que música é que tu escolherias para fechar esta conversa?
Oh! [risos] Vais pôr no podcast? Tenho de pensar… [longa pausa] Hmmm... É estranho dizer Chopin?
Não. Porquê?
Porque estava a pensar que tinha de ser iraniana [risos].
A música é universal.
Sim. Pode ser um prelúdio de Chopin [riso tímido].
E o que é que achas que esta música, nesta altura em que estamos e naquilo que tu tens como esperança do futuro, representa?
Melancolia.