NOTA DO EDITOR: Call to Earth é uma série editorial da CNN dedicada a abordar os desafios ambientais que o nosso planeta enfrenta, juntamente com as respetivas soluções. A Iniciativa Perpetual Planet da Rolex estabeleceu uma parceria com a CNN para promover a sensibilização e a educação relativamente a questões fundamentais de sustentabilidade e inspirar ações positivas.
Caminhar por baixo de velhos postes de eletricidade nas estepes do Cazaquistão e encontrar aves mortas é uma visão demasiado comum. Corpos imóveis, patas queimadas, espalham-se pelo chão enquanto as linhas elétricas zumbem por cima.
É um destino infeliz para dezenas de milhares de aves todos os anos, estimam os especialistas. Mas, para uma delas, este problema tornou-se particularmente evidente.
A águia-das-estepes é um ícone cultural no país. Surge na bandeira nacional e figurava no antigo hino nacional. Esta enorme ave de rapina, com uma envergadura de até 2,6 metros, é uma presença constante nas vastas pradarias do Cazaquistão, e estima-se que 68% a 82% da população mundial migre de várias regiões de África, do Médio Oriente, do Sul e do Sudeste Asiático para este país da Ásia Central para nidificar. Compreensivelmente, muitos cazaques consideram-na um símbolo do seu país.
No entanto, a estepe transformou-se num campo de morte e contribuiu significativamente para o rápido declínio da águia. Cerca de 50% da população mundial desapareceu ao longo de três gerações (40 a 50 anos), segundo um relatório recente. Aquela que outrora era a grande ave de rapina mais comum do mundo está classificada como ameaçada desde 2015.
Uma das principais razões é a eletrocussão.
Na ausência de árvores, a águia pousa nos postes de eletricidade ou nas travessas para procurar alimento, observar a paisagem ou, ocasionalmente, fazer o ninho. Uma asa ou uma pena da cauda toca num fio elétrico sem isolamento a curta distância. Morte.
Linhas elétricas perigosas atravessam milhões de hectares das estepes cazaques. Dados do Ministério da Energia cazaque calculam que a rede se estende por mais de 80 mil quilómetros, embora esse valor seja “significativamente inferior à situação real”, podendo a extensão verdadeira rondar os 200 mil quilómetros, segundo Nurlan Ongarbayev, diretor executivo do grupo cazaque de defesa ambiental Biodiversity Research and Conservation Center (BRCC).
As eletrocussões aumentaram na década de 1970, quando a infraestrutura passou de postes e travessas de madeira para postes de betão com travessas de aço. As linhas elétricas de média tensão são o principal problema. O BRCC calcula que, por cada 10 quilómetros de linha elétrica de 6-10 kV, morrem anualmente nove aves de rapina no Cazaquistão.
É difícil quantificar exatamente quantas águias-das-estepes morrem eletrocutadas devido à dimensão das estepes e à falta de monitorização abrangente, afirmou Vera Voronova, diretora executiva da Association for the Conservation of Biodiversity of Kazakhstan (ACBK). Um estudo de 2008 estimou que o número anual de águias-das-estepes eletrocutadas poderia chegar às 29 mil, mas Voronova alertou que esse valor estará provavelmente desatualizado. Investigações mais recentes apontam para um número menor de mortes anuais — embora agora existam menos aves disponíveis para morrer, acrescentou.
Estima-se que restem 30 mil casais reprodutores em todo o mundo, afirmou Jenny Weston, responsável pelo programa de recuperação da espécie da Royal Society for the Protection of Birds, uma organização britânica de conservação da natureza.
Weston foi autora de um plano de ação global para a águia-das-estepes, publicado durante a Conferência das Partes (COP15) da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS), em março. No relatório, a redução das eletrocussões e das colisões com infraestruturas energéticas foi classificada como uma “alta prioridade”, juntamente com a redução dos envenenamentos não intencionais e do tráfico ilegal. Estas ameaças existem em toda a área de distribuição da águia, afirmou Weston.
Weston descreveu as estepes do Cazaquistão como o “reduto” da população reprodutora da águia, mas um reduto cada vez mais perigoso. Para além do risco de eletrocussão, as águias-das-estepes fazem principalmente os seus ninhos no chão, e “o Cazaquistão apresenta um elevado risco de aumento dos incêndios nas estepes devido às alterações climáticas”, afirmou.
Mas, apesar da dimensão do problema, prevenir as eletrocussões é relativamente simples.
Em 2013, Voronova realizou um projeto-piloto numa aldeia da região de Karaganda, onde tinham sido registados elevados números de águias mortas e frequentes cortes de eletricidade, afirmou.
O projeto-piloto instalou tubos de isolamento baratos em redor dos fios elétricos sob tensão, junto dos postes e das travessas das linhas elétricas que rodeavam a aldeia. Uma avaliação realizada seis meses depois concluiu que a medida tinha sido 99% eficaz na redução das eletrocussões. Na sua última visita à aldeia, em 2024, Voronova afirmou que os tubos de isolamento continuavam instalados.
“O isolamento corretivo pode ser incrivelmente eficaz”, afirmou Weston. A durabilidade pode ser um problema, “mas esperamos que dure tempo suficiente para sobreviver ao próprio poste”.
Weston apontou para projetos recentes na Mongólia e nos Balcãs como provas adicionais de que o isolamento funciona.
Na Mongólia, o falcão-sacre também tem sido eletrocutado em números significativos. Uma iniciativa apoiada pelo Mohamed Bin Zayed Raptor Conservation Fund (MBZRCF) instalou proteções em mais de 28 mil postes desde 2019. O Fundo, criado pelo presidente dos Emirados Árabes Unidos, afirmou que se tratava da maior implementação deste tipo e comunicou uma redução de 95% nas eletrocussões.
Nos Balcãs, os abutres-do-egito também enfrentam o risco de eletrocussão. Em 2017, a população ameaçada, que tinha diminuído para 70 casais na região, foi apoiada pelo projeto Egyptian Vulture New Life, uma iniciativa de várias instituições que isolou cerca de 500 postes junto dos ninhos na Bulgária e na Grécia e instalou dispositivos para afastar as aves. Em conjunto com outras medidas, incluindo um programa de reprodução, a população estabilizou.
“A primeira coisa que defenderíamos seria que os postes das infraestruturas energéticas fossem seguros desde o início”, afirmou Weston, “o que poupa muito trabalho a todos”.
A águia-das-estepes goza de proteção legal integral ao abrigo do código ambiental do Cazaquistão, e a sua captura, morte ou perturbação pode resultar em multas ou indemnizações. Existem, no entanto, zonas cinzentas, e as leis são difíceis de aplicar, segundo Ongarbayev.
“De acordo com a redação atual da lei, a responsabilidade pela exploração de linhas elétricas perigosas para as aves não constitui, na realidade, uma infração”, afirmou. Para que uma empresa possa ser responsabilizada, é necessário provar que uma ave morreu em resultado das atividades da empresa e que um inspetor governamental recebeu uma denúncia de uma parte interessada acompanhada de provas, explicou.
“Dada a enorme extensão das linhas elétricas, o reduzido número de funcionários da agência competente e as limitações orçamentais, a agência está, na prática, impossibilitada de investigar regularmente os casos de morte de aves nas linhas elétricas”, acrescentou Ongarbayev.
Numa declaração à CNN, Andrey Kim, vice-presidente do Comité das Florestas e da Vida Selvagem do Ministério da Ecologia e dos Recursos Naturais do Cazaquistão, afirmou que o ministério “reconhece a mortalidade das aves por eletrocussão e colisões com infraestruturas energéticas como uma questão importante de conservação”. Acrescentou que, nos últimos anos, o governo do país “tem vindo a reforçar consistentemente o seu quadro jurídico para reduzir os impactos das infraestruturas energéticas na vida selvagem”.
Kim apontou para alterações às leis de proteção da vida selvagem que entraram em vigor a 20 de agosto. Estas incluem requisitos legais destinados a prevenir a eletrocussão de aves em novas linhas elétricas e a modernizar ou reconstruir as linhas elétricas existentes.
A lei, afirmou, também permite a criação de legislação complementar para estabelecer requisitos técnicos relativos aos dispositivos de proteção das aves e determinar quais as linhas elétricas que representam um risco para as aves. “Isto criará um quadro regulamentar abrangente para a implementação de infraestruturas seguras para as aves em todo o Cazaquistão”, defendeu Kim.
Os dispositivos de proteção das aves são normalmente coberturas isolantes instaladas sobre partes dos postes, das travessas ou das linhas elétricas.
A CNN solicitou acesso ao documento legal completo. O ministério ainda não divulgou um calendário para a adaptação das linhas elétricas perigosas, nem está claro quem financiará a enorme tarefa.
Ainda assim, já existem indícios de que os proprietários das infraestruturas estão a tomar medidas positivas.
Empresas nacionais de transporte de gás e petróleo, um produtor de urânio e uma empresa regional de eletricidade equiparam parcialmente as suas linhas elétricas com dispositivos de proteção para aves, afirmou Ongarbayev. Voronova afirmou que a empresa ferroviária estatal Kazakhstan Temir Zholy e o Caspian Pipeline Consortium isolaram algumas das suas antigas linhas elétricas. E, em junho de 2025, a Kazakhstan Energy Grid Operating Company (KEGOC) assinou um memorando de entendimento com o MBZRCF, que prestará aconselhamento sobre soluções de infraestruturas “positivas para a natureza” destinadas às aves de rapina.
Voronova afirmou ter falado com a fabricante cazaque de dispositivos de proteção para aves AVIS, que lhe disse estar a processar “um número considerável de encomendas”.
Mas a proteção continua longe de ser abrangente e as aves continuam a morrer, com consequências que ultrapassam as fronteiras do Cazaquistão.
“Temos uma responsabilidade nacional”, afirmou Voronova, “de criar condições suficientes para que a espécie possa recuperar”.
