Dia Zero. Esta cidade conta os dias até que as torneiras sequem

CNN , Riaan Marais e Derek Van Dam. Fotografias de Samantha Reinders e Riaan Marais
25 jun, 12:00
Leonardo Matana, 69 anos, enche um recipiente de plástico com água numa torneira comunitária no município de Kwanobuhle, na África do Sul

Todos os dias, Morris Malambile enche o seu carrinho de mão com recipientes de plástico vazios e empurra-o de sua casa até à torneira mais próxima. É muito mais longe do que a caminhada habitual até ao lava-louças. Fica a pouco menos de um quilómetro e meio de distância. Mas não é a distância que o incomoda.

É a estrada esburacada - que passa entre as favelas compactas e a habitação social pintada de bege - que torna difícil equilibrar os recipientes cheios de 70 litros de água, no regresso.

“A nossa casa parece ser muito longe quando empurramos 70 quilos de água num carrinho de mão”, disse o morador de 49 anos do empobrecido município sul-africano de Kwanobuhle.

Em março, as torneiras deixaram de deitar água em algumas zonas de Kwanobuhle e, desde então, milhares de moradores dependem de uma única torneira comunitária para abastecer as suas casas com água potável. E o município é apenas um dos muitos na zona afetada da Baía de Nelson Mandela, na cidade de Gqeberha - anteriormente conhecida como Port Elizabeth - que dependem de um sistema de quatro barragens que têm vindo a secar gradualmente, nos últimos meses. Não tem havido suficiente chuva forte para reabastecê-las.

Há uma semana, uma barragem foi desativada quando os níveis desceram demasiado para extrair qualquer água e as tubagens estavam apenas a puxar lama. Outra barragem está a poucos dias de ficar vazia.

Agora, grande parte da cidade está em contagem decrescente para o “Dia Zero”, o dia em que todas as torneiras ficam sem água, quando nenhuma quantidade significativa de água pode ser extraída. Isso vai acontecer daqui a cerca de duas semanas, a menos que haja uma resposta célere das autoridades.

A região mais ampla do Cabo Oriental da África do Sul sofreu uma grave seca de vários anos entre 2015 e 2020, que devastou a economia local, especialmente o setor agrícola. Houve apenas um breve alívio antes de voltar ao estado de seca no final de 2021.

Como tantas das piores crises de recursos naturais do mundo, aqui, a grave escassez de água é uma combinação de má gestão e padrões climáticos distorcidos causados ​​pelas alterações climáticas provocadas pelo homem.

Morris Malambile diz que empurrar um carrinho de mão cheio de recipientes de água, todos os dias, é “cansativo”

Além disso, milhares de fugas em todo o sistema de distribuição de água fazem com que grande parte da água que sai das barragens possa nunca chegar às casas. A má manutenção, como uma bomba defeituosa numa conduta principal, só veio piorar a situação.

Isso deixou Malambile - que mora com a irmã e os quatro sobrinhos - sem alternativa a não ser andar de carrinho de mão pela cidade, todos os dias, nos últimos três meses. Sem esse ritual diário, ele e a família não teriam água potável.

“As pessoas que não moram aqui não sabem como é acordarmos de manhã e a primeira coisa em que pensamos é na água”, disse Malambile. A família dele tem recipientes suficientes para armazenar 150 litros de água, mas a cada dia ele enche cerca de metade, enquanto os restantes ainda estão em uso na casa.

“Amanhã, esses estarão vazios e eu tenho de trazê-los novamente”, disse. "Esta é a minha rotina, todos os dias, e é cansativo.”

Contagem decrescente para o Dia Zero

As perspetivas de chuvas significativas para ajudar a encher as barragens parecem escassas e, se as coisas continuarem como estão, cerca de 40% da cidade de Gqeberha ficará sem água corrente.

O Cabo Oriental depende de sistemas climáticos conhecidos como “de baixa pressão”. Estes lentos sistemas climáticos conseguem gerar chuvas superiores a 50 milímetros em 24 horas, seguidas por dias de humidade persistente. O problema é que esse tipo de chuva não está a acontecer.

Os próximos meses também não prometem ser promissores. Na sua Análise Climática Sazonal, o Serviço Meteorológico da África do Sul prevê precipitação abaixo do normal

Esta não é uma tendência recente. Durante quase uma década, as áreas de captação das principais barragens de abastecimento da Baía de Nelson Mandela receberam chuvas abaixo da média. Os níveis de água diminuíram lentamente até ao ponto em que as quatro barragens estão, com um nível combinado de menos de 12% da sua capacidade normal. De acordo com as autoridades municipais, menos de 2% do restante abastecimento de água é realmente utilizável.

Ainda bem fresca na mente das pessoas aqui está a crise hídrica da Cidade do Cabo, em 2018, que também foi desencadeada pela seca severa anterior, bem como por problemas de gestão. Os moradores da cidade faziam fila pelos seus 50 litros de água diários, racionados individualmente, com medo de chegarem ao Dia Zero. Na verdade, nunca chegou a esse ponto, mas esteve perigosamente perto. O racionamento rigoroso permitiu que a cidade reduzisse para metade o consumo de água e evitasse o pior.

E, sem previsão de chuva forte, as autoridades da Baía de Nelson Mandela estão tão preocupados com o seu próprio Dia Zero que estão a pedir aos moradores que reduzam drasticamente o consumo de água. Simplesmente não têm alternativa, disse o diretor de distribuição de água municipal, Joseph Tsatsire.

“Embora seja difícil monitorizar quanto é que cada pessoa consome, esperamos transmitir a mensagem de que é crucial que todos reduzam o consumo para 50 litros diários por pessoa", disse.

Um cartaz a apelar aos moradores que limitem o consumo de água nos subúrbios de Gqeberha

Para termos alguma perspetiva, um norte-americano médio consome mais de sete vezes essa quantidade, cerca de 372 litros por dia.

Embora seja provável que algumas zonas da cidade nunca sintam o impacto total de um potencial Dia Zero, várias intervenções estão em andamento para ajudar os moradores das chamadas “zonas vermelhas”, onde as torneiras estão sem água.

No início deste mês, o governo nacional sul-africano enviou uma delegação de alto nível à Baía de Nelson Mandela para assumir o controlo da crise e implementar estratégias de emergência para prolongar o que resta do fraco abastecimento municipal.

A deteção de fugas e as reparações foram o foco, enquanto estão a ser feitos planos para extrair “água de armazenamento morto”, abaixo dos níveis atuais das barragens de abastecimento. Em alguns locais, foram abertos poços para extrair água subterrânea.

Algumas das intervenções - incluindo a reparação das fugas e o abastecimento de água com camiões - significam que alguns dos que ficaram sem água em casa começam a ver umas gotas cair das torneiras, à noite. Mas não é suficiente e as autoridades procuram soluções melhores e de longo prazo para um problema que só deve piorar à medida que a Terra aquece.

Trabalhadores constroem um ponto de recolha de água no subúrbio Walmer, em Gqeberha

A África do Sul é naturalmente propensa à seca, mas as secas de vários anos que causam tanta miséria e caos estão a tornar-se mais frequentes.

Uma fábrica de dessalinização - para purificar a água do mar para consumo público - está a ser pensada, embora esses projetos exijam meses de planeamento, sejam caros e muitas vezes contribuam ainda mais para a crise climática, quando funcionam com combustíveis fósseis.

As pessoas em Kwanobuhle sentem ansiedade em relação ao futuro, e perguntam-se quando acabará a crise.

Na torneira comunitária local, Babalwa Manyube, de 25 anos, enche os seus próprios recipientes com água enquanto a filha de um ano espera no carrinho.

“Os autoclismos, a água para cozinhar e para limpar - são problemas que todos enfrentamos quando não há água nas torneiras”, disse ela. “Mas criar um bebé e ter de me preocupar com a água é uma história completamente diferente. E quando vai isto acabar? Ninguém sabe dizer-nos.”

Adaptação em casa

Em Kwanobuhle, a habitação social é para as pessoas com poucos ou nenhuns rendimentos. O desemprego é abundante e o crime está sempre a aumentar. As ruas estão cheias de moradores a tentarem fazer dinheiro. Contentores antigos funcionam como barbearias improvisadas.

Do outro lado do metro fica Kamma Heights, um novo subúrbio arborizado situado numa colina com uma bela e ininterrupta vista da cidade. É pontuado por várias casas de luxo recém-construídas, e os moradores podem ser vistos sentados nas suas varandas, aproveitando os últimos raios de sol antes que este se ponha no horizonte.

Alguns moradores de Kamma Heights são ricos o suficiente para garantirem reservas de água. Rhett Saayman, de 46 anos, solta um suspiro de alívio sempre que chove e ele ouve a água nos depósitos que construiu à volta da sua casa, nos últimos dois anos.

O plano que tinha de poupar dinheiro com a água, a longo prazo, acabou por ser um investimento inestimável para garantir o abastecimento de água da sua casa.

Saayman tem uma capacidade de armazenamento de 18.500 litros. A água para uso doméstico geral, como as casas de banho, passa por um filtro de partículas de 5 mícrons e um filtro de bloco de carbono, enquanto a água para beber e cozinhar passa por um filtro de osmose invertida.

Rhett Saayman ao lado de um dos seus vários depósitos de água, na sua casa em Kamma Heights

“Ainda dependemos da água municipal, de vez em quando, quando não chove o suficiente, mas isso pode acontecer duas ou três vezes por ano e, normalmente, apenas durante alguns dias de cada vez”, disse. “A última vez que usámos água municipal foi em fevereiro e, desde então, tivemos chuva suficiente para nos mantermos.”

“Olhando para o rumo que as coisas estão a tomar, na cidade, é um alívio saber que temos água potável e suficiente para puxar os nossos autoclismos e tomar banho. O nosso investimento está a valer a pena”, acrescentou.

Tem sido pedido aos moradores de muitas zonas da baía que reduzam o consumo para que a água possa ser canalizada através de tubos verticais – canalizações temporárias colocadas em locais estratégicos para que a água possa ser desviada para as zonas mais necessitadas.

Isto significa que alguns dos bairros mais afluentes da cidade, como Kamma Heights, podem sofrer uma grande quebra no seu abastecimento de água, e também terão de fazer fila nas torneiras comunitárias, assim como fazem os habitantes de Kwanobuhle.

Olhando para o futuro, os serviços meteorológicos locais preveem um quadro preocupante para os próximos meses, com alguns avisos de que o problema ficou por resolver durante tanto tempo que, agora, pode ser impossível revertê-lo.

“Há anos que alertamos as autoridades municipais sobre isto”, disse Garth Sampson, porta-voz do Serviço Meteorológico da África do Sul na Baía de Nelson Mandela. “Quer queiramos culpar os políticos ou as autoridades municipais por má gestão, ou o público por não poupar água, a verdade é que isso já não importa. Apontar o dedo não vai ajudar ninguém. A verdade é que estamos em crise e já há muito pouco que possamos fazer.”

Água pinga de uma torneira num ponto de recolha de água no subúrbio de Walmer, em Gqeberha, na África do Sul. É uma das muitas zonas de recolha instaladas na cidade

Segundo Sampson, as bacias hidrográficas que abastecem a Baía de Nelson Mandela precisam de cerca de 50 milímetros de chuva num período de 24 horas, para que haja algum impacto significativo nos níveis das barragens.

“Olhando para as estatísticas dos últimos anos, a nossa melhor hipótese de ver um evento de 50 milímetros será provavelmente em agosto. Se não tivermos chuvas significativas até setembro, então, a melhor hipótese é só em março do próximo ano, o que é preocupante”, disse.

“A única maneira de por fim a esta crise hídrica é havendo uma enchente. Mas, felizmente, ou infelizmente - dependendo de a quem perguntamos - não há previsões que sugiram chuvas dessa magnitude tão cedo.”

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