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Supermercados a competir com agricultores? O medo de ser "comido" pelos grandes é chão que promete ainda dar uvas

2 fev 2025, 08:00
Uvas
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Em Portugal, a dona do Pingo Doce entrou há muito no negócio da produção alimentar. E há, sobretudo entre pequenos e médios agricultores, quem veja isso com maus olhos. A lógica é simples: o que produzem eles, já não compram a outros. É uma posição que a Jerónimo Martins descarta. O caso das uvas sem grainha Vale da Rosa abre caminho para uma reflexão mais alargada

Se lhe falarmos em uvas sem grainha, provavelmente vai lembrar-se da marca Vale da Rosa. A situação desta empresa portuguesa, hoje a enfrentar sérias dificuldades, está a deixar preocupados muitos agricultores. E a ansiedade é esta: será que a entrada dos retalhistas no negócio da produção agrícola vai acabar com os pequenos e médios agricultores a operar no país?

Tudo porque, no caso da Vale da Rosa, havia uma parceria com a Jerónimo Martins na área da produção de uvas. A empresa dona do Pingo Doce, como veremos em pormenor mais adiante, tem uma versão diferente para contar: garante que o seu investimento no setor agroalimentar tem “contribuído para manter ativos muitos produtores que, de outra forma, já teriam certamente encerrado atividade” e rejeita qualquer concorrência direta com a Vale da Rosa.

“’Comidos’ pela grande distribuição”?

“Serão os agricultores ‘comidos’ pela grande distribuição que, munida de capital milionário, começa a ‘deitar fora’ os que até agora eram seus fornecedores, passando a concorrência direta? Se é legal? Claro. Se é ético? Não”.

A questão foi lançada por Luísa Almeida, fundadora do projeto de agricultura biológica Quinta do Arneiro, numa publicação no Instagram. Nela, traçava a cronologia da relação entre a Vale da Rosa e a Jerónimo Martins para fundamentar o seu ponto de vista.

“No meio em que vivo, o biológico, tenho fornecedores que fecham porque não aguentam a pressão. Acaba por ser uma política de terra queimada. Para nós que estamos aqui, é muito assustador”, afirma à CNN Portugal.

Há muito que o setor agrícola vem denunciado a “pressão” em relação aos preços e às margens dos retalhistas. Contudo, quando os supermercados investem na própria produção alimentar, a preocupação torna-se ainda maior. Dizem os agricultores que não há como competir: uma produção a larga escala permite tornar os produtos ainda mais baratos.

Há agricultores que "não aguentam a pressão"

Além da “pressão” no preço, como responder com escala?

Num país onde as compras têm lugar sobretudo em super e hipermercados, em detrimento das lojas de proximidade e mercados, a dependência dos agricultores em relação à grande distribuição é inegável. “Principalmente os médios agricultores, que estão muito subjugados”, aponta Luísa Almeida.

Firmino Cordeiro, diretor-geral da Associação dos Jovens Agricultores de Portugal (AJAP) partilha desta visão. “Não há qualquer organização de produtores que consiga resistir à pressão que é feita nos preços. Atropelam sempre quem se mete no caminho. Não concordamos, mas podemos fazer alguma coisa? Muito pouco, porque não temos muitas formas de vender e comercializar os nossos produtos. Por mais que digam que são amigos da produção, só são amigos do seu próprio negócio. Há muita exploração que pode sofrer se isto virar moda. O que eles produzem, deixam de comprar à produção nacional”.

E daí a desconfiança sobre a entrada de retalhistas na produção agrícola, como é o caso em Portugal da dona do Pingo Doce. Há agricultores que temem que, tendo produção alimentar própria, as cadeias de super e hipermercados acabem por não lhes comprar nada.

“O trabalho das grandes superfícies tem muito a ver com apagar o produtor do laço que as pessoas têm com a sua alimentação. Se este retalho vai, daqui para a frente, assumir este papel na produção, interferem na valorização dos produtos. Conseguindo esmagar os preços ao mínimo, tomando o controlo de toda a produção, trazem para o mercado preços que não correspondem à realidade do custo de produção”, argumenta Raquel Silva, responsável pela Quinta D’Arminho, um projeto de agricultura regenerativa.

Jerónimo Martins responde: “somos um dos maiores compradores”

Através do seu braço agroalimentar, a Jerónimo Martins produz hoje carne Angus, peixe de aquacultura, uvas biológicas sem grainha, laranja ou leite. À CNN Portugal, a dona do Pingo Doce recusa estar a criar dificuldades aos restantes agricultores. Antes pelo contrário.

“As companhias do grupo Jerónimo Martins, no seu conjunto, são um dos maiores compradores de produtos alimentares a fornecedores portugueses. Num ano, comprámos cerca de quatro mil milhões de euros destes produtos”, reage fonte oficial.

A fábrica de leite em Portalegre, por exemplo, compra “anualmente 100 milhões de litros de leite a mais de 20 produtores em todo o território continental”. Para a produção de carne bovina “nas nossas herdades no Alentejo e Ribatejo, compramos por ano mais de 10 mil animais a mais de 50 produtores nacionais”. Já a exploração que produz borrego no Fundão “compra mais de 50 mil borregos por ano a mais de 40 produtores nacionais”.

“A nossa atividade de produção agroalimentar está a ser desenvolvida em terras que, na sua quase totalidade, estavam anteriormente abandonadas, expostas a elevado risco de incêndio e sem qualquer contribuição para a dinamização da criação de emprego nas regiões e das economias locais”, vinca ainda o grupo.

Dona do Pingo Doce rejeita estar a criar dificuldades a agricultores por entrar no negócio agroalimentar

Uma uva ‘envenenada’?

A Vale da Rosa encontra-se em Processo Especial de Revitalização (PER), procurando renegociar o pagamento das suas dívidas com os fornecedores. Para tal contribuíram vários fatores, incluindo “grandes investimentos na replantação de vinha” e um mau ano agrícola em 2024.

A isto junta-se, segundo várias notícias, o facto de a Jerónimo Martins ter reduzido as encomendas de uvas sem grainha. “O nosso maior cliente fechou-nos a porta à boca da campanha”, afirmou o empresário António Silvestre Ferreira ao Negócios. “Estamos a sofrer muito com isso, porque não estávamos preparados”, juntou.

António Silvestre Ferreira era também, desde 2020, sócio na empresa que marcou a entrada da Jerónimo Martins na agricultura biológica, produzindo uvas sem grainha. Recentemente, a retalhista comprou os 20% que pertenciam ao empresário.

À CNN Portugal, a Jerónio Martins considera “totalmente falsa e enviesada” a ideia de que a redução de encomendas e a produção própria tenham levado o antigo parceiro às atuais dificuldades financeiras.

“O Pingo Doce, por mais de uma vez e a pedido do proprietário do Vale da Rosa, adiantou verbas por conta de fornecimentos futuros, como fez a outros produtores em circunstâncias análogas, para alívio da sua gestão de tesouraria e para contribuir para a sua continuidade no mercado”, reage o grupo, que garante nunca ter representado mais de 20% das vendas da Vale da Rosa.

A Jerónimo Martins argumenta que a situação da antiga parceira resulta da “estratégia de gestão de vinhas” e pela perda de outros clientes devido à concorrência de outros produtores, “que colocam no mercado português produto de qualidade equivalente à do Vale da Rosa a um preço por quilograma inferior”. A isto, alegam, junta-se um “longo ciclo de inflação” que levou  o consumidor a procurar “oportunidades de poupança”.

O grupo dono do Pingo Doce rejeita ainda que esteja a desenvolver “um produto igual”, vincando que produz uva sem grainha “em modo de produção biológico”, algo que a Vale da Rosa “nunca produziu”.

“Valorizámos em 20% do capital da sociedade que criámos em 2020 a experiência do seu proprietário em instalação e gestão de vinhas, o seu conhecimento do setor e do solo em Ferreira do Alentejo, acreditando que o seu contributo técnico permitiria acelerar o desenvolvimento desta nova produção. Já nessa altura as dificuldades financeiras do Vale da Rosa eram elevadas, razão pela qual o seu proprietário nunca entrou com capital para a sociedade. A nova produção foi 100% financiada por Jerónimo Martins. No entanto, no ano passado e na sequência do agravamento das suas dificuldades financeiras, o nosso então sócio, perante a urgência de ter capacidade de tesouraria, acordou vender a sua participação de 20% na empresa”, justifica.

Contactada pela CNN Portugal, a Vale da Rosa optou por não fazer qualquer comentário, considerando que este não é o “momento adequado”, preferindo manter-se “discreta e com tranquilidade”.

Vale da Rosa enfrenta dificuldades (Vale da Rosa)

Como “descentralizar o sistema”

A elevada dependência da agricultura em relação à grande distribuição tem levado, nos últimos anos, a um conjunto de projetos que procuram fazer a ligação direta entre os produtores e os consumidores. São disso exemplo os cabazes de frescos entregues em casa. É, segundo vários agricultores ouvidos pela CNN Portugal, uma forma de recuperar a “soberania alimentar”.

“As cidades tão a recuperar mercados e a tentar feiras para os pequenos produtos. É uma forma mais moderna de recuperarmos a tradição”, argumenta Firmino Cordeiro.

Também Tiago Lucena, proprietário rural e um dos responsáveis pelo projeto A Senhora do Monte, vinca a importância de projetos alternativos para “descentralizar o sistema” e criar sinergias.

“Estamos numa era em que o intermediário é que ganha dinheiro. Depois de esmagarem os produtores, numa guerra que é antiga, foram crescendo as margens. Se o agricultor não tem hipótese de criar marca e de dar um valor acrescentado aos seus produtos, fica à mercê da distribuição”, diz.

Firmino Cordeiro, diretor-geral da AJAP, lamenta a falta de organização nas estruturas associativas do setor agrícola bem como a “cultura de promiscuidade” entre os decisores políticas e as empresas que tutelam.

“Fomos demasiado permissivos, não criámos uma legislação que tenha maior controlo, que nos permita a todos coexistir. Só coexistem os grandes”, lamenta, apelando a uma intervenção governamental que vá para lá dos “ciclos eleitorais dos governos”.

A CNN Portugal contactou a Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), que optou por não fazer qualquer comentário em relação a este tema.

Menos explorações, maior área, maior produção

Os dados de 2023 mostram que, em Portugal, há menos explorações agrícolas, embora a sua dimensão média tenha vindo a aumentar.

Foram contabilizadas 261,5 mil explorações agrícolas, uma quebra de 9,9% em relação aos dados de 2019.

Em matéria agrícola, Portugal surge também como mais produtivo: em 2023 foi o país da União Europeia que mais aumentou o volume da produção agrícola, para os 12,22 mil milhões de euros, com uma subida de 14%.

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