O que pode levar alguém com poder a ser agressivo? Uma análise a partir do caso de Odemira

17 dez 2021, 16:36
Militares da GNR torturam migrantes de Odemira
Militares da GNR torturam migrantes de Odemira

Como a personalidade e o cérebro podem influenciar comportamentos como os denunciados na reportagem da CNN/TVI

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Reguadas, bofetadas e pancadas a imigrantes. Este é o cenário descrito pela reportagem da CNN Portugal e da TVI que dá conta de comportamentos violentos por parte dos militares da GNR de Odemira, que, como mostram alguns dos vídeos, riem à gargalhada com algumas destas situações.

Sem que se saibam, até agora, os motivos que levaram a este comportamento dos militares da GNR, a CNN Portugal falou com especialistas da área da psicologia e psiquiatria para perceber o que pode levar uma pessoa, em superioridade ou não, a ter comportamentos agressivos, sobretudo quando em causa está uma situação passiva. E foram também pesadas as consequências que isso traz para a vítima.

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“Quando se induz sofrimento aos outros sente-se superioridade, poder e estatuto, isso traz contentamento. O ser humano é egocêntrico, gosta deste tipo de emoção e valorização”, começa por explicar a psicóloga Catarina Lucas.

Há pessoas que têm uma maior tendência para ser agressivas?

Sim. Essa maior propensão para a agressividade pode ser de causa genética ou ambiental - estilo de vida ou ambiente em que se insere - ou até uma mistura de ambas, sendo que há ainda a pesar a circunstância e até mesmo a condição mental da pessoa. “É uma conjugação de fatores”, esclarece o psiquiatra João Cardoso.

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No que diz respeito à componente genética, um estudo publicado em 2015 na revista científica BMC Proceedings revela que o gene MAOA pode ser um dos responsáveis pela propensão para comportamentos agressivos. “A análise dos dados de vários estudos indica que a ligação mais forte entre a variação genética e a agressão vem da monoamina oxidase A (MAOA); um gene que codifica uma enzima responsável por catabolizar neurotransmissores de amina, como dopamina, serotonina e noradrenalina”, lê-se na revisão científica intitulada de O Gene Criminoso: a ligação entre MAOA e agressão.

Já em 2009, um outro estudo, publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), tinha revelado que este gene poderá estar na origem da agressão em casos de provocação.

No caso das agressões de Odemira, parece estar em causa um comportamento agressivo num ambiente passivo. Quando em causa está uma situação em que “não há nenhum motivo social para haver a agressividade”, o psiquiatra Nuno Madeira aponta as “características de personalidade, aquilo que as pessoas comuns chamam de maneira de ser”, como causa para o comportamento agressivo.

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“Há pessoas que nasceram com uma inclinação biológica para serem mais competitivas, mais ásperas com outros, a empatizarem menos”, continua o especialista, que explica ainda que não é só o lado genético que pesa nesta equação: “as pessoas são expostas a ambientes, sobretudo na infância, e adquirem, com isso, características na sua personalidade, que as tornam agressivas, as pessoas põem o seu bem estar acima do dos outros”.

Também o psiquiatra João Cardoso aponta para a “maior propensão” que algumas pessoas têm “para serem más”, mas salienta que tal pode ser resultado de um traço de personalidade (a psicopatia) ou de uma doença do foro psicológico (a psicopatologia). 

O cérebro é a torre de comando da interpretação do que acontece em redor e da ação que essa mesma interpretação poderá levar. Tal como explicado, o gene MAOA pode ser um dos responsáveis, mas a verdade é que a sua existência não é, por si só, motivo para a pessoa ser agressiva. E é aqui que entram as partes do cérebro que regulam o ímpeto da agressividade: a amígdala, o hipotálamo e o córtex pré-frontal. As duas primeiras regiões são a chamada sentinela das emoções, partes responsáveis por aquilo que se sente e envolvidas na resposta de luta e fuga, enquanto o córtex pré-frontal está encarregue de entender essas mesmas emoções e mediar a sua intensidade.

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“Quando afetadas determinadas zonas do cérebro que regulam [a agressividade], a pessoa torna-se violenta e agressiva”, destaca Catarina Lucas, que adianta que essa mesma agressividade traz uma sensação de prazer a algumas pessoas, muito à boleia da “libertação de adrenalina no organismo” que provoca.

“Sabemos que lesões como traumatismos cranianos na infância, se continuados e graves, podem revelar-se em alterações de comportamento nos adultos”, esclarece o psiquiatra João Rodrigues, que dá o exemplo de Carl Hayman, atleta de râguebi na Nova Zelândia que foi diagnosticado aos 41 anos com demência precoce causada por repetidas lesões na cabeça durante a prática da modalidade, tendo também apresentado, à boleia disso, alterações comportamentais. 

Porém, o especialista salienta que, mesmo quando os comportamentos de agressividade não são pontuais, “ter alteração no cérebro, até mesmo alterações no volume da amígdala, não se traduz necessariamente em doença”.

Embora frise que a agressividade é algo intrínseco, Catarina Lucas destaca a existência de mecanismos cerebrais de retração, uma espécie de regulação cerebral para a agressividade, que impedem que este comportamento seja o modus operandi da sociedade. “Se o ser humano não tivesse estes mecanismos de retração, estávamos sempre em conflito”, explica.

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Quando quem abusa "tira prazer" disso

Para a psicóloga Catarina Lucas, os comportamentos agressivos estão na génese humana, “a raiva e a agressividade são instintos básicos”, que se mantêm, mas agora de uma forma mais controlada, muito graças à evolução da sociedade e da vida comunitária.

A especialista em psicologia explica que “induzir o sofrimento do outro coloca-nos vantagem” e que essa sensação de empoderamento “é muito histórica” e pode mesmo oferecer uma sensação de prazer.

Sobre isto, o psiquiatra João Cardoso diz que, em quadros de psicopatia, a que pessoa que “faz o abuso tira prazer” disso.

Este lado “inato” para a agressividade pode ainda ser reforçado quando o agressor sabe que está em superioridade, tal como acontece quando está fardado ou tem um cargo superior face à pessoa agredida, considera Catarina Lucas. “Historicamente, os reis já eram poderosos e queriam expandir o seu império. O ser humano age da mesma forma, mesmo já tendo poder e estatuto quer mais, quer fazer demonstração de poder”, frisa a psicóloga.

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“Quando há relações de assimetria de poderes, há pessoas que tomam essas posições [de agressividade] porque sabem que podem”, afirma João Cardoso, considerando que o facto de a pessoa saber que está em vantagem, nem que seja no que diz respeito ao estatuto ou por simplesmente estar a usar fardado, é “um facilitador do comportamento” agressivo.

O impacto para quem é agredido e humilhado

Se de um lado da história pode estar a sensação de superioridade e de empoderamento que a agressão e a humilhação a terceiros pode trazer, do outro, da parte de quem sofre, podem resultar mazelas com consequências sérias. “Sabemos que [ser vítima de agressão] tem um impacto muito grande”, atira João Cardoso.

Para quem é alvo de agressão, “qualquer situação em que a nossa integridade física ou psicológica está em causa pode deixar sequelas”, explica o psiquiatra Nuno Madeira.

“Além da reação inicial de ansiedade, de susto, de pesadelos e de não deixar de pensar no curto prazo”, Nuno Madeira diz que há consequências a médio e longo prazo, “do tipo pós-traumáticas”, que podem marcar a vítima e que podem acompanhá-la “durante anos”.

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No caso das agressões em Odemira, como “aconteceu num local onde as pessoas esperariam proteção”, o facto de serem imigrantes e não dominarem a língua pode intensificar as consequências sentidas por parte das vítimas. 

"Perante situações pontuais de enorme stress, está mais do que estabelecida uma relação com doença mental, depressão e insónia”, sobretudo quando em causa estão pessoas “fragilizadas, num sítio diferente em que não dominamos a língua”, alerta o psiquiatra João Cardoso.

Também para o psiquiatra Nuno Madeira, “além das agressões muito propensas a deixar marcas físicas e psicológicas, sendo pessoas num ambiente particularmente desconhecido, por não compreenderem a língua, isso acrescenta um fator adicional de vulnerabilidade e sofrimento, a vítima sente-se mais ameaçada”.

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