Uma violência "nunca vista" só não teve mortes "por milagre": o que se passou no Independiente - Universidade de Chile

CNN Portugal , MMC
22 ago 2025, 16:24
Adepto despido foge durante os confrontos no Independiente - Universidade do Chile (Sebastián Ñanco/Getty Images))

O Independiente repreende o comportamento dos adeptos chilenos, o Universidad de Chile considera uma "barbarie" o que foi feito aos seus adeptos e a CONMEBOL decidiu que o jogo não será retomado

Quando se viu um adepto pendurado numa bancada a dezenas de metros de altura, temeu-se o pior. Quando se viu esse mesmo adepto a cair, temeu-se ainda mais. Felizmente, o aficionado do Universidad de Chile sobreviveu, como sobreviveram todos os outros adeptos agredidos numa autêntica batalha campal em pleno Estádio Libertadores da América, em Avellaneda, Argentina.

Ali jogavam, na noite de 20 de agosto, Club Atlético Independiente e Universidad de Chile, numa partida a contar para a Taça Sul-americana, o equivalente da CONMEBOL à Liga Europa.

De acordo com a TyC Sports, o conflito iniciou-se ainda na primeira parte, quando os adeptos visitantes, que estavam na bancada acima da claque anfitriã, roubaram uma bandeira do Independiente. Esse ato foi o rastilho para os primeiros desentendimentos em Avellaneda. A partir daí a situação só se agudizou.

Depois disso, pela voz do speaker do Libertadores de América, foi pedido que os adeptos chilenos abandonassem o recinto. Um pedido que não foi atendido e que antecipou o arremesso de vários objetos de lá de cima, onde estavam os adeptos visitantes, cá para baixo, onde se encontravam os adeptos da casa.

Atiraram pedras, fezes, urina, sanitas e cadeiras. Além disso, houve ainda uma granada de atordoamento que, de acordo com a mesma fonte, feriu alguns adeptos do Independiente.

Imagens partilhadas na conta de X do jornal Clarín mostram bem a dimensão da violência. Aqui ainda só se atiravam coisas de um lado para o outro, além de insultos. Depois foi pior, muito pior.

A partida estava, por isso, interrompida aos 47 minutos de jogo. Segundo a TyC, haveria um reinício assim que os adeptos chilenos saíssem voluntariamente. Perante o impasse dos adeptos do Universidad de Chile entre a permanência e a saída do recinto, as restantes bancadas do estádio começaram a provocar a sua própria claque a agir contra os adeptos visitantes, cantando que a claque tinha “medo” de agir, de acordo com a mesma fonte.

O jogo ainda chegou aos 62 minutos, altura em que a CONMEBOL decidiu cancelar a partida. Essa decisão quebrou o impasse dos adeptos do Universidad do Chile, cuja maioria se encaminhou para fora do recinto. No entanto, não saíram todos e, para a minoria que restou na bancada visitante, sobrava um número bastante superior de hinchas argentinos da barra brava do Independiente, que conseguiu chegar à bancada visitante e iniciar confrontos físicos, com espancamentos e esfaqueamentos a adeptos do Universidad de Chile, que foram encurralados entre os limites da bancada e os adeptos do Independiente.

Foi durante toda essa confusão que o adepto caiu da bancada.

Adepto despido foge durante os confrontos no Independiente - Universidade do Chile (Gustavo Garello/AP)
Adepto despido foge durante os confrontos no Independiente - Universidade de Chile (Gustavo Garello/AP)

Aos restantes que ficaram encurralados estavam destinadas agressões que motivaram a reação da polícia local, que levou a cabo mais de 300 detenções. 

Segundo o jornal La Nacion, 177 homens, cinco menores e três mulheres ficaram feridos e 125 pessoas foram presas. 

No capítulo das reações de ambos os clubes, o presidente do Independiente em declarações à TyC Sports, condenou o “comportamento repreensível” dos adeptos visitantes, que “destruíram as nossas casas de banho, levaram de lá artefactos e arremessaram-nos para as bancadas”. Nestor Grindetti conta que “nunca tinha visto antes esta violência”, que os adeptos do Independiente “não mereciam isto” e que sempre “tiveram um comportamento exemplar”. 

Já o Universidad de Chile lançou um comunicado oficial acerca do que aconteceu em Avellaneda na última quarta-feira, em que confirma que, “por milagre”, não houve registo de mortes no incidente entre adeptos das duas equipas: “No meio de rumores sobre mortes e sem informação oficial por parte das autoridades, uma comitiva liderada pelo presidente Michael Clark e pelo diretor-geral Ignacio Asenjo percorreu, de madrugada, os três hospitais da zona de Avellaneda e Sarandí para onde foram encaminhados os nossos adeptos. Graças a isso, foi possível confirmar que, por milagre, não houve vítimas mortais”.

Os chilenos comunicam ainda que “a agressão brutal e desumana sofrida pelos nossos adeptos na noite de 20 de agosto, no estádio Libertadores de América, será recordada como um dos capítulos mais violentos da história do futebol”. O clube “condena a violência” e garante estar focado em “ajudar para que haja justiça e para que a barbárie de Avellaneda não volte a acontecer nunca mais”.

Adepto do Independiente agride rival do Universidade do Chile (Sebastián Ñanco/Getty Images)
Adepto do Independiente agride rival do Universidade do Chile (Sebastián Ñanco/Getty Images)

O presidente do Chile, Gabriel Boric, também reagiu: "O que se passou em Avellaneda entre as claques de Independiente e Universidad de Chile está errado em vários sentidos, desde a violência com as barras até à evidente irresponsabilidade da organização. A justiça deverá determinar os responsáveis".

Entre o lote de reações, está também a de Gianni Infantino, que condenou o sucedido nas suas redes sociais: "Condeno fortemente a violência chocante que levou ao cancelamento da Taça Sul-americana".

O jogo entre Independiente e Universidad de Chile foi cancelado e não será retomado. A CONMEBOL anunciará em breve uma decisão sobre uma eventual desclassificação de uma ou ambas as equipas.

Em abril, a CONMEBOL teve em mãos um caso semelhante, depois de episódios de violência no Chile, num jogo entre o Colo-Colo (Chile) e o Fortaleza (Brasil) que acabou suspenso. A autoridade máxima do futebol sul-americano acabou por determinar a vitória do conjunto brasileiro, uma vez que os seus adeptos não se envolveram nos confrontos. Desta vez, o caso aparenta ser mais complexo. 

Este incidente ocorre cerca de um mês depois de os adeptos serem autorizados a deslocarem-se a jogos fora do campeonato argentino - algo que foi proibido durante os 12 anos anteriores. 

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