Água, ar e energia. Este é “o combustível do futuro” - e será produzido numa fábrica de 4,6 mil milhões de dólares na África do Sul

CNN , Jacopo Prisco
23 out, 12:00
África do Sul (AP)

Na Baía de Nelson Mandela, no Cabo Oriental da África do Sul, milhares de hectares de terra poderão, um dia, tornar-se a maior fábrica do mundo de amónia verde

A amónia, que é composta por azoto e hidrogénio, é normalmente utilizada como fertilizante. No início da década de 1910, os cientistas conceberam uma forma de sintetizá-la, mas antes dessa altura, o principal fertilizante era guano, excrementos de morcego ou de aves, que tinham de ser obtidos em ilhas tropicais e a oferta era reduzida.

A produção de amónia a uma escala industrial permitiu a expansão da agricultura e, de acordo com um estudo da Universidade de Manitoba, sem ela, não seria possível produzir atualmente cerca de metade dos alimentos a nível mundial.

Foto: Monirul Bhuiyana/AFP através de Getty Images

A amónia também é utilizada para fabricar explosivos para a indústria mineira e é um componente essencial de muitos produtos farmacêuticos e de limpeza. Atualmente, a sua produção envolve principalmente combustíveis fósseis e é responsável por 1,8% das emissões globais de CO2. Mas utilizando energia renovável, é possível fabricar amónia “verde”, reduzindo a pegada de carbono da produção agrícola e abrindo o composto a outras utilizações.

A mais significativa é a utilização da amónia como combustível, o que poderia ajudar a descarbonizar o sector do transporte marítimo. É nisto que se irá centrar a fábrica da Baía de Nelson Mandela. “Começará por substituir os óleos combustíveis pesados nos navios e irá substituir o diesel. Este irá tornar-se o combustível do futuro, especialmente na indústria marítima”, afirma Colin Loubser, diretor executivo da Hive Energy Africa, que está a construir a fábrica.

“Um processo totalmente verde”

O processo para fabricar a amónia verde é bastante simples, afirma Loubser, necessitando apenas de água, ar e energia. É utilizada eletrólise para separar a água em hidrogénio e oxigénio e uma unidade de separação de ar extrai o azoto do ar. O hidrogénio e o azoto são então combinados para produzir a amónia.

“O processo de torná-la verde é que estamos a utilizar energia renovável para isso. Não estamos a utilizar combustíveis fósseis, carvão ou gás para produzi-la. É um processo totalmente verde”, afirma Loubser.

Projetada para iniciar as operações em 2026, a fábrica irá custar 4,6 mil milhões de dólares. Será alimentada por um parque solar nas proximidades e irá receber a água — da qual são necessárias quantidades abundantes para produzir amónia — de uma fábrica de sal de mesa local que dessaliniza a água do mar.

Segundo Loubser, serão criados pelo menos 20 000 postos de trabalho na região, ao longo de toda a vida útil do projeto.

Um fator limitante é que a amónia é um gás cáustico e tóxico, por isso, necessita de ser manipulado por profissionais experientes. A sua utilização como combustível produz óxidos de azoto, que podem atuar como gases com efeito de estufa e causar poluição atmosférica, necessitando de tecnologia adicional para controlar as emissões.

E muitos destes sistemas que irão utilizar a amónia verde, incluindo motores de navios, ainda estão em desenvolvimento, motivo pelo qual os níveis de produção ainda são reduzidos, neste momento. No entanto, espera-se que a produção tenha um grande aumento: de acordo com um relatório da Precedence Research, o mercado da amónia verde representou apenas 36 milhões de dólares, em 2021, mas irá crescer para 5,4 mil milhões de dólares até 2030.

O futuro que se desenha em África

No continente africano, estão a ser desenvolvidos inovadores sistemas de transportes, operações de telecomunicações e cidades inteligentes para impulsionar as economias e aumentar as oportunidades de comércio. Veja a lista em baixo para saber mais.

A Ponte de Kazungula

A ponte, com 923 metros de comprimento, sobre o rio Zambeze, liga o Botswana e a Zâmbia. Inaugurada em maio de 2021, substitui um ferry e foi construída para acelerar o tráfego de camiões ao longo de uma artéria comercial fundamental norte-sul.

Fonte: Cortesia World Mobile

Balões de internet em Zanzibar

A Altaeros estabeleceu uma parceria com a empresa World Mobile, do Reino Unido, para fornecer balões de internet utilizados para fornecer parte da sua rede em Zanzibar. Dois balões operados a energia solar e cheios com hélio irão flutuar 300 metros (984 pés) acima do solo e terão um alcance de transmissão de cerca de 70 quilómetros (44 milhas) cada um, utilizando frequências 3G e 4G para fornecer o seu sinal.

Fonte: Bloomberg através de Getty Images

Uma nova capital egípcia

Apenas a 45 quilómetros (28 milhas) a leste do Cairo, o Egito está a construir uma nova capital administrativa. O projeto de 58 mil milhões de dólares, iniciado em 2015, foi concebido para ser um hub para o governo e a indústria financeira. O Egito espera aliciar alguns dos 20 milhões de residentes da sua atual capital, o Cairo, a mudarem-se para a nova cidade, onde existe espaço para 6,5 milhões de pessoas.

A cidade terá diversos arranha-céus, incluindo o que será em breve o mais alto edifício de África, a Iconic Tower (ao fundo da imagem). Em 2020, foi anunciado um projeto de monocarril de 100 quilómetros, no valor de 4 mil milhões de dólares, para ligar o Cairo e a nova cidade.

Fonte: Amanuel Sileshi/AFP através de Getty Images

Uma barragem de 5 mil milhões de dólares no Nilo

A ambiciosa Grand Ethiopian Renaissance Dam (GERD) é um dos maiores projetos de infraestruturas em África. Construída no rio Nilo Azul, perto da fronteira da Etiópia com o Sudão, a barragem de 5 mil milhões de dólares irá gerar 6000 megawatts de eletricidade por ano. O projeto pretende transformar a Etiópia no maior exportador hidroelétrico de África.

Mas a barragem tem sido controversa desde o início. O Nilo Azul é uma das duas fontes do rio Nilo, fornecendo 85% da água que flui para norte pelo Sudão e pelo Egito, para o Mediterrâneo. Os acordos da era colonial estabeleceram que o Egito e o Sudão, que dependem do rio para o seu abastecimento de água, mantinham o controlo do rio, mas a barragem da Etiópia ameaça este controlo. As negociações entre a Etiópia, o Sudão e o Egito estão em curso, mas ainda não foi alcançado um acordo. A Etiópia começou a gerar eletricidade a partir da barragem a 20 de fevereiro de 2022.

  Khaled Desouki/AFP/Getty Images

A expansão do Canal do Suez

O Canal do Suez do Egito foi submetido a uma expansão, em 2015, no valor de 8 mil milhões de dólares, para aumentar o potencial de comércio e compensou, com um aumento de 4,7% das receitas. No entanto, poderá estar para breve uma expansão adicional: em setembro de 2020, Hala el Said, Ministro do Planeamento e do Desenvolvimento Económico, afirmou que 1,1 mil milhões de dólares tinham sido alocados para atualizações do projeto do Canal do Suez, em 2021. A conclusão da expansão adicional está prevista para 2023.

Lekki Port

Um novo porto para Lagos

Projetos como o Porto de Águas Profundas de Lekki, em Lagos, pretendem reposicionar cidades africanas como centros de negócios competitivos a nível internacional.

O porto multiusos — que será o mais profundo na África subsariana — pretende aumentar as operações comerciais da Nigéria na África Ocidental e o seu potencial de comércio global. Foi concebido para operar quatro milhões de toneladas de mercadorias secas por ano. O Banco de Desenvolvimento da China concedeu um empréstimo de 629 milhões de dólares para o projeto e a China Harbour Engineering Company está a fornecer 221 milhões de dólares em financiamento de capitais próprios para o porto, que se prevê que venha a gerar receitas de 361 mil milhões de dólares e criar até 170 000 novos postos de trabalho. O porto estava 96% concluído a 27 de julho, de acordo com a Lekki Port.

Foot: Cortesia Desert Pearl Photography/Paratus

Impulsionar a internet na África ocidental

O Equiano da Google é um cabo de internet subaquático que liga Portugal à África do Sul, com 20 vezes a largura de banda do cabo anterior que servia a costa ocidental de África. Tem potencial para aumentar 5 vezes as velocidades de internet em alguns países e reduzir os custos com dados, segundo a investigação encomendada pela Google.

Foto: Cortesia Siemens Mobility

O plano do Egito para a linha de alta velocidade

Os planos para a primeira linha de alta velocidade do Egito foram anunciados em janeiro de 2021. Em maio deste ano, a Siemens anunciou que tinha celebrado um contrato de 8,1 mil milhões de euros (8,31 mil milhões de dólares) com os seus parceiros e o governo egípcio para um sistema ferroviário de 2000 quilómetros (1243 milhas) para ligar 60 cidades de todo o país. (Na imagem: composição das futuras carruagens da frota.)

Foto: Moise Gomis/AFP/Getty Images

Uma expansão de muitos milhares de milhões de dólares de Lagos

As obras do projeto de muitos milhares de milhões de dólares Eko Atlantic, que deverá transformar Lagos, a maior cidade da Nigéria, começaram em 2009. O novo hub financeiro, com 10 quilómetros quadrados de terrenos recuperados, tem espaço para até 300 000 residentes e 150 000 trabalhadores pendulares diariamente. No entanto, tem havido preocupações de que o desenvolvimento do Eko Atlantic esteja a causar erosão costeira e que possa tornar as áreas adjacentes vulneráveis a inundações.

 

Foto: MAN Energy Solutions

A Namíbia recupera 40 hectares para novo terminal portuário

Como o maior porto comercial da Namíbia, Walvis Bay processa 5 milhões de toneladas de carga todos os anos. Um projeto de 5 anos, de 300 milhões de dólares, permitiu mais do que duplicar a capacidade do porto para contentores e reduzir os tempos de espera para os navios. O seu novo terminal de contentores, construído em 40 hectares de terrenos recuperados, foi anunciado como estando totalmente operacional em setembro de 2020.

Foto: Patrick Meinhardt/Bloomberg/Getty Images

Nova refinaria espera reforçar a capacidade energética da Nigéria

Embora a Nigéria seja um dos países de África mais ricos em petróleo, as suas refinarias apenas operam a uma pequena fração da sua capacidade. Isto não é apenas mau para a economia — as faltas de combustível significam que a Nigéria sofre cortes de energia frequentes. Mas o homem mais rico de África, Aliko Dangote, está a construir uma refinaria de petróleo que afirma irá resolver o problema de combustíveis da Nigéria. Ocupando 2635 hectares, a nova Dangote Petroleum Refinery será a maior de África, com capacidade para processar 650 000 barris por dia. Dangote espera criar um mercado para o petróleo bruto nigeriano com um valor de 11 mil milhões por ano.

Foto: Patrick Meinhardt/AFP/Getty Images

Renovação da ferrovia do Quénia

Concebido para ligar as principais cidades do Quénia e, eventualmente, os países vizinhos, o Kenya Standard Gauge Railway é o maior projeto de infraestrutura realizado pelo Quénia desde a independência, em 1963.

A construção da primeira secção de 482 quilómetros (300 milhas) entre a cidade costeira de Mombasa e a capital do Quénia, Nairobi, foi concluída em 2017. A uma velocidade média de 120 quilómetros (74 milhas) por hora, a viagem de comboio entre as duas cidades demora agora apenas quatro horas, em vez de 12. O projeto de 3,8 mil milhões de dólares foi desenvolvido pela empresa de construção chinesa China Road and Bridge Corporation (CRBC) e 90% financiada pelo China Exim Bank.

Foto: Patrick Meinhardt/AFP/Getty Images

A segunda fase do projeto Standard Gauge Railway, que liga Nairobi e Naivasha, uma cidade popular junto dos turistas pela sua proximidade ao Parque Nacional Hell's Gate e ao Parque Nacional do Monte Longonot, foi aberta aos passageiros em 2019. O projeto de 1,5 mil milhões de dólares também foi construído pela CRBC e financiado pelo Exim Bank. As extensões à linha atual estarão ainda a ser ponderadas, nos próximos anos, com propostas de linhas que ligam à Etiópia, ao Uganda e ao Sudão do Sul, bem como linhas adicionais dentro do Quénia.

Foto: Pius Utomi Ekpei/AFP/Getty Images

Nova linha de caminho de ferro irá ligar a Nigéria

Outro projeto de caminho de ferro ambicioso, o Lagos-Kano Standard Gauge Railway, na Nigéria, irá cobrir 2700 quilómetros (1678 milhas) desde a cidade portuária de Lagos, até à cidade a norte de Kano, perto da fronteira com o Níger. Destinada a impulsionar a economia, a linha de caminho de ferro irá transportar passageiros e carga. Construído pela China Civil Engineering Construction Company (CCECC) e parcialmente financiado pelo Exim Bank, o projeto está a ser concluído em várias etapas: a primeira secção entre Abuja e Kaduna foi concluída em 2016, enquanto que a segunda secção, de Lagos a Ibadan, iniciou os testes em dezembro de 2020.

Foto: Konza Technopolis Development Authority (KoTDA)

Um novo hub tecnológico no Quénia

Ainda na fase inicial de construção, a Cidade Tecnológica de Konza (também conhecida por Konza Technopolis) foi concebida para se tornar a sede da fluorescente cena tecnológica do Quénia. Apenas a 37 milhas de Nairobi, a cidade de 2023 hectares é o projeto emblemático do Kenya 2030 Vision, uma iniciativa para impulsionar o crescimento económico no sector tecnológico e das comunicações.

O avanço do projeto tem sido lento, mas angariou mais de 666 milhões de dólares em financiamento da China e o gigante chinês das telecomunicações, Huawei, vai desenvolver o centro de dados para o projeto. Os atuais planos incluem tecnologia integrada para cidades inteligentes, como sensores nas estradas que otimizam o fluxo do tráfego.

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