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Diretor de contas da consultora de comunicação AMP

Comunicar o perigo que ainda não chegou 

10 jul, 18:59
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Há um artigo recente da Revista Foreign Affairs sobre a reconstituição militar russa que, lido por quem trabalha em comunicação, não é afinal sobre a Rússia mas sobre a dificuldade quase insolúvel de sustentar uma verdade que o próprio público não está disponível para ouvir. A tese do texto, a de que uma Rússia derrotada na Ucrânia permanece a principal ameaça à Europa e se reconstitui num prazo de cinco a sete anos, coloca a NATO perante um problema que ultrapassa a diplomacia militar e que qualquer decisor, político ou não, reconhecerá de imediato. 

O primeiro dilema de comunicação é o do inimigo fraco que continua perigoso. Durante anos, a narrativa ocidental consolidou uma imagem de esgotamento russo, feita de sanções que funcionam e de um exército incapaz de avançar, e essa imagem cumpriu a função de sustentar o apoio à Ucrânia apesar da incerteza que o atual chefe de estado norte-americano causou. O problema surge no momento de a substituir por outra que soa ao seu contrário, porque as pessoas não processam argumentos isolados mas em contraste com a narrativa acumulada que já possuem, e qualquer inversão paga aquilo a que se pode chamar um imposto de coerência, ou seja, a tentação de contornar a explicação, de fingir que a mensagem sempre foi esta, é precisamente o que corrói a credibilidade de quem comunica. 

O segundo dilema, ainda mais ingrato, é o de “vender” a prevenção. Porque quando a guerra terminar, a pressão para desmobilizar e cortar na despesa de Defesa chegará no momento exacto em que o perigo é situado a cinco ou sete anos de distância, suficientemente distante para parecer abstracto.  

A prevenção é, em quase qualquer domínio, um dos conceitos mais difíceis de comunicar. Sobretudo porque o seu êxito é invisível e não há fotografia de uma guerra que não aconteceu ou do ataque informático evitado. O paradoxo que daí resulta e persegue todo o responsável político, é que os media tendem a ignorar quem previne e recompensar quem reage de forma visível a uma crise já instalada.  A comunicação da prevenção exige uma disponibilidade política que raramente sobrevive a um ciclo eleitoral. 

É incrivelmente complexo comunicar uma incerteza genuína sem cair no alarmismo ou na complacência. Este é o terceiro dilema. Basta ouvir como até os mais capazes analistas se dividem quanto à severidade de uma ameaça militar futura e todas as nuances que comporta. Seja sobre a Rússia, Irão, China ou outra ameaça qualquer. 

Assim sendo, o responsável político ora teme a acusação de fabricar ameaças para alimentar a indústria de defesa ou uma qualquer agenda belicista, perdendo tudo no dia em que a ameaça anunciada não se confirmar, ou sabe que se atenuar e falhar na mobilização das vontades e dos recursos, a confirmação da ameaça que ignorou ditará o seu fim. É por isso que muitas certezas se revelam como dívidas já vencidas.  

No fim do dia, o que protege a credibilidade do decisor político é a capacidade de tornar entendível para todos, a própria incerteza e em que a baseamos. 

O que une estes três dilemas e onde reside a lição para quem decide, é que uma comunicação honesta feita perante uma realidade complexa colide com os incentivos cognitivos e políticos que empurram o eleitor para a simplificação limpa e mobilizadora. Pior ainda, estes três dilemas reforçam-se entre si, na medida em que o tal imposto de coerência do primeiro fragiliza a incerteza do terceiro e a invisibilidade da prevenção agrava a tentação para exagerar.  

A verdadeira disciplina, em qualquer instituição séria, consiste em resistir à mensagem limpa em favor daquela que sobrevive ao contacto com os acontecimentos, ainda que seja sempre menos confortável de dizer e mais penosa de ouvir. 

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