As mortes por afogamento entre crianças pequenas estão a aumentar nos Estados Unidos. Especialistas alertam que estas tragédias são, em grande parte, evitáveis com vigilância constante, barreiras nas piscinas, aulas de natação e coletes salva-vidas
O afogamento é a principal causa de morte entre as crianças dos 1 aos 4 anos nos Estados Unidos — e o problema está a agravar-se.
Depois de vários anos de descida, as mortes de crianças por afogamento aumentaram desde a pandemia de Covid-19, possivelmente devido às interrupções nas aulas de natação e no acesso a piscinas públicas. Esta tendência voltou a suscitar preocupação entre pediatras e pais.
Estas tragédias podem, em grande medida, ser evitadas quando as famílias e as comunidades utilizam várias camadas de proteção, de acordo com um relatório recente da Academia Americana de Pediatria, que analisou os dados científicos mais recentes sobre a prevenção de afogamentos.
Para ajudar a compreender o que os pais e cuidadores devem saber, falei com a especialista médica da CNN na área do bem-estar, a médica Leana Wen, que é também mãe de duas crianças pequenas. Wen é médica de urgência e professora clínica associada na Universidade George Washington. Foi anteriormente responsável pela saúde pública da cidade de Baltimore.
CNN: Por que razão este problema está novamente a receber tanta atenção?
Leana Wen: Este relatório apresenta uma análise abrangente das provas científicas sobre a prevenção de afogamentos. Os autores avaliaram décadas de investigação sobre quem corre maior risco de se afogar e quais as intervenções que demonstraram salvar vidas. Apresentaram também recomendações atualizadas para as famílias, os profissionais de saúde e os decisores políticos.
O afogamento continua a ser um importante problema de saúde pública. Entre bebés que já começaram a andar e crianças pequenas, o afogamento é a causa de morte mais comum, ultrapassando as malformações congénitas. Entre as crianças dos 5 aos 14 anos, o afogamento é a segunda principal causa de morte por lesão não intencional, apenas atrás dos acidentes rodoviários. Em 2024, 1075 crianças e adolescentes com menos de 20 anos morreram devido a afogamentos não intencionais, incluindo incidentes relacionados com embarcações.
Muitas dessas mortes poderiam ter sido evitadas. Uma das principais mensagens do relatório é que a prevenção dos afogamentos exige várias camadas de proteção, incluindo vigilância próxima, competências de natação, barreiras à volta das piscinas, coletes salva-vidas e políticas que melhorem a segurança na água. Quando estas medidas de segurança são utilizadas em conjunto, o risco de afogamento diminui substancialmente.
CNN: Quando pensam em afogamento, muitas pessoas imaginam alguém a gritar por ajuda e a agitar-se violentamente na água. É realmente assim que acontece?
Wen: Normalmente, não — e esta é uma ideia errada importante que deve ser corrigida. Na verdade, o afogamento é frequentemente surpreendentemente silencioso. Uma criança que está em dificuldades na água concentra-se, geralmente, em tentar respirar. Normalmente, não consegue agitar os braços nem pedir ajuda, porque está a utilizar toda a energia para tentar manter a boca acima da água. Quando alguém está em perigo, pode oscilar verticalmente, parecer que está a tentar subir por uma escada invisível ou simplesmente desaparecer sob a superfície.
É por isso que os especialistas sublinham a importância de uma vigilância ativa e sem distrações. Sempre que possível, as crianças devem nadar em locais com nadadores-salvadores, uma vez que os profissionais treinados conseguem reconhecer rapidamente sinais de perigo e iniciar o salvamento, caso seja necessário. Mesmo assim, os pais e cuidadores não devem depender apenas do nadador-salvador, sobretudo quando se trata de crianças com poucas competências de natação.
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Muitas organizações recomendam que seja designado um "vigilante da água" sempre que crianças pequenas estejam dentro ou perto da água. A única responsabilidade dessa pessoa é observar as crianças — não se afastar para conversar com amigos nem estar a percorrer conteúdos no telemóvel.
Esta recomendação procura também evitar uma circunstância tragicamente comum nos afogamentos de crianças: estão presentes vários adultos e cada um presume que outra pessoa está a vigiar a criança. Não façam essa suposição. Uma comunicação clara sobre quem é responsável pela vigilância pode evitar estas falhas.
CNN: Caso os pais pudessem adotar apenas algumas medidas para reduzir o risco de afogamento, quais colocaria no topo da lista?
Wen: A primeira é uma vigilância próxima e constante. Para bebés que já começaram a andar e crianças pequenas, isso significa permanecer à distância de um braço sempre que estejam dentro ou perto da água. Mesmo uma breve distração pode ser suficiente para uma criança entrar numa piscina e desaparecer do campo de visão.
Em segundo lugar, todas as piscinas residenciais devem estar protegidas por uma vedação nos quatro lados, que separe completamente a piscina da casa e do jardim. A vedação deve ter um portão que feche e tranque automaticamente e uma altura mínima de quatro pés, cerca de 1,22 metros. A investigação tem demonstrado de forma consistente que este tipo de vedação é uma das formas mais eficazes de impedir que crianças pequenas tenham acesso a piscinas sem vigilância.
Em terceiro lugar, devem ser utilizados coletes salva-vidas devidamente ajustados e aprovados pela Guarda Costeira dos Estados Unidos sempre que as crianças andem de barco ou nadem em lagos, rios ou outras massas de água naturais. As águas naturais podem ser imprevisíveis e os coletes salva-vidas representam uma importante camada de proteção, mesmo para pessoas que sabem nadar bem.
CNN: Quando devem as crianças começar a ter aulas de natação? Aprender a nadar elimina o risco de afogamento?
Wen: A Academia Americana de Pediatria recomenda que a maioria das crianças comece a aprender a nadar até aos 4 anos. Podem, naturalmente, iniciar as aulas mais cedo, sobretudo no caso de famílias que tenham uma piscina em casa, vivam perto de um lago ou de uma lagoa ou utilizem regularmente uma embarcação.
A investigação demonstrou que as aulas formais de natação reduzem substancialmente o risco de afogamento entre as crianças pequenas. As aulas podem ensinar competências importantes de segurança na água e aumentar a confiança, mas não eliminam o risco.
CNN: As taxas de afogamento variam entre diferentes grupos raciais e étnicos? Em caso afirmativo, porquê?
Wen: Entre as pessoas com menos de 30 anos, as taxas de mortalidade por afogamento são mais elevadas entre indígenas americanos e nativos do Alasca, seguidos pelas pessoas negras, segundo o relatório da Academia Americana de Pediatria. Entre as crianças e jovens dos 5 aos 19 anos, as crianças negras tinham uma probabilidade 5,5 vezes superior à das crianças brancas de morrer por afogamento em piscinas.
O relatório sublinha que estas desigualdades não resultam de diferenças biológicas. Refletem, provavelmente, fatores históricos e estruturais de longa data que influenciam o acesso a aulas de natação e a oportunidades para desenvolver competências na água. Em algumas comunidades, várias gerações de famílias tiveram menos oportunidades para aprender a nadar devido às dificuldades de acesso a piscinas e a outras instalações aquáticas. Alargar o acesso a aulas de natação a preços acessíveis e a locais seguros para nadar poderia ajudar a reduzir estas desigualdades.
CNN: Os conselhos de segurança na água variam consoante o local onde se nada?
Wen: Sim. As crianças pequenas morrem mais frequentemente por afogamento em piscinas residenciais, enquanto os adolescentes têm maior probabilidade de se afogar em massas de água naturais. Os lagos, rios e o oceano apresentam perigos adicionais, incluindo correntes, variações de profundidade e obstáculos submersos. Por isso, as famílias devem adotar precauções adicionais quando nadam nesses locais.
É sempre mais seguro nadar onde estejam presentes nadadores-salvadores. Antes de entrar na água, pergunte-lhes sobre os perigos locais, incluindo correntes, marés, qualidade da água ou outras condições que possam tornar a natação insegura. Esteja atento às previsões meteorológicas e respeite sempre as bandeiras de aviso.
Nunca nade sozinho. Isto é especialmente importante para os adolescentes, que podem sobrestimar as suas capacidades ou correr riscos desnecessários. Também nunca se deve nadar depois de consumir álcool, canábis ou outras substâncias que possam afetar o estado de alerta.
CNN: São vendidos aos pais muitos produtos, incluindo alarmes portáteis, alarmes de piscina e dispositivos insufláveis de flutuação. Quais destes são realmente úteis?
Wen: Alguns destes produtos podem acrescentar uma camada adicional de proteção, mas nenhum deve ser considerado um substituto da vigilância e das barreiras físicas que impedem o acesso à piscina.
Por exemplo, os alarmes de imersão usados no corpo e os alarmes de piscina podem alertar os cuidadores depois de uma criança entrar na água, mas não impedem que a criança entre na piscina. Da mesma forma, braçadeiras insufláveis, boias, tubos flutuantes de espuma e outros dispositivos de flutuação recreativos são brinquedos, não equipamentos salva-vidas. As crianças que os usam precisam de vigilância constante e nunca devem ficar sozinhas dentro ou perto da água.
CNN: O que deve fazer uma pessoa que presencia um afogamento?
Wen: Em primeiro lugar, retire a pessoa da água, caso o consiga fazer em segurança. Se não tiver formação em salvamento, evite colocar-se em perigo. Ligue imediatamente para o 911 — ou, em Portugal, para o 112 — ou peça a outra pessoa que faça a chamada enquanto decorrem as tentativas de salvamento.
Assim que a pessoa estiver fora de água, verifique se respira e se tem pulso. Caso contrário, inicie imediatamente manobras de reanimação cardiopulmonar e continue até à chegada dos profissionais de emergência médica. Quando ocorre um afogamento, cada minuto sem oxigénio aumenta o risco de lesões cerebrais permanentes ou de morte.
Por essa razão, recomendo vivamente que pais, avós, profissionais que cuidam de crianças, instrutores de natação e todas as pessoas que supervisionam regularmente crianças perto de água aprendam reanimação cardiopulmonar. É possível frequentar cursos de reanimação e aprender primeiros socorros para bebés, crianças e adultos através da Cruz Vermelha. Esperamos nunca precisar de utilizar essas competências, mas, caso ocorra uma emergência, poderemos ser a pessoa que salva a vida de alguém.
