Dois amigos viajantes passaram mais de duas semanas num país onde a sua liberdade foi questionada todos os dias e contam agora a sua aventura à CNN Portugal
Antes de partirem para mais uma das muitas viagens que fazem juntos, Marta e João casaram. Ou melhor, fingiram um casamento, até porque Marta tem namorada e João está noivo. Já tinham feito muitas viagens juntos, mas nenhuma como esta.
Depois de se vestirem para o casamento, de terem eternizado o momento através de um vídeo e de terem comprado duas alianças, rumaram para um país liderado por talibãs. “Já sabia mais ou menos para onde ia. Só que uma coisa é saber, outra coisa é experienciar essa realidade”, conta à CNN Portugal Marta Durán, 30 anos, líder de viagens, fotógrafa e criadora de conteúdos.
O Afeganistão foi o destino e a ideia inicial era passar 20 dias a conhecer a realidade do país, mas decidiram regressar três dias antes. “Percebemos que só queriam que víssemos aquilo que eles queriam”, diz Marta, referindo-se a constantes proibições e impedimentos.
"Não podem, não podem, não podem"
Muitos dos planos que tinham saíram furados. Ir a um lago, acampar, visitar uma escola, são alguns dos exemplos. Durante toda a viagem, viram-se obrigados a alterar o que tinham inicialmente previsto.
De forma a simplificar encontraram um guia local que tratou de questões logísticas como voos, alojamento, deslocações no país, entre outras coisas. Era com ele que andavam durante o dia e era através dele que ficavam a par do que podiam ou não fazer. “O guia simplesmente dizia: ‘afinal não vamos poder fazer isto. Falei com a inteligência talibã e eles dizem que não podemos fazer o trilho para as montanhas porque pode ser perigoso’; ‘olha, falei com a inteligência talibã e afinal não vamos poder acampar´.”
“O guia tinha de fazer esta comunicação com a inteligência talibã, como ele dizia, e depois eles diziam o que podíamos fazer, o que não podíamos fazer”, explica João Amorim, 34 anos, viajante e criador de conteúdos.“Eles sabem tudo o que vamos fazer, o que não vamos fazer, para onde vamos, como vamos. E mesmo se fôssemos sozinhos, sem guia, que é possível, é preciso avisá-los.”
“Tínhamos uma série de expectativas e coisas que queríamos fazer e visitar, e de experiências um bocado diferentes do normal e acabámos por não conseguir fazer quase nada, porque lá está: pela nossa segurança não pudemos ir ao lago, pela nossa segurança não pudemos caminhar, pela nossa segurança não pudemos acampar”, sublinha João.
O Afeganistão é considerado um país “não livre”, sendo que a liberdade global é cotada em seis numa escala que chega aos 100. A Finlândia, considerada um país livre, lidera esta classificação, atingindo o valor máximo. A classificação é da organização Freedom House, que avalia o acesso das pessoas aos direitos políticos e liberdades civis, através do relatório anual Freedom in the World (Liberdade no Mundo).
Tanto Marta como João estavam claramente a par do que se passava no país, mas ainda assim quiserem ver com os próprios olhos. “Desmistificar o que seria viajar pelo Afeganistão, ver com os nossos próprios olhos o país e experienciar, e não apenas aquilo que os media passam”, assume a jovem.
Jogar xadrez é uma atividade proibida no Afeganistão, ouvir música no carro - salvo música religiosa - é ilegal. Desde agosto de 2021, quando os talibãs derrubaram o governo e tomaram o poder, que o país enfrenta severas proibições, na sua grande maioria dirigidas às mulheres.
A partir do sexto ano de escolaridade estão proibidas de estudar; a “lei do vício e da virtude” impede que sejam ouvidas em público; estão proibidas de andar de transportes sem a presença de uma figura masculina. Olhar diretamente para um homem que não seja seu familiar é proibido; visitar parques públicos, frequentar feiras ou parques de diversão é igualmente proibido. Não podem praticar desporto, não podem ser vistas em público sem um acompanhante masculino. “Não podem, não podem, não podem, basicamente é o país das proibições”, lamenta Marta.
“Nós falámos com um talibã que se estava a lamentar que a filha estava quase a entrar na faculdade e teve de deixar de ir à escola”, conta João. “Nós temos de considerar que estas pessoas não se sentem identificadas com aquilo que lhes é imposto. Mesmo um talibã que lutou contra os Estados Unidos, que está lá com o trabalho de talibã, não concorda com este tipo de regras mais extremistas que são aplicadas no Afeganistão”, acrescenta.
O índice de liberdade no Afeganistão já esteve acima dos seis cotados atualmente. Em 2020 a pontuação era de 27, segundo a Freedom House. Manteve-se nesse valor até 2021, mas em 2022 desceu para os 10, em 2023 para os 8, até chegar ao valor atual.
Foi em agosto de 2021 que as tropas americanas deixaram o país e os talibãs tomaram o poder. Desde então, o líder Hibatullah Akhundzada exerce uma autoridade ilimitada sem recurso a constituição, num governo que não é reconhecido internacionalmente, exceto pela Rússia que em julho deste ano se tornou no primeiro país a reconhecer o Emirado Islâmico do Afeganistão.
Numa escala que chega até 40, o índice de direitos políticos encontra-se atualmente cotado em um (1/40). Já as liberdades civis no cinco numa escala que chega aos 60 (5/60).
“Eu acho que o mais importante de tudo é perceber que uma sociedade como o Afeganistão é uma sociedade deficiente em direitos para toda a gente. Um sítio onde as mulheres são impedidas de fazer uma coisa que os homens fazem, é, obviamente, mais restritivo para as mulheres, mas também o é para os homens. Não é uma sociedade saudável aos meus olhos e aos olhos da maioria das pessoas e aos olhos dos próprios afegãos”, lamenta João.
O Afeganistão é o último país numa lista de 177 países que avalia a paz e segurança das mulheres, isto de acordo com o índice de Paz e Segurança das Mulheres (WPS, sigla em inglês) no ano de 2023, que pontua e classifica os países no que diz respeito à inclusão, justiça e segurança das mulheres. Em 2023 foi considerado pela Organização das Nações Unidos (ONU) o país mais repressivo do mundo para as mulheres.
“Eu, na verdade”, conta Marta, “fui a uns parques em Cabul, na capital, onde de facto não havia mulheres e não havia famílias, porque era proibido”. “Mas eu era uma mulher privilegiada porque era turista. E senti sempre o privilégio de poder apanhar um avião e ir-me embora.”
Mas também viveram na pele um bocadinho daquilo que é a vida dos afegãos. Foram proibidos de fazer uma atividade que semanas depois de lá estarem foi autorizada a famílias afegãs, a mulheres afegãs. Foi num dos muitos checkpoints que passaram - em todos os talibãs pediam os passaportes, perguntavam para onde iam e o que iam fazer - que receberam a notícia de que Marta não podia ir ao destino final. Esse destino era um parque natural. O motivo? Ser mulher.
“Eu não sabia, nós não sabíamos porque não tínhamos sido avisados dessa parte. E de facto parámos, o talibã viu que estava uma mulher, disse qualquer coisa ao nosso guia, demos a volta para trás e depois aí o guia explicou que as mulheres não podiam ir ao parque, que as famílias não podiam ir ao parque natural, estavam proibidas.”
Os talibãs deste checkpoint eram diferentes dos que estavam habituados a ver. “Os talibãs, normalmente, estão armados, parecem tropas, todos tapados. Estes não. Estes eram talibãs com uma bata branca. Depois percebemos que eram os talibãs da religião. Portanto, ainda são mais severos e mais extremistas”, descreve Marta.
“Foi aí que me caiu a ficha do país onde estava. Foi aí que me apercebi da opressão que aquelas mulheres vivem. As proibições de não poderem fazer nada”, expressa Marta.
O desfecho da situação foi ela ir passar o dia ao mercado, “fazer coisas de mulher”, como diz, passear pelas lojas, comprar um lenço e conviver com mulheres; já João foi ao parque, que descreve como uma “experiência deprimente”. “Não estava lá ninguém, não se passava nada”, confessa.
Além deste episódio e de tantos outros momentos tensos durante a viagem, os dois amigos recordam o momento em que temeram a vida no Afeganistão. Numa ida a um mercado, o guia que estava no carro aproxima-se deles e diz que têm de ir embora.
“Nós os dois já passados porque a viagem foi toda ‘vamos ter de ir embora’, ‘não podemos estar aqui’, ‘não podemos’. Para viajantes que passam a vida a fazer o que querem, a irem por onde querem, a explorar tudo, estavam a ser muito duras essas proibições todas”, confessa Marta.
Antes de sequer haver tempo para questionar a decisão, o guia dirige-se para ambos e diz: “Estamos a ser perseguidos”. Rapidamente entraram no carro. Atrás estava um homem numa mota que os estava a perseguir. “Estávamos com medo porque o guia e o condutor estavam com medo.”
Por esta altura já tinham tomado a decisão de ir embora mais cedo, mas esta foi a gota de água para perceberem que a experiência devia chegar ao fim. “Depois daquilo nós só queríamos ir embora”, confessa.
“Já tínhamos tomado a decisão de ir embora e depois aconteceu aquilo com o talibã e foi ‘pronto está na hora de ir embora’. Quando estás em viagem e não estás a desfrutar, não tens de provar nada a ninguém e o importante é a tua segurança e o teu bem-estar físico e mental e naquele ponto da viagem já estávamos cansados”, afirma Marta.
Apesar das regras e proibições constantes - “lembro-me perfeitamente: estava um grupo de talibãs num dos checkpoints e eu ia entrar e eles mandaram-me logo embora, não podia estar ao pé dos homens” -, Marta diz que geralmente era bem tratada pelos talibãs.
“Alguns tratavam-me bem, outros desprezavam-me. Os da religião só queriam que eu estivesse tapada mas não posso formar uma opinião sobre os talibãs. Como tudo, as pessoas são diferentes, havia talibãs que se percebia que eram contra o próprio regime.”
João diz que sentiu que algumas experiências ou até interações com os talibãs acabaram por ser limitadas, ou por estar acompanhado por uma mulher, ou por conta das circunstâncias em si. “Senti que eles a respeitavam a 100% e que as interações dos homens com Marta eram super-respeituosas, sempre a manter aquela distância. Olhavam para mim e percebiam que eu estava ali com ela e tratavam-nos com muito cuidado.”
“As mulheres só falavam com a Marta, comigo não falavam praticamente e os homens falavam comigo e com a Marta, mas falavam com ela com esse respeito”, conta.
A decisão de simular um casamento e assumirem-se como casados não era necessária, mas, como diz João, “não trouxe desvantagens.” Além de conseguirem poupar algum dinheiro ao ficarem a dormir no mesmo quarto ‘por serem marido e mulher’, foi “uma questão de facilitismo, uma questão de não deixar as pessoas desconfortáveis num lugar onde as pessoas são realmente muito conservadoras”, explica João.
O vídeo de casamento, diz Marta, “foi para ter alguma coisa real caso alguém perguntasse”. Não foi preciso mostrar, mas ambos admitem que pela rua lhes perguntavam se eram marido e mulher. “Vinham ter connosco na rua e perguntavam com aquele entusiasmo: ‘então e vocês são casados?’ Sim. ‘E quando é que vão ter filhos?’ Para o ano”, ilustra João.
Para os dois viajantes esta foi uma experiência desafiadora. João sente alívio por ter voltado e com uma sensação de missão cumprida.
“As coisas correram mal no sentido em que não conseguimos fazer quase nada do que queríamos mas era isso que nós íamos à procura, era da realidade. Portanto, o correr mal se calhar é aquilo que nós mais próximos temos da realidade deles, do dia a dia deles. Ficámos frustrados mas satisfeitos no sentido em que sentimos que tivemos uma experiência real no Afeganistão e não uma experiência ‘maquilhada’ por sermos turistas.”
Marta regressa “com mais bagagem e com vontade de continuar a viajar por estes países e tentar desmistificar, tentar mostrar o outro lado também e tentar que as pessoas tenham mais empatia”.
Como aconteceu numa ida ao mercado, quando Marta foi abordada por uma mulher. “Tenho até parte do áudio em que uma mulher afegã me diz ‘por favor, mostra isto no teu país, mostra o que é que as mulheres afegãs passam por aqui’.”