Fronteira de mais de 2.500 quilómetros continua a ser palco de grandes tensões
O Afeganistão lançou uma operação militar ofensiva contra posições do Paquistão ao longo da fronteira entre os dois países.
O anúncio foi feito pelo porta-voz dos Talibãs que, de acordo com a agência Reuters, justifica a ação com uma retaliação a recentes ataques aéreos do Paquistão.
“Em resposta a repetidas provocações e a violações dos círculos militares paquistaneses, operações ofensivas de larga escala foram lançadas contra posições militares paquistanesas e em instalações ao longo da linha de Durand”, disse Zabihullah Mujahid, através de uma publicação no X, referindo-se à demarcação feita ainda na era pré-colonial, e que nenhum dos países reconhece de forma total.
O responsável afegão indicou que "vários soldados" foram mortos e "alguns foram capturados vivos" no início das operações, com 15 postos "capturados ao inimigo"
Em reação, o Ministério da Informação e Transmissão do Paquistão garantiu que as tropas do paós realizaram uma "resposta imediata e efetiva" em vários setores.
"As forças do regime talibã estão a entregar o castigo em Chitral, Khyber, Mohmand, Kurram e Bajaur. Os primeiros relatórios confirmam pesadas baixas no lado afegão com postos múltiplos e equipamento destruído", indicou o governo paquistanês.
O que está a acontecer?
Os dois países partilham uma fronteira de 2.611 quilómetros, a tal linha de Durand, que o Afeganistão não reconhece formalmente, o que sempre levou a tensões entre os dois lados.
Esta ação afegã vem na sequência de operações militares do Paquistão no passado domingo, com ataques realizados ao longo da fronteira que mataram pelo menos 70 talibãs. O Afeganistão negou os números, tendo dito apenas que morreram civis, incluindo mulheres e crianças.
De acordo com Islamabade, os ataques foram dirigdos a sete campos militares e esconderijos que estão colocados na fronteira. Foi a partir de lá que, segundo o Paquistão, se lançaram vários ataques terroristas em território paquistanês.
Na altura, o Afeganistão acusou o Paquistão de ter atingido casas de civis e até uma escola religiosa.
Esta é a mais recente onda de ataques entre os dois lados, que em outubro chegaram a um cessar-fogo assinado em Doha, no Catar, que se está a revelar visivelmente frágil, não conseguindo evitar confrontos nas fronteiras.
Por detrás dos confrontos está uma terceira parte, os Talibãs Paquistaneses, grupo conhecido como Movimento Talibã do Paquistão (TTP), que foi formado em 2007 por jihadistas que pretendiam lidar pelos Pashtun, um grupo étnico de origem iraniana que tem grande presença na fronteira entre os dois países.
Esse mesmo grupo foi criado à imagem dos talibãs, na altura fora do poder no Afeganistão, que era dominado pelas forças ocidentais, lideradas pelos Estados Unidos. Só que o TTP adotou a ideologia da Al-Qaeda, o que fez com que se tornasse mais violento.
Por isso mesmo, ao longo de anos foram vários os ataques a mercados, mesquitas, aeroportos, bases militares ou estações da polícia, com o grupo a conseguir mesmo ganhar algum território na fronteira que separa Afeganistão e Paquistão, incluindo dentro deste último país, uma das poucas potências nuclares em todo o mundo.
Conseguiram mesmo entrar no Vale do Swat, e foi lá que atingiram a tiro Malala Yousafzai, ativista que foi laureada com o Prémio Nobel da Paz. De acordo com o grupo, a atividade da jovem - então com 15 anos - nas redes sociais, nomeadamente no Facebook, motivou a ação.