Como as operações de combate dos Comandos de Portugal contrapõem os "insultos" de Trump à NATO / Afeganistão

26 jan, 22:53
Comando português em Cabul, Afeganistão, em 2005 (Paul Ames/AP)

Presidente dos EUA disse que as tropas dos restantes países da NATO no Afeganistão “ficaram um pouco para trás, um pouco afastadas da linha da frente”, numa declaração em que procurava desvalorizar os aliados dos EUA. “Sempre disse: ‘Eles estarão lá se precisarmos deles?’. E esse é realmente o teste definitivo. E não tenho certeza disso”, afirmou Trump. Para Keir Starmer, estas declarações são “insultuosas e francamente chocantes”, para a presidência francesa e Giorgia Meloni são “inaceitáveis”

Para o major-general Jorge Saramago, que exerceu funções na NATO no Afeganistão no quartel-general da ISAF (International Security Assistance Force) em Cabul, as críticas de Trump não são “de todo erradas” - embora “injustas”.

“Injustas” porque, explica, a NATO assumiu o controlo das operações em várias províncias afegãs. “Não era porque os EUA não tinham capacidade, a razão foi efetivamente serem aliviados ou apoiados pelos seus aliados da Aliança Atlântica.”

Jorge Saramago dá o exemplo do exército da Alemanha, que comandava as operações na zona de Mazar-i-Sharif. “Respondiam ao comando da ISAF, que estava localizada em Cabul, mas comandavam eles próprios um conjunto de forças da NATO que atuava nesta província. Isto aplicava-se a todas as províncias, desde Kunduz a Helmand. Todas tinham uma lead nation.”

Soldados alemães da ISAF em Mazar-i-Sharif, a norte de Cabul, Afeganistão, no dia 8 de fevereiro de 2007 foto AP

Como tal, as tropas da NATO estavam na linha da frente, a comandar e a realizar “operações de combate, contraterrorismo, contraguerrilha, contrainsurgência e também operações contra o tráfico de narcóticos”. Mas não só.

“A NATO conduzia também operações de apoio e de treino às forças policiais, às forças militares e aos governos provinciais, como ainda a escolas e à justiça. Havia uma vertente de apoio civil, à governação, e outra de apoio militar e condução da guerra”, explica o major-general. “Claro que a crítica é injusta. A NATO produziu operações de combate e teve muitas baixas”, acrescenta.

Mas a ideia de que Trump não está totalmente errado pode ser explicada com uma palavra: caveat. A expressão caveat serve para designar qualquer restrição ou limitação imposta por um Estado para as suas forças armadas num cenário de intervenção multinacional ou em coligações da NATO. Sumariamente, há países que restringem a atuação das suas forças armadas no terreno. Essa limitação pode ser não participar em operações de combate numa determinada região, com determinado armamento ou não participar de todo em operações de combate.

Jorge Saramago afirma que os países da NATO autorizam o destacamento das suas tropas, mas com “muitíssimos caveats”. É nesse contexto que elogia a presença portuguesa no Afeganistão.

“Portugal teve uma força importantíssima em Cabul, constituída essencialmente por forças dos Comandos. Era uma quick reaction force”, começa por explicar. “Esta força era fortemente armada e tinha meios blindados e, quando era necessário aplicá-la fora de Cabul, era deslocada de helicóptero. A força portuguesa não tinha caveats, portanto não tinha limitações e podia ser empregue, e era empregue, em operações de combate. Há registos de vários comandantes da NATO que chegaram a dizer que eram as melhores forças que tinham ao seu dispor justamente porque não tinham caveats”, explica o major-general.

Já para o tenente-general Rafael Martins, que participou na Operação Enduring Freedom, lançada após o 11 de Setembro, as palavras de Trump foram “perfeitamente descabidas”. “É uma observação consistente com a provocação, mas vai além da provocação - vai para o desrespeito para com os aliados, chamados a cumprir missões ao lado e às vezes até integrados com forças americanas, para defender aquilo que eram os objetivos da NATO e da ISAF”, explica o tenente-general. “As palavras de Trump não representam minimamente o espírito de solidariedade que os países da NATO entregaram a essas mesmas missões.”

Rafael Martins refere que há já um “conjunto muito significativo de países, com uma representação muito maior do que Portugal teve, que já fizeram notar que as palavras de Trump são completamente descabidas e desrespeitosas, não fazem qualquer sentido e os países só têm de se sentir ofendidos por essas mesmas palavras”. Quanto ao governo português, que ainda não reagiu, o tenente-general diz que o silêncio “é uma atitude com alguma representação”.

“É não dar importância a uma observação que é totalmente descabida e desprovida de verdade. Se toda a gente começar a bater na mesma tecla, depois falta tempo para falar sobre outras coisas muito mais importantes e com muito maior eficácia. Eu não vejo, de modo algum, que não dizer a mesma coisa que outros já disseram nos diminua.”

Para Jorge Saramago, reagir como Starmer ou Macron “é uma avaliação política que deve e que tem de ser feita”, cabendo ao Executivo essa tarefa, mas salienta que a maneira mais “normal” de expressar o desagrado seria através dos canais diplomáticos.

“Vivemos um tempo estranho em termos de política internacional, mas aquilo que é normal é falar através dos canais formais. Portugal podia clarificar a sua posição perante a embaixada americana em Lisboa, que faria chegar a Washington DC a posição portuguesa”. Porém, as declarações públicas têm uma vantagem: “Fica clara qual é a posição e postura face às declarações”.

E.U.A.

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