Manifesto de 150 páginas que muitos consideram "radical" é o esboço para o estado onde a AfD espera ter uma grande vitória
Enquanto um partido nacionalista europeu via o seu domínio sobre o poder chegar abruptamente ao fim na Hungria no passado fim de semana, outro surfava uma onda de popularidade que fortalece a sua influência na política alemã.
O capítulo da Alternativa para a Alemanha (AfD) no antigo estado da Alemanha de Leste, Saxónia-Anhalt, realizou o seu congresso partidário no passado fim de semana, antes das eleições estaduais de setembro, que podem dar ao partido - outrora um pária político - a primeira maioria absoluta nos seus 13 anos de história.
Num discurso apaixonado perante cerca de 250 delegados, o carismático candidato principal do partido de extrema-direita na região, Ulrich Siegmund, deu uma ideia clara de como seria o governo da AfD no estado.
“Dizemos sim a deportações consistentes”, disse a estrela das redes sociais, extremamente popular, ao congresso no sábado, na capital do estado, Magdeburgo. Mais tarde, os membros do partido aprovaram um manifesto de 150 páginas para o estado, que muitos consideram “radical”.
Num esboço do manifesto, a que a CNN teve acesso, a AfD defende mudanças drásticas nas políticas de migração, educação, bem-estar social e energia. O partido propõe uma "guinada de 180 graus" na política migratória, incluindo a deportação e aquilo a que chama "remigração" - um termo com conotações nazis. Refugiados ucranianos que fugiram da guerra estariam entre os alvos.
Mesmo que o partido conquiste a maioria absoluta nas eleições estaduais de setembro, a AfD não poderá implementar tais mudanças, que são da responsabilidade do governo federal em Berlim. Contudo, o manifesto oferece uma visão clara do pensamento de um partido que antes era considerado marginal, mas que agora representa uma ameaça ao establishment político.
Parte desta mudança pode ser atribuída à imigração. Em 2015, a Alemanha abriu as suas portas a quase um milhão de refugiados, a maioria da Síria, acolhendo quase três milhões na década que medeia entre então e 2024.
A Alemanha ainda enfrenta as consequências deste legado. Nos últimos anos, uma onda de sentimento anti-imigração contribuiu para o crescimento da AfD em todo o país, principalmente após uma série de ataques perpetrados por imigrantes em 2024 e 2025, incluindo um numa feira de Natal em Magdeburgo.
No seu discurso aos membros do partido naquela cidade, Siegmund afirmou que a Europa estava a observar aquilo a que chamou “esta eleição histórica”.
Se o seu partido ganhar, a Saxónia-Anhalt será o segundo antigo Estado da Alemanha de Leste a eleger a AfD como o seu maior partido, a seguir à vizinha Turíngia. Pesquisas recentes indicam que a popularidade da AfD ronda os 40%, mais de 10 pontos percentuais à frente dos partidos rivais.
O partido já está bem estabelecido na antiga Alemanha de Leste, onde a sua popularidade é frequentemente atribuída às disparidades económicas com o oeste do país, que derivam do passado comunista da região. Muitos eleitores ressentem-se do que consideram ser disparidades económicas entre o leste e o oeste do país.
Este ano, porém, há sinais de que a AfD está também em ascensão no oeste do país, uma tendência preocupante para os partidos tradicionais da Alemanha, como a CDU, o partido do chanceler Friedrich Merz, e o SPD, que faz parte da coligação governamental.
Em março, a AfD teve um bom desempenho em duas eleições estaduais, Baden-Württemberg e Renânia-Palatinado. Em ambos os casos, registaram-se grandes aumentos no número de eleitores, 9% e 11% respetivamente, em relação às eleições anteriores, em 2021.
Os resultados não foram suficientes para vencer em nenhum dos estados, mas indicam uma tendência mais ampla: a política e as propostas da AfD estão a encontrar ressonância entre os alemães de todo o país.
O manifesto também não contribuirá muito para dissipar as alegações de ligações do partido à Rússia.
“As atuais políticas anti-Rússia dos partidos políticos tradicionais, contudo, não são do interesse da Alemanha. Estão a dividir a Europa”, refere o texto, que pede o levantamento das sanções contra a Rússia e a implementação de aulas gratuitas de russo.
Esta posição contrasta fortemente com a do governo nacional alemão, que tem sido um forte apoiante da Ucrânia na guerra contra a Rússia.
A campanha da AfD, intitulada “Visão 2026”, visa claramente desafiar os valores europeus consagrados. Após os reveses sofridos pelos partidos nacionalistas nas eleições locais de março em França e, no passado fim de semana, na Hungria, a Saxónia-Anhalt, na Alemanha, representa mais um grande teste à sua capacidade de converter a preocupação popular com a migração, a identidade e o nível de vida em sucesso nas urnas.