O partido de extrema-direita alemão vai passar a ser controlado pelos serviços secretos e pode mesmo vir a ser proibido. EUA e Kremlin já reagiram ao que dizem ser uma "tirania disfarçada" na Alemanha
O partido Alternativa para a Alemanha (AfD) avançou com uma ação judicial contra os serviços secretos da Alemanha, que classificaram o partido como uma organização "extremista de direita".
"Com a nossa ação judicial, estamos a enviar um sinal claro contra o abuso do poder do Estado para combater e excluir a oposição", declaram os colíderes do partido, Alice Weidel e Tino Chrupalla, denunciando o que dizem ser um esforço dos serviços secretos para "distorcer a competição democrática e deslegitimar milhões de votos".
Em causa está a decisão do Gabinete Federal para a Proteção da Constituição (BfV), a agência de informação do Ministério do Interior alemão, que concluiu que o AfD é uma organização "extremista", tendo sido decisiva para esta classificação "a compreensão étnica do povo" por parte do partido que, segundo o BfV, "desvaloriza grupos populacionais na Alemanha e viola a sua dignidade humana". "Essa compreensão do povo reflete-se na postura geral anti-imigração e antimuçulmana do partido", refere-se num comunicado da agência, que investigou o partido durante três anos - investigação que está descrita num relatório de 1.100 páginas, que não será divulgado ao público.
A classificação de "extremista" permite aos serviços secretos alemães intensificar o controlo sobre a AfD, desde logo através do recrutamento de informadores e da interceção de comunicações do partido.
Um porta-voz do tribunal administrativo de Colónia adiantou à Reuters que recebeu uma ação judicial e uma petição de emergência correspondente e que ambas serão analisadas assim que a agência BfV confirmar que recebeu a notificação.
A classificação de extremista abrange outros grupos na Alemanha, país que tem fortes regras contra o extremismo político, dado o seu passado nazi, para salvaguardar a democracia. São eles os grupos neonazis como o Partido Nacional Democrático (NDP), os grupos islâmicos, incluindo o Estado Islâmico, e os grupos de extrema-esquerda, como o Partido Marxista-Leninista da Alemanha.
Esta decisão reacendeu o debate em torno da proibição do AfD, partido que ficou em segundo nas eleições legislativas de fevereiro, com quase 21% dos votos. Lars Klingbeil, líder do SPD - partido que integra a coligação liderada por Friedrich Merz, que vai tomar posse como chanceler alemão esta terça-feira - anunciou que o novo governo vai analisar essa possibilidade.
Uma análise do INSA, instituto alemão de sondagens de opinião, para o jornal Bild, revela que 48% dos alemães defende a proibição do AfD, contra 37% que se manifestam contra a proibição daquele que é hoje o segundo maior partido da Alemanha.
Apesar do apoio generalizado à proibição do AfD, o chanceler cessante, Olaf Scholz, apela para que "não se apresse" uma decisão deste género, lembrando que o Tribunal Constitucional já rejeitou todos os pedidos de proibição do partido de extrema-direita até à data, razão pela qual diz ser contra “tomar decisões precipitadas”. "Temos de avaliar cuidadosamente a classificação [do partido como extremista]", aconselhou na sexta-feira, dia em que ficou conhecida a decisão dos serviços secretos.
O parlamento alemão também pode tentar limitar ou suspender o financiamento público do AfD mas, para isso, os deputados precisam de provas de que o partido está explicitamente empenhado em prejudicar ou mesmo derrubar a democracia alemã. Ora, uma vez que na Alemanha os partidos são financiados por quotas, além de donativos e dinheiro dos impostos, isto significa que o AfD poderia perder mais de 10 milhões de euros em financiamento público.
Além disso, os funcionários públicos que pertencem a uma organização classificada como “extremista” podem ser despedidos, dependendo do seu papel na entidade, de acordo com o Ministério do Interior alemão.
EUA denunciam "tirania disfarçada", Kremlin lamenta "restrições"
Tal como já vem sendo frequente, os EUA voltaram a interferir na política alemã, com o secretário de Estado norte-americano Marco Rubio a reagir ao que diz ser uma "tirania disfarçada" no país. "A Alemanha acaba de dar à sua agência de espionagem novos poderes para controlar a oposição. Isto não é democracia, é tirania disfarçada“, escreveu Rubio na rede social X, apelando às autoridades alemãs para ”inverterem o rumo".
“O que é realmente extremista não é a popular AfD - que ficou em segundo lugar nas últimas eleições - mas sim as políticas de imigração de fronteiras abertas das autoridades, às quais a AfD se opõe”, adiantou o chefe da diplomacia da Administração de Donald Trump.
Esta não é a primeira vez que a administração Trump interfere na política alemã.
Em meados de fevereiro, o vice-presidente JD Vance fez um discurso em Munique, alegando que a liberdade de expressão estava a “recuar” na Europa, visando em particular a Alemanha. Na sexta-feira, fez uma publicação na rede social X a afirmar que "o AfD é o partido mais popular da Alemanha e, de longe, o mais representativo da Alemanha de Leste". "Agora, os burocratas estão a tentar destruí-lo. O Ocidente deitou abaixo o Muro de Berlim em conjunto. E foi reconstruído - não pelos soviéticos ou russos, mas pelo establishment alemão", escreveu.
Também Elon Musk recorreu ao X para argumentar que "proibir o partido centrista AfD, o partido mais popular da Alemanha, seria um ataque extremo à democracia". Isto depois de ter apoiado publicamente aquele partido durante a campanha para as eleições legislativas de fevereiro.
O Kremlin reagiu esta segunda-feira, lamentando que o cenário político europeu esteja "cheio de medidas restritivas contra forças políticas e indivíduos cuja visão do mundo não se enquadre na corrente dominante mainstream”. As palavras são do porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, que ressalvou, contudo, que esta é uma questão doméstica e que, por isso, a Rússia não tenciona interferir.
O AfD foi criado em 2013, começando como uma plataforma de oposição aos resgates aos países da zona Euro em dificuldades. Em 2015, rejeitou uma decisão da então chanceler Angela Merkel de permitir a entrada de um grande número de refugiados na Alemanha - o que ajudou a transformar o partido numa força política significativa, até se consolidar como o segundo partido da Alemanha.