"Qualquer dia morre alguém": falsos táxis criam alarme no aeroporto de Lisboa e levam ANA a pedir reforço de meios policiais

22 ago 2025, 07:00
Aeroporto táxis

Representantes do setor descrevem a zona das chegadas do Aeroporto Humberto Delgado como um “barril de pólvora”. Há dias, uma rixa entre verdadeiros e falsos táxis levou a uma paralisação de veículos no terminal. A ANA, entidade que gere a infraestrutura, garante estar “preocupada com o agravamento das atividades ilegais de angariação de clientes” e diz ter denunciado “indícios de possível envolvimento de organizações criminosas”. Um dos casos envolveu este preço: “Chegaram a cobrar 550 euros por uma viagem até ao Cacém”

O curto vídeo foi gravado no dia 13 de agosto: nele é possível observar cerca de 20 taxistas a correrem atrás de um outro conjunto de homens que várias associações do setor identificaram como fazendo parte de um grupo dedicado a angariar clientes no aeroporto de Lisboa para um negócio ilícito de “falsos táxis”. As imagens, explica quem testemunhou o momento, não contam toda a história. 

 

“Miguel”, um taxista de 42 anos que esteve presente durante a rixa na zona das chegadas do Aeroporto Humberto Delgado e que pediu para falar sob a condição de anonimato, refere que aquele momento foi a gota de água de um problema que se tem vindo a intensificar nos últimos meses. “O que acontece é que há dezenas de grupos sem qualquer acreditação que se infiltram dentro do aeroporto e abordam principalmente turistas e vendem-lhes serviços de táxi.” 

“Quando aceitam”, continua o motorista de táxis, estes grupos encaminham os turistas para um carro descaracterizado que “habitualmente os apanha junto à zona do Metro e que cobra preços exorbitantes”. “Chegaram a cobrar 550 euros por uma viagem até ao Cacém ou 350 euros até à zona da Baixa”, acrescenta. No dia em que ocorreram confrontos físicos, segundo relatos de associações do setor, um taxista apercebeu-se desta “manobra” e dirigiu-se ao carro para informar os turistas que para lá eram encaminhados de que “o veículo não era um táxi e que iriam ser burlados”, conta Florêncio Almeida, presidente da ANTRAL. “Naquele momento, foi ameaçado por perto de 15 indivíduos, que o rodearam.” 

O taxista ameaçado, segundo apurou a CNN Portugal, pediu depois ajuda aos restantes colegas no local, que começaram a perseguir o grupo e chegaram a “deixar um dos membros estendido no chão”, disse o motorista que presenciou o momento. Foi esse episódio de violência que levou, no mesmo dia, cerca de 200 taxistas a parar os veículos na zona das chegadas, causando o caos no acesso ao Aeroporto Humberto Delgado. O momento deixou a ANA, a entidade que gere a infraestrutura, em alarme. 

“Indícios de possível envolvimento de organizações criminosas”

Na segunda-feira decorreu uma reunião de urgência sobre este problema e que juntou o administrador da ANA Francisco Pita e representantes das associações de táxi, confirmou a CNN Portugal junto de várias entidades que estiveram presentes. Durante a reunião, o administrador explicou a membros da ANTUP, da ANTRAL e da Federação Portuguesa do Táxi que tem estado em coordenação com as autoridades para pedir um reforço da fiscalização e uma presença mais musculada na zona. 

Segundo o que a CNN Portugal apurou, o administrador garantiu também que vão ser efetuadas obras em algumas zonas do aeroporto de Lisboa que têm como intuito limitar o acesso de veículos - que não táxis e TVDE - às zonas das chegadas e das partidas, de forma a promover o transporte público e impedir a atuação destes grupos. O previsto, apurou a CNN Portugal, é que a intervenção esteja concluída daqui a um ano e meio. 

Fonte oficial da ANA confirmou a reunião e manifestou “a sua preocupação com o agravamento das atividades ilegais de angariação de clientes no aeroporto de Lisboa”, nomeadamente para a “prestação de serviços ilegais de transporte de pessoas, embalagem de bagagens e a oferta de espaço disponível em bagagens para transporte de bens de terceiros”.

Apesar do reforço de medidas já implementadas pela ANA, sublinha a mesma fonte apontando para campanhas de informação dirigidas aos passageiros sobre os riscos da aceitação destes serviços e o aumento da presença de equipas de segurança privada na área de chegadas, “estas práticas persistem e têm vindo a intensificar-se, de forma visível perante o público e as autoridades”. 

A ANA confirmou ainda ter “alertado repetidamente as entidades competentes para esta situação, bem como para os indícios de possível envolvimento de organizações criminosas”. “Nesse sentido, considera essencial a criação de um enquadramento legal adequado e a disponibilização de meios policiais reforçados, capazes de erradicar estas atividades ilegais dos aeroportos nacionais e de garantir um ambiente seguro e de confiança para todos os passageiros”. 

A mesma fonte recomenda ainda aos passageiros que, para sua segurança, “não aceitem propostas de serviços não solicitados e que optem sempre por serviço devidamente licenciados e devidamente identificados nos terminais, assegurando assim a sua segurança”. 

“Barril de pólvora”

ANA afirma que está "preocupada" com o agravamento das atividades ilegais de angariação de clientes / Lusa

Um dos pontos relatados na reunião-relâmpago de segunda-feira, afirmam associações do setor, foram as repercussões da rixa de 13 de agosto. Segundo relatou fonte oficial da ANTUP, tem sido registado “dezenas de casos de retaliações levadas a cabo por estes grupos envolvidos no negócio ilícito dos falsos táxis”. “Têm sido partidos carros na Praça do Comércio e na Estrada de Chelas e verificados apedrejamentos na Alta de Lisboa e na zona das Galinheiras.” 

Por causa disto, as centrais de táxis lisboetas têm emitido alertas aos seus colaboradores para evitarem estas zonas. Numa dessas mensagens, obtida pela CNN Portugal e datada de 14 de agosto - um dia após a rixa no aeroporto -, lê-se que as centrais foram alertadas para a ocorrência de "incidentes envolvendo apedrejamento de viaturas táxi nas zonas de Lumiar, Ameixoeira e Alta de Lisboa". "Pede-se aos colegas que tenham maior cautela nos trajetos nas zonas acima referidas e, caso verifiquem a mesma situação em outras zonas, informem a respetiva central."

Florêncio Almeida, representante da ANTRAL, confirma igualmente ter recebido relatos de violência contra taxistas que disse ter sido “resposta às atuações no aeroporto de Lisboa”. “Estão a apedrejar veículos de táxi, criou-se um problema mesmo muito grave.” Este representante garante também que se reuniu há um mês com o comando geral da PSP, tendo-lhe sido garantido que iria existir um “reforço de fiscalização”. “O aeroporto está a ferro e fogo, é um barril de pólvora, um faroeste, qualquer dia morre alguém.”

A CNN Portugal contactou a PSP para tentar obter esclarecimentos acerca desta reunião e sobre a necessidade de reforço de fiscalização no aeroporto de Lisboa, mas até ao fecho deste artigo não obteve resposta.

De resto, na segunda-feira a ANTUP reuniu-se também com o grupo municipal de Lisboa do Chega, num encontro em que a associação apontou estar preocupada com atos de violência que possam vir a acontecer no aeroporto. Bruno Mascarenhas, o candidato do Chega à Câmara de Lisboa, diz que a zona de chegadas do Humberto Delgado está a tornar-se uma “verdadeira batalha campal” e alerta para a existência de “máfias” que “estão a potenciar a economia paralela da cidade e a prejudicar o negócio dos taxistas” na capital, cobrando, por vezes, “200 a 300 euros em viagens de curta duração”.

Estes esquemas têm vindo a ser denunciados pela TVI e pela CNN Portugal num conjunto de reportagens emitidas pelo programa Exclusivo, no qual revelava o modus operandi destes grupos: fingem ser motoristas e angariam turistas para os conduzir até ao centro das cidades, levando-os a pagar preços exorbitantes, podendo ultrapassar até oito vezes o valor real.

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