O que é que se passa no aeroporto de Lisboa? E porque é que a TAP é líder nos cancelamentos?

5 jul, 07:00

O aeroporto de Lisboa vive no limite da sua operacionalidade. Qualquer imprevisto, por mais pequeno que seja, cria uma avalanche de problemas

O caos no Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, tornou-se um cenário cada vez mais normal e porventura trágico para um país que vive do turismo. Passou mais um fim de semana no qual se contabilizaram quase uma centena de cancelamentos e esta segunda-feira o problema manteve-se. Os passageiros sem voos, sem bagagens, sem uma cama para dormir e sem informações vão-se acumulando. 

Porque é que isto acontece? Quais são as verdadeiras razões por trás deste caos? E, sobretudo, porque é que não se resolve? Os especialistas alegam que não há espaço para arrumar aviões, faltam funcionários, a extinção do SEF não foi oportuna, o número de passageiros não pára de subir e neste bolo ainda entra a política de gestão de pessoal da TAP. Recorde-se que a companhia aérea nacional tem ficado com a maior fatia dos voos cancelados. 

No comentário semanal no Jornal das 8 da TVI, Paulo Portas abordou esta questão e defendeu que "arrumar aviões é o problema mais dramático", tornando-se "a causa de muito do caos que nós vemos".

"As causas para este caos são: uma que melhorou um pouco com a entrada da PSP, que é a ideia peregrina de extinguir o SEF no meio de uma época turística; a política de gestão de pessoal da TAP, que é crítica, porque há uma grande tensão e muitos não estão a aceitar trabalhos adicionais. É feita no limite e isso significa muitas vezes: ‘não há tripulantes, não há voo’; e o aeroporto tem de ter obras de extensão. As obras na Portela permitem ter mais slots, mais portas de embarque e, sobretudo, muito maior arrumação dos aviões", explicou. 

Zona de chegada do Aeroporto de Lisboa (Lusa/Miguel A. Lopes)

"Uma morte anunciada"

O aeroporto de Lisboa tem, atualmente, 38 voos por hora - entre partidas e chegadas -, mas pode chegar a um limite de 42. Para Carlos Matias Ramos, antigo bastonário da Ordem dos Engenheiros, são demasiados aviões e passageiros para tão pouco espaço. "Tudo isto faz com que haja atrasos", explicou à CNN Portugal.

"O aeroporto tem 500 hectares, em números redondos. É materialmente impossível que este aeroporto responda àquilo que são as expectativas de evolução, tanto no número de aeronaves como de passageiros".

O especialista lembrou o relatório do Eurocontrol, de dezembro de 2016, que dizia que o aeroporto saturaria em 2030 - com obras de expansão feitas e com 48 movimentos por hora -, mas "tudo leva a crer que será muito antes. É uma crónica de uma morte anunciada. Não é novo. É uma situação identificada, caracterizada, com conhecimento por parte da ANA, mas não há vontade da VINCI".

A situação do aeroporto de Lisboa é urgente e precisa de uma solução igualmente urgente enquanto não avança o projeto para uma nova infraestrutura. Questionado sobre quais poderiam ser as medidas a curto prazo, Carlos Matias Ramos foi taxativo: "Enquanto não existir um novo aeroporto, vamos continuar a assistir a este problema. Mas é preciso explicar como é que uma atividade que é lucrativa internacionalmente está, em Portugal, na situação em que está". 

Os problemas estão à vista de todos. Portela não tem capacidade de resposta, muito por causa da escassez de slots, e, por isso mesmo, o aeroporto é obrigado a rejeitar clientes. É preciso aumentar slots e expandir o estacionamento. Mas a questão não fica por aqui. Tem havido um crescente aumento de passageiros, ao mesmo tempo que se corta no número de trabalhadores.

Segundo dados da ANA Aeroportos, entre 2019 e 2021, foram despedidos 743 empregados, o que representa uma queda de 23%. Por outro lado, o aeroporto de Lisboa tem recebido um número crescente de passageiros. No fim de semana de 13 de junho, quando o caos nos aeroportos portugueses voltou a ser notícia, o SEF esclareceu que tinha sido atingido um pico de 50 mil passageiros em Lisboa.

Porque é que a TAP é líder no cancelamento de voos? 

O foco na TAP é importante por dois motivos: é a companhia aérea que ocupa mais slots no Aeroporto Humberto Delgado e, consequentemente, a que mais cancelamos acumula. A CNN Portugal questionou a companhia aérea portuguesa sobre o porquê de os voos serem cancelados e se isso está relacionado com a eventual falta de pilotos ou tripulantes de cabine. A resposta, contudo, não foi esclarecedora.

"A TAP é a única companhia que tem o seu hub operacional em Lisboa e é também responsável pela maioria dos voos no aeroporto Humberto Delgado. É natural e expectável que, neste momento em que verificam grandes constrangimentos operacionais em todo o mundo, afetando todas as companhias, a TAP seja aquela que, em Lisboa, por ser a operadora da maioria dos voos, seja a mais afetada. Assim deve acontecer, também, com a Iberia em Madrid, a Air France em Paris, a British Airways em Londres e por aí fora", lê-se na nota enviada. 

Mas alguns funcionários da TAP contactados pela CNN Portugal argumentam que a companhia tem não só um défice de pilotos e tripulantes de cabine, como ainda de pessoal de manutenção. Este cocktail, com mais alguns ingredientes como a falta de aviões, são a receita perfeita para o cancelamento de voos. 

Desde que a pandemia de covid-19 chegou a Portugal que os trabalhadores da TAP têm sofrido cortes salariais: para pilotos e mecânicos foi de 45%; para a tripulação de cabine de 25%. E também houve lugar a despedimentos. Por isso, muitos destes trabalhadores, e particularmente os pilotos, deixaram de trabalhar nas folgas e feriados. Aliás, houve alturas em que a TAP preferiu alugar aviões a outras companhias aéreas a pagar estes dias de férias e folgas. Ou seja, um passageiro comprava um voo da TAP, por exemplo, para Londres e quando chegava ao aeroporto deparava-se com um avião da British Airways.

Isto significa que, atualmente, a TAP marca voos para as slots que tem disponíveis sem garantir que tem pilotos, mecânicos e tripulantes suficientes. Mas não só. Sempre que um voo é cancelado, a gestão torna-se mais complexa porque pode fazer com que não consiga garantir pilotos e tripulantes para os voos seguintes, ou porque a tripulação acabou por fazer horas a mais ou porque os voos chegaram atrasados e isso compromete as horas de descanso legalmente estabelecidas.

Para além disto, faltam aviões. Em dezembro do ano passado, a TAP perdeu 18 slots (nove duplas, de aterragem e descolagem) no âmbito do acordo com a Comissão Europeia para o plano de reestruturação. Ora, com menos slots, precisaria de comprar aviões maiores para levar o mesmo número de pessoas. No entanto, a companhia aérea optou por comprar aviões mais pequenos e mais velhos.

TAP (Lusa/Mário Cruz)

Um aeroporto no fio da navalha 

O caos recorrente no aeroporto de Lisboa deve-se ao facto de este viver no limite da sua operacionalidade. Por isso, qualquer imprevisto, como o furo de um pneu de um avião, por mais pequeno que seja, cria uma avalanche de problemas. É um aeroporto que não tem margem para falhas.

Existe um desenquadramento do próprio aeroporto e das empresas e entidades que lá trabalham, como o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) ou mesmo a Groundforce. O défice de recursos humanos é geral e estende-se às companhias aéreas.

"Para se colmatar ou fazer cumprir o plano de contingência, a fiscalização e a investigação criminal tiveram que parar. (...) Qualquer aeroporto internacional, tem três vezes mais funcionários que o SEF tem no aeroporto de Lisboa", disse à CNN Portugal Renato Mendonça, presidente do Sindicato dos Inspetores de Investigação, Fiscalização e Fronteiras SEF (SIIFF).

Basta imaginar o Aeroporto Humberto Delgado como uma camisa justa, onde não cabe mais nada. Com a pandemia, a ANA Aeroportos e as empresas que prestam serviços e também as próprias companhias aéreas tentaram adequar os custos à quebra de procura. Isto implicou um corte no pessoal com o objetivo de contratar mais barato a seguir. Mas a procura continuou a aumentar, apesar de ainda não ter atingido os valores pré-pandemia. A TAP já admitiu que o problema não vai ser resolvido durante as próximas semanas. E, se nada for feito, o verão está e vai continuar a ser caótico.

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